Eudolatro

Uma luta que o Homem tem desde que se conhece e se relaciona com Deus, é contra a idolatria e contra a falsa necessidade de encher um espaço divino com um enxerto problemático.

O relacionamento entre Deus e Homem foi danificado no Éden, mas começou a ser violentamente agredido no decurso desse episódio. Perante Deus, o ser humano sempre teve duas necessidades que se anulam quando uma delas é eleita. Escolher Deus ou escolher um deus. Optar pelo verdadeiro ou contentar-se com o contrafeito.

A idolatria assume duas definições básicas, mas que terminam sempre na mesma conclusão. Tanto pode ser uma imagem falsa de algo que supostamente é divino, como pode ser o apego descomunal a algo. Seja como for, redunda sempre no mesmo ponto: não é Deus e quer ocupar o Seu lugar na nossa vida. A idolatria não parece saber mal, antes pelo contrário, pode até ser extremamente agradável. Que o digam Labão que foi da actual Turquia até Israel atrás dos ídolos que a filha lhe roubou[1] ou Arão[2], que depois de ter sido usado como arauto de Moisés, cedeu à pressão do povo para construir um bezerro de ouro para servir de imago dei[3].

A linha entre o “gostar muito” e o idolatrar pode ser muito fina… Transgredir é fácil, ficar no “lado de lá” também não é complicado. Na realidade, sabemos que idolatramos quando recorrentemente conseguimos cortar no tempo com Deus, para podermos acrescentar no tempo com o ídolo. Ou seja, quando desistimos de investir num relacionamento apaixonado com o Pai, para nos envolvermos em flirts [4]com padrastos falsos, sujos e que não são nem vivos, nem verdadeiros[5] e que ao contrário de Jesus, vieram para matar, roubar e destruir[6].

O grande perigo da idolatria nos dias de hoje, não são as imagens esculpidas ou fundidas. O grande perigo começa imediatamente no desejo ardente da cobiça desenfreada; o consumismo é o primeiro passo para o adultério espiritual; a falta de contentamento em Deus e na Sua vontade é o antecedente escondido para os affairs[7] recorrentes e que querem passar despercebidos ao mundo em redor.

A idolatria é em tudo semelhante ao adultério. Partilham da mesma espinha dorsal. Não se espera pelo bom de Deus, para se comer dos restos do Homem. Não existe contentamento na esperança, existe o saciar no imediato. Substitui-se o compromisso do amor, pelo casual do egoísmo... A aparência da vida é substituída pela comunhão com o pecado[8] que nos dirige à morte[9].

O problema da idolatria começa na eudolatria. O eu passa a governar a nossa vida, passamos a ser adoradores egoístas, no sentido de que nos adoramos a nós mesmos. Somos pequenos deuses de músculo, osso e gordura que se auto proclamam reis e senhores. O nosso Kyrios[10] deixa de ser Cristo, de facto, Ele passa a ser apenas um elemento dispensável e meramente decorativo. Quando o é…

Os nossos desejos e vontades subjugam a nossa vida; passamos a ser cativos numa vida onde não é suposto existir cativeiro. Tornamo-nos escravos da nossa própria falta de consciência, endurecemos o coração porque existe um enxerto contaminado de humanismo que alastra por todo o nosso ser. O alvo mais que a neve torna-se sombrio mais que a noite…Mas existe uma esperança, uma solução…

A Boa Nova continua a ser a mesma! Jesus salva, liberta, cura e baptiza com o Espírito Santo. O caminho de volta do túmulo pode ser feito, basta retroceder no desejo íntimo do egocentrismo e tornar a dar o trono a quem é Rei. As mesmas mãos trespassadas pelos cravos continuam à espera do Homem. O mesmo Jesus que foi crucificado e agora está à direita do Pai[11], deseja que voltemos atrás neste percurso de auto-destruição e nos agarremos ao caminho, à verdade e à vida[12].

Não precisamos de idolatria, eudolatria, nem de qualquer outra latria. A nossa alma e espírito têm um espaço vazio e ele só é preenchido pelo amor, santidade e glória de Cristo!

Ricardo Rosa


[1] - Génesis 31:17-25
[2] - Êxodo 32:1-6
[3] - Termo latim para “imagem de Deus” ou “imagem divina”.
[4] - Termos saxónico para namoriscar.
[5] - Salmo 115:4-7
[6] - João 10:10
[7] - Termo saxónico para caso extra-conjugal.
[8] - Provérbios 5:3-6
[9] - Romanos 6:23
[10] - Termo de origem grega que significa “Senhor” ou “Mestre”.
[11] - Hebreus 1:3
[12] - João 14:6

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