Simplicidade - O que é ser cristão?

Num mundo complexo e consumista como o nosso, nem dá para parar e pensar naquilo que é essencial, básico para a vida. 

Há pouco tempo conheci um pastor de Moçambique que relatou como ele e os colegas são capazes de andar 70 km, a pé, para ir fazer cultos às aldeias mais próximas. É um achado quando têm bicicletas ou uma motorizada emprestada para percorrer longas distâncias em estradas de terra batida, cheias de buracos, lombas e perigos. 

Não estamos a falar de uma actividade social de jovens da igreja, para passarem uma tarde agradável juntos, a passear nas suas bicicletas. São homens que, por amor a Cristo, aos seus irmãos e às pessoas que ainda não têm Jesus, percorrem essas estradas de estômago vazio mas com o coração cheio de paixão por Jesus. 

Vivemos num país bem diferente de Moçambique. Não há comparação possível... mas há! A cultura portuguesa é diferente da moçambicana, mas nós somos tão cristãos quanto os nossos manos de África.

Vamos ser honestos: temos estradas mais que suficientes, transporte próprio, mas custa-nos tanto sair do sofá para estar com os nossos irmãos, partilhar a Palavra de Deus e louvá-Lo! Porquê? 

Simplicidade, porquê?
Por vezes dou por mim a dar valor a muitos “extras”. Claro que precisamos de ter planos na igreja e actividades que alcancem pessoas para Jesus. É obvio que devemos trabalhar para fazer tudo com excelência para Ele. A questão é quando essas coisas se tornam o nosso objectivo e não um meio, uma ferramenta.

Tudo vem da base. Penso que precisamos, antes de qualquer coisa, compreender o que somos e porque fazemos as coisas. Aquilo que para nós significa ser cristão leva-nos a esperar certas coisas da igreja e do próprio Deus. O problema é que a nossa noção de cristianismo pode não ser correcta. Conceitos simples e básicos como o que é ser cristão precisam estar claros na nossa mente.

Ser cristão é ser discípulo
Quando entregamos a nossa vida a Jesus, Ele derruba o pecado que nos afasta de Deus e transforma-nos em novas pessoas. À decisão de deixar que Jesus nos transforme junta-se outra: a de sermos Seus discípulos. Isso significa que nos tornamos alunos, aprendizes, não apenas receptores mas também seguidores dos ensinos de Jesus. 

É como se o novo nascimento fosse a porta da escola prática do cristianismo, na qual o Espírito Santo nos leva a compreender e a pôr em prática os ensinos de Jesus. 

Se encaramos ser cristão como simplesmente o beneficiário de um “pacote de serviços e vantagens”, estamos redondamente enganados. Se somos discípulos, não é Jesus que nos segue a nós. Ou seja, não é Jesus que tem que fazer aquilo que nós “declaramos” ou exigimos. 

Como discípulos, vivemos simplesmente para Ele, por causa Dele e com Ele. É por isso que, quando estamos reunidos, Jesus deve ser o foco principal da nossa adoração, dos nossos testemunhos, da nossa pregação. Claro que Deus tem bênçãos e promessas para nós, mas erramos se estas são o centro da nossa vida cristã. 

Qualidades essenciais
Nas bem-aventuranças (Mateus 5:3-12) Jesus revela o carácter que todos os que O seguem devem ter. O carácter é o que somos demonstrado no que fazemos. É o nosso interior reflectido nas nossas atitudes.

São oito características essenciais para todos os Seus discípulos e não apenas para alguns mais “especiais” – tipo os pastores, os professores de Escola Dominical ou os irmãos idosos. Também não é uma “ementa” da qual escolhemos aquilo que nos apetece. Se somos discípulos de Jesus aceitamos o “pack completo”: ser mansos e bons para com os outros, humildes de espírito e limpos de coração, chorar e ter fome, procurar a paz e até sermos perseguidos. Isto fala de santidade.

Embora Jesus tenha dado esta lista de qualidades àqueles que O escutavam na altura, a santidade divina não mudou, nem com o tempo, nem com as circunstâncias. Ou seja, Deus continua a exigir de cada cristão estas mesmas características.

Ser implica fazer 
Para conseguirmos “fazer” o que está nesta lista, temos que “ser”. Como vimos antes, somos transformados em novas pessoas. Tudo o que Jesus pede aos Seus discípulos é visível por actos e palavras, mas parte do interior.

Sermos discípulos implica proximidade do nosso professor e amigo Jesus. Ainda não estamos no Céu e há uma luta interior da nossa tendência natural para pecar com a nossa nova natureza dada por Jesus. Precisamos alimentar-nos da Palavra de Deus, buscando continuamente a intimidade com Ele através da oração, louvor e renovação no Espírito para permanecermos firmes. Mais uma vez, é na Sua dependência que conseguimos. 

Paulo fala disto aos cristãos de Éfeso: “Vocês foram ensinados, quanto à forma de vida que levavam anteriormente, que se devem desfazer dessa velha natureza que vai apodrecendo na sua própria imoralidade, nas suas ilusões. E que o vosso entendimento se renove nas atitudes a tomar na vida. Devem revestir-se do novo homem que é criado por Deus e que se manifesta na verdadeira justiça e na santidade.” (Efésios 4:22 a 24 – Versão “O Livro”).

A verdadeira felicidade
Bem-aventurado significa feliz. Jesus promete que quem tem aqueles oito “condimentos” na sua vida, é feliz. Reparem que Jesus não disse que nos vamos sentir felizes. Os sentimentos são variáveis e incertos. Mas, como pessoas nascidas de novo que buscam a Deus continuamente, somos felizes. Essa felicidade é uma atitude consequente da nossa obediência. 
Deus sabe como funcionamos, pois é o nosso Criador. Como alguém disse, é pela obediência às leis morais de Deus (mandamentos) que nos realizamos e encontramos verdadeiramente. Ou seja, somos mais humanos (mais felizes!) quando fazemos a vontade de Deus.
Assim como aquelas oito características são o “perfil do cristão ideal”, assim também as oito bênçãos são parte de um só “pacote” (ser cidadão do reino dos Céus, receber consolo, herdar a terra, ter fartura de justiça, alcançar misericórdia, ver a Deus, etc). São oito responsabilidades e oito privilégios para todos os que decidem ser discípulos, governados inteiramente por Deus.

Uma mudança 
Ser cristão, como vimos, é ser um seguidor diário e permanente de Jesus – da Sua Palavra e do Seu exemplo. Só nos conseguimos tornar e permanecer discípulos se cultivarmos a nossa relação com Ele.
O verdadeiro cristianismo não está baseado nas circunstâncias, nas comodidades ou gostos pessoais. O verdadeiro cristianismo depende, sempre e em primeiro lugar, de Deus e da Sua vontade. Se conseguirmos interiorizar esta verdade, a nossa vida com Deus e com os nossos irmãos mudará. 
Quantas vezes procuramos que a igreja simplesmente satisfaça os nossos desejos, tipo génio da lâmpada? Ou vou a Jesus na expectativa daquilo que Ele me dá? Ou na exigência de que os outros me façam sentir bem, com aquilo que cantam ou pregam? Sou consumista de igreja ou um discípulo incondicional?
“Jesus, pois, vendo as multidões, subiu ao monte; e, tendo se assentado, aproximaram-se os seus discípulos, e ele se pôs a ensiná-los.” (Mateus 5:1 e 2 ) 
Muda-me, Jesus. Que eu seja, antes de tudo, simplesmente discípulo.

Ana Ramalho

in revista BSteen, Agosto 2008

Fontes consultadas
Contracultura Cristã - A mensagem do Sermão do Monte, John Stott, ABU; Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis, Martins Fontes; Estudo no Sermão do Monte, Martyn Lloyd-Jones, Editora Fiel


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Teresa — até que todos ouvissem...

5 mitos acerca da chamada a tempo integral

A (des)ilusão da autoajuda