07 outubro 2011

Anarquismo Cristocêntrico

Pertencer a um corpo multi-composto não é fácil... Nem todos podem ser coração, uns têm que ser músculo. Existe quem deseje ser pulmão, mas tem que se contentar em ser joelho. A vida é assim mesmo, tal como o é ser parte da Igreja. Assiste-se hoje, a um fenómeno novo e que tem levado a ponderações. Uma debandada física do corpo de Cristo, uma espécie de fragmentação. Existe quem continue a estar na igreja local, mas também existe quem opte por se divorciar da mesma. É uma espécie de anarquismo com base em Cristo.

Não existe sujeição a nada, mas apenas e só a Ele. Cria-se uma espécie de paradoxo, motivado pelo "cansaço" de pertencer à igreja local, pela criação de grupos comunitários alternativos (e onde a assumpção de que parte do corpo somos, é mais fácil e mais agradável), pela consideração de que toda a liturgia envolvida na vida da igreja é aborrecida e entediante, por uma busca mais "real" do que é estar relacionado com Deus (creio que outro paradoxo ou então uma falácia de que "mais real com Deus = menos problemas") ou por uma má imagem que se gera, ligando a igreja local a uma espécie de country club, do qual ninguém (a não ser os infelizes e menos iluminados) desejam fazer parte.É uma ideia revolucionária, própria de quem tem sangue na guelra e fervilha de vontade de agir.

Mas neste caso, de agir de maneira errada e tudo menos virada para Cristo. Vamos por partes... A Igreja, o corpo universal de Cristo, não é perfeita, está num processo de aperfeiçoamento contínuo e para o qual todos nós contribuímos. O mesmo se pode dizer da igreja local. Na igreja local somos chamados a criar uma célula, que em conjunto com várias outras, vão perfazer o corpo de Cristo. Esta espécie de decorporização (corta-se o corpo, para subsistir a cabeça) não pode produzir resultados eficazes. Tal como na decapitação existe morte, na decorporização morte existe. O problema, é que este acto de desconexão parte do lado do ser humano, não do lado de Cristo.

Ao renunciarmos à igreja local, estamos na realidade a retalhar um propósito maior. E o facto de querermos estar ligados só à cabeça, sem qualquer ligação a outra parte do corpo, leva a que isso seja uma utopia ou então um filme de terror. Aniquila-se a participação na edificação mútua, algo contrário ao que é desejado por Deus (Hebreus 12:25), toma-se o caminho da auto-suficiência e auto-promoção a ungido. A rebelião e o desregramento nunca trouxeram coisas boas, sobretudo dentro da esfera de Deus. Duvido seriamente que agora o traga.As queixas de que a igreja local é uma comunidade diferente, podem (e devem) ser apontadas como insuficientes. É suposto a Igreja (universal, corpo de Cristo) e a igreja (local, amalgama de pessoas) serem comunidades diferentes. São compostas por homens e mulheres em fase de mudança progressiva, numa caminhada sem termo com Deus. A finalidade não é padronizar pelo mundo, é subir os standards e nivelar por cima. É uma missão difícil, mas a qualidade e a excelência perante Deus assim o motivam, logo, é de todo reprovável querer assumir o papel de Técnico de Controlo de Qualidade Espiritual e censurar/cortar/excluir/etc. tudo aquilo que não esteja conforme a norma auto-centrada dos nossos padrões.

A união, disposição mental e parecer que Paulo refere (1 Coríntios 1:10) também englobam a igreja local. Abandonar a congregação local e incitar à auto-iluminação, é desprezar a benção do corpo local. A possibilidade de obter aconselhamento pastoral (Romanos 15:14) e fraternal, torna-se apenas um acto dispensável. Ao desregramento básico inicial, pode então seguir-se um maior e mais complexo. Dá-se ao desprezo a ordenança de Paulo, para que reconheçamos quem trabalha, admoesta e preside entre nós por instrução de Deus (1ª Tessalonicences 5:12-13). Sendo uma comunidade multi-racial, multi-cultural e pluri-pessoal, a igreja local deve manter o seu estandarte e alargar as cordas da tenda. Mesmo que não concordemos com todas as acções, mesmo que seja difícil tornar-mo-nos parte ou socializar activamente, jamais foi escrito ou dito que ser Igreja na igreja é fácil. Feitios diferentes, personalidades próprias, histórias de vida variadas e modos de pensar vastos. A unidade em Cristo é a 1ª pedra de fundação para o contínuo crescimento. E isso é válido tanto para a vida pessoal, como para a vida colectiva da igreja local. A igreja local deve ser uma amostra percentual do amor da Igreja. O crescimento em amor uns pelos outros (1ª Tessalonicences 3:12), o suporte pessoal e cuidado mútuo pelo bem estar do nosso/a irmão/ã (1ª Coríntios 12:25), o encorajamento e incitação a que Cristo viva cada vez mais em nós (Hebreus 10:24), terminando na exortação e edificação contínua entre membros do corpo (1ª Tessalonicences 5:11); tudo isto são motivos mais do que válidos para a permanência na igreja local. Abandonar o corpo local, é o mesmo que ser amputado ao corpo universal. 

Ricardo Rosa

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