Renúncia libertadora

Jean Jacques Rousseau,  um filósofo adepto do iluminismo[1], defende na sua obra “O Contrato Social” que “Renunciar à liberdade é renunciar ao que mais qualifica o homem, aos direitos da humanidade, aos próprios deveres. Para quem renuncia a tudo não há qualquer compensação”[2]. A obra de Rousseau elege o povo como força motriz de qualquer nação, decretando o povo como soberano e centralizando em si (no povo), todo o poder e atenção.

Nesta citação, que está encadeada no capítulo acerca da Escravatura, é assumido que o ser humano que renuncia a tudo, não tem direito a qualquer retorno por essa renúncia. A abnegação é misturada com a renúncia forçada, o acto amoroso do altruísmo é misturado com a privação da liberdade que leva o povo ao estado de escravo. No mesmo capítulo, Rousseau crava na figura do rei, enquanto líder de uma nação, o termo déspota e nega a entrega gratuita do homem.

Meditando no contexto sócio-económico actual do nosso país, lendo também esta obra, cheguei a uma conclusão simples mas eficaz. Para aqueles que crêem e amam a Deus, a abnegação e a entrega às mãos de um Rei, figuram tudo menos aquilo em Deus nos demonstra pela Sua Palavra e pelo Seu amor. Jesus é o constante exemplo da abnegação e do buscar o bem do irmão em primeiro lugar. Amar a Deus acima de todas as coisas, é procedido pelo amor aos nossos próximos (os que nos rodeiam, circundam, com quem nos cruzamos) como nos amamos a nós mesmos[3].

Sendo nós criados livres, com capacidade de escolha e conscientes das nossas decisões (pelo menos a grande maioria), devemos reflectir sobre a mensagem que a sociedade nos transmite hoje em dia. Renunciar aos próprios desejos, à chamada descaracterizada da liberdade actual, é ser digno de tudo menos de reconhecimento; para estes não existe “recompensa”. O Senhor Jesus declara directamente, usando o exemplo de uma pequena criança, que a simplicidade e pequenez (no sentido de humildade e dependência do Pai) têm como recompensa o maior galardão no Reino dos Céus[4].

Vivemos numa sociedade em que a retribuição é uma constante; existe um desprezo pelo altruísmo e pelo amor ao próximo, o esfriar dos corações em direcção à acção humanitária nota-se pela escalada de violência e pela Lei de Talião, “olho por olho, dente por dente”. Os exemplos de abnegação de Jesus, Paulo e Pedro (só para citar três grandes nomes) devem ser acções-espelho, as quais devemos reflectir para testemunho perante uma comunidade que cada vez mais se perde, se entrega ao vazio existencial e busca no prazer egoísta a sua satisfação.

Escrevendo a Tito, o apóstolo Paulo transmite aquilo que a Graça pretende que façamos no que toca ao modo social de interagir[5]. Entregarmo-nos a Deus e amar o próximo, não são uma renúncia à nossa liberdade. São antes o zénite da verdadeira liberdade, a mesma com que Deus nos criou e que tem sido acorrentada e violentada pela queda em declínio do Homem; que martiriza milhões de vidas que ainda não beberam da Fonte de Água Viva. A verdadeira liberdade, aquela com que Deus nos criou e da qual deseja que usufruamos, não é reconhecida pelo poderio militar, pela exorbitância financeira ou pelo ascetismo oriental. A verdadeira liberdade está no facto de amar o meu próximo como a mim mesmo, de não desprezar as suas dores e anseios, mas de poder abençoa-lo e amá-lo tal como Jesus amou (e ainda ama) todos aqueles que estão entregues à dominação do pecado.

Nós, que conhecemos e amamos a Deus, temos sobre nós a responsabilidade e o peso (saudável e encorajador) de amar de modo desinteressado e de usufruirmos da nossa liberdade em Cristo. Esta liberdade, torna-nos soltos do pecado e da condenação eterna[6], não nos aprisiona e qualifica-nos. Contrariando Rousseau, é uma liberdade que nos torna filhos e filhas de Deus, aguardando pela vinda de Cristo, em quem teremos a futura recompensa pela nossa fidelidade e amor, não só a Ele, como aos que estão ao nosso lado. A humanidade em si arrolou o direito à destruição quando Adão e Eva pecam no Paraíso, mas Cristo carregou em si as nossas imperfeições e impiedade, para que agora possamos arrolar para nós como direito imerecido o amor e a presença do Espírito Santo de Deus.

Renunciar ao eu é aceitar dar o passo de amor de Jesus. Procurar amar ao próximo como a mim mesmo, é dizer à nossa carne e ao nosso intelecto que somos criados à imagem e semelhança de Deus, que desejamos uma vida de santidade e de abundância da Sua presença. Renunciar ao egocentrismo não é contrário à natureza humana, pois Deus criou-nos de modo semelhante a Si, com capacidade para não nos auto idolatrarmos, sem mácula e de modo muito bom. Renunciar às nossas paixões e desejos incontroláveis, à ideia central de uma sociedade confusa onde o “eu primeiro” reina, a uma vida despropositada e com défice de algo importante; é abraçar e dar o primeiro passo para desfrutarmos da gentil e indevida bênção de Deus, a Graça.

Rousseau está sem dúvida alguma certo quando escreveu “Dizer que o homem se entrega gratuitamente é uma afirmação absurda.”[7]. Entregamo-nos porque existe alguém que já se entregou pelo nosso pecado e que nos permite esta escolha livre. Amar ou não a Deus, é de facto uma opção nossa, correspondente a cada um de nós, decidida no mais íntimo do nosso ser. É absurdo pensar que podemos chegar a Ele pelo nosso mérito, sobretudo quando foi Ele que chegou a nós pelo Seu amor. Mas absurdo ou não, o amor de Deus existe, tal como existe a Sua tremenda e inviolável paixão e desejo de ver reconciliado consigo (e por meio de Jesus Cristo, o nosso mediador) todo o homem e toda a mulher à face da Terra.

Estamos nós prontos a renunciar a uma liberdade empestada de grilhões invisíveis e a assumir uma postura de serventia que nos liberta realmente? Estamos nós dispostos a viver de um modo livre o amor de Deus, deixando para trás todo o embaraço e paixão da carne? Sigamos então o conselho na epístola aos Hebreus[8] e vivamos livres da seguinte forma:

“Portanto, nós também, pois estamos rodeados de tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com perseverança a carreira que nos está proposta, fitando os olhos em Jesus, autor e consumador da nossa fé, o qual, pelo gozo que lhe está proposto, suportou a cruz, desprezando a ignomínia, e está assentado ã direita do trono de Deus. Considerai, pois aquele que suportou tal contradição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos canseis, desfalecendo em vossas almas.”

Ricardo Rosa


[1] - Corrente filosófica do século XVIII que defende que o ser humano, levando a cabo uma prática constante de auto-análise e da razão para melhorar a sociedade.
[2] - Rousseau, Jean Jacques – “O Contrato Social”- 2010 - Editorial Presença Lda. – Colecção “Livros que mudaram o Mundo”- p.22
[3] - Mateus 22:38-40, Marcos 12:30-32, Lucas 10:26-28, Romanos 13-9
[4] - Mateus 18:1-4
[5] - Tito 2:11-14
[6] - Romanos 8:2
[7] - Rousseau, Jean Jacques – “O Contrato Social”- 2010 - Editorial Presença Lda. – Colecção “Livros que mudaram o Mundo”- p.21
[8]  - Hebreus 12:1-3

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