Salmologia 4#

Deus nunca se fez surdo ou decidido a ignorar os apelos do Homem. O amor que Ele nutre por nós é demasiado profundo, demasiado extenso, é sem tamanho para nos virar costas. Ciente de que Deus age em nosso socorro, David torna a clamar por auxílio.

Com uma vida permanente de desafios, David foi um rei peculiar, um adorador nato e incondicional que sentiu o peso do pecado. Uma pré-figuração de Jesus, um tipo[1] que aponta para Cristo no Novo Testamento[2]. Antepassado de Jesus[3], David opta por arcar com as consequências do seu pecado[4], não deixando de tornar a Deus com um coração humilde e sem orgulho doente, sem vitimização ou queixumes contra o Pai[5]. Mais do que clamar, David sabe que Deus é o promotor da verdadeira justiça, por isso apela para que Ele seja o defensor da sua causa. Não existe dificuldade me perceber que um rei honra outro Rei, o servo David exalta Deus e declara que o Senhor cuida dele quando ele é afligido. A piedade que pede a Deus é para que Ele escute o seu clamor e oiça a sua oração.

A glória e honra de David não são manchadas por um qualquer acto impensado, nem por ele mesmo. Mas por terceiros que se viram para o prazer de se verem consumidos e que buscam coisas falsas e a mentira como objectivo. Isto não quer dizer especificamente que eram pessoas que não falavam verdade, mas sim que eram pessoas que preferiam perder-se na penumbra idólatra da época. A necessidade falsa e motivada pela falta de confiança em Deus, levou a que o Homem O quisesse materializar de acordo com o que via e ouvia. Fosse o bezerro no qual Arão esteve envolvido[6], fosse com Baal-Peor[7], a tentação de satisfazer os olhos conseguia impor-se à necessidade do caminhar em fé.
David não tem problemas em afirmar que Deus está com Ele; o rei frágil confia no Rei forte, David declara o princípio da santificação que todos nós devemos viver. Uma separação do pecado e uma busca da face de Deus[8], em que o Senhor nos leva a sermos piedosos e a amar-mos o nosso próximo. Não existem interferências na comunicação David-Deus… O servo clama, o Pai ouve. E responde…

A falta de coesão entre as atitudes mundanas e a oferta de sacrifícios leva a que o salmista advirta. A ira pode vir, mas não deve permanecer[9]; aquele que ama a Deus não pode consumir-se em ira pecaminosa, nem agir imprudentemente. Antes pelo contrário, deve procurar reflectir e purificar a sua consciência perante Deus. Selar os lábios para a injúria aos homens, mas confessar com o coração e espírito ao Senhor que é fiel e justo para nos perdoar e restaurar[10]. Mas a atitude certa tem que vir do nosso íntimo e esta só pode ser uma… O desejo de reconciliação verdadeira com Deus e o pedido para que Ele nos remova as redes e laços do mal que nos atrapalham.

O cepticismo perante Deus é algo danoso. O endurecimento do coração pode levar a caminhos sem retorno, nos quais Deus não tem prazer[11]. Quando questionam quem mostrará o que é bom, o que é correcto, o que é justo; aqueles que duvidam da justiça e correcção de Deus estão a dar o coração à dúvida, ao relativismo, à falta de certezas absolutas e imutáveis. Tudo passa a ser relativo, o que é bom hoje, amanhã já pode não o ser! A divagação do pensamento vai adaptar os padrões morais consoante as épocas; se o Homem entender que a perversão da vida é boa, então a falta delimites e de barreiras, pode levar a que se extinga por si mesmo e para si mesmo[12].

Mas David confia em Deus, clama para que Ele faça brilhar sobre o Homem a luz da Sua majestade, da sua justiça, da santidade e pureza divinas. Uma luz que brilha e revela o que de escuro existe, para que possa ser removido e extirpado. Tal como em Números[1], o brilho de Deus nos sacerdotes indica a Sua presença no meio do povo, por meio da Sua benção. O rei terrestre pede ao Rei divino que se manifeste no nosso meio, que se faça notar a todos. Sejam eles justos ou injustos…

Não existem dúvidas no coração de David, ainda que os bens materiais e ocasiões de festa se multipliquem, a verdadeira alegria está no firmar a vida em Deus. É mais alegre um só com Deus, do que vários juntos e com as suas propriedades abastadas, mas onde não existe presença do Pai, traço do Filho ou ardor do Espírito Santo.

Quem teme a Deus pode dormir em paz, porque a paz que Cristo nos dá, é diferente da calma sensorial que o mundo nos oferece[2]. A intimidade com Deus gera paz, segurança, confiança n’Ele e no Seu amor. Deitar a cabeça e pensar que o Rei dos reis (que rege todo o Universo, que criou Céus e Terra com as Suas palavras, que livra o Seu povo das mãos opressoras e tiranas dos inimigos) está vivo e age em nosso favor, deve levar-nos a ser como a flor nascida no topo da montanha, sustentada por uma raiz forte. Venham ventos furiosos ou brisas frias e pacíficas, nada a vai mover até o Senhor o desejar.

Ricardo Rosa


[1] - Figura ilustrativa de outra, nomeadamente na Bíblia, um tipo é uma espécie de “sombra” ou “um evento, pessoa ou objecto que por sua natureza e significado prefigura ou prenuncia algum evento posterior, pessoa ou objecto”.
[2] - 2º Samuel 7:14 - 16
[3] - Mateus 1:6
[4] - 2º Samuel 24:17
[5] - 2º Samuel 12:1-23
[6] - Êxodo 32:1-5
[7] - Oséias 9:10
[8] - Salmo 1:1-2
[9] - Efésios 4:26
[10] - 1ª João 1:9
[11] - Marcos 3:29
[12] - Romanos 1:21-32
[13] - Números 6:23-27
[14] - João 14:27

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