O adepto perdido

O estádio empolgado vibrava em ambas as cores, nas duas partes de 45 minutos. O resultado: a equipa de estimação, mais do que mérito, tinha perdido.

A derrota somava-se a tantas desse campeonato, na extensão limitada de uma época. Já se descortinava a chacota no resumo desportivo da TV, as piadas do locutor do programa da manhã, o desabafo medianamente confrontador dos colegas de trabalho, no dia seguinte. Tinham perdido, outra vez.

Enquanto se embrenhava nestes pensamentos, o adepto derrotado descia a rua, até ao transporte público mais próximo, cansado pelo que gritou e desmotivado por pouco: uma bola a bater na rede da baliza do clube preferido.

Afinal, a sua vida era parecida com a história do desporto que admirava: campeão um ano, derrotado no seguinte... vitória sim, vitória não...  Sentia-se perdido. Não era o “azar” do jogo que lhe dava esperança para o amor à vida... estava cansado de correr atrás da bola da felicidade insaciável, de saltar para se defender do sucesso alheio, de viver em faltas constantes para obter o suposto e fascinante estatuto que nunca lhe deu plena segurança ou paz.

Quando vivia entre as quatro linhas, anos atrás, era um jovem atleta puramente iludido. Pensava que tudo seriam rosas que perdiam os espinhos para os outros. Contas milionárias. O “eu” bajulado pela imprensa, os patrocinadores, a família e os (supostos) amigos. O vigor e sucesso ascendente estava garantido, pensava. Que loucura! 

Uma lesão fatal arrancou-o das primeiras páginas, atravessou com ele anos de tratamentos inconsequentes e colocou-o numa secretária, como recepcionista de um periódico desportivo. Era como se a vida lhe desse um cartão vermelho sem retorno. E a amargura vencia-o dia a dia, como a equipa adversária vencera o jogo daquela noite.

A viagem de autocarro até aos subúrbios parecia não terminar. Adormeceu. Despertou umas paragens antes da sua fuga para a liberdade do privado e embrenhou-se na mesmice da vida solitária e caída que tão bem alimentava.

Na sala empoeirada, procurou um livro para o adormecer. Recuperou da semi-biblioteca encaixotada um volume de capa gasta, pequeno, com as bordas das páginas bem amarelas. Abriu ao calhas e leu: “Se um homem tivesse cem ovelhas e uma delas se desgarrasse e se perdesse no deserto, não deixaria as outras noventa e nove para ir à procura da que se perdeu até a encontrar? Então, alegremente, carregá-la-ia sobre seus ombros, para casa. E, quando ali chegasse, reuniria amigos e vizinhos para se regozijar com eles, por a sua ovelha perdida ter sido achada. Semelhantemente, haverá mais felicidade no céu por causa de um pecador perdido que voltou para Deus do que por os outros noventa e nove que não se desgarraram!”1 

Com os olhos a lacrimejar, deixou o livro de lado, olhou para cima e exclamou: “Estou perdido, Deus... passo o tempo a perder. Perdi a carreira, perdi a dignidade, perdi a vontade de viver... Ajuda-me, Deus! Ajuda-me!” Deixou-se chorar e balbuciar outras frases e pedidos de socorro a Deus... e uma mudança começou a acontecer, uma lufada de esperança e um sentido real para a vida, mesmo no meio dos campeonatos mais duros da existência.

E tu? Preferes continuar perdido ou queres perder-te nos braços de Deus, o Pai amoroso? Deixa o Seu amor vencer-te hoje!

Ana Ramalho Rosa



1 Lucas 15:4-7, Versão “O Livro”


in revista Novas de Alegria, Abril 2011


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