12 agosto 2014

Ligados ou desligados?

Como as redes sociais estão a transformar a sociedade 


Quando ouvimos falar em redes sociais, rapidamente pensamos em páginas da Internet como o Facebook, o Twitter ou o Instagram. A nossa cultura dependente de tecnologia e de produtos on demand[1] cada vez mais nos modela a conceção do que são redes sociais. Mas de facto, estamos longe de nos lembrarmos que uma rede social não se refere especificamente a grupos de pessoas que partilham conteúdos na Internet. Muito pelo contrário, tem assente a sua ideia fundamental na disciplina de Sociologia e no estudo dos comportamentos e grupos humanos.


Uma rede social pode ser definida como um aglomerado de relacionamentos entre pessoas e de interações sociais, definição que começou a ser cunhada pelo filósofo francês Émile Durkheim no final do Séc. XIX[2]. Com o advento da tecnologia e de uma cada vez maior centralização da sociedade no Homem, as redes sociais têm migrado dos padrões teóricos da Sociologia para a prática diária.

CADA VEZ MAIS (ANTI)SOCIAIS?
Ao pensarmos nas redes sociais no mundo virtual, surgem algumas questões. Será que este tipo de interação social nos beneficia ou prejudica? Até que ponto influencia ou não parte da nossa vida e do nosso relacionamento com Deus e com a Igreja? Antes de mais, precisamos de perceber que as redes sociais virtuais são uma ferramenta, por si só não são nem instrumentos malignos, nem benignos. Nas mãos certas um bisturi salva vidas, nas erradas pode tirá-las. O uso desta ferramenta é que ajuda a dar testemunho do tipo de relacionamento com Deus que fomentamos.

Tendencialmente, as comunidades virtuais procuram crescer e tornar-se um centro populacional virtual, onde existem sociedades à margem da real (e atual). Sociedades com regras e códigos de conduta, onde os mais infratores são punidos, chegando a ser expulsos dessas comunidades. O site Joystiq dá conta que no início de fevereiro de 2014, o jogo World of Warcraft (que é jogado por largas quantidades de jogadores online em modo massivo, isto é, todos ao mesmo tempo) atingiu o total de 7,8 milhões de utilizadores[3], quase tantos como os habitantes de Portugal continental. Por outro lado, o portal Statista mostra-nos que o top 5 mundial de países de acordo com o número de utilizadores do Facebook é composto por 4 países onde a pobreza é um problema constante, onde as desigualdades sociais se agravam continuamente e onde a violência ainda impera[4].

O uso narcisista das redes sociais virtuais é comum, no entanto existem várias pessoas e organizações que utilizam este meio para não só contribuírem para o avanço do Evangelho, como para ajudar o próximo. É nesta tensão cibernética que muitas pessoas vivem diariamente, sobretudo aquelas cujas profissões se centram na comunicação via Internet ou na gestão de páginas de redes sociais virtuais. Torna-se fácil esquecer que online todos nós devemos continuar a ser cristãos, com a nossa identidade assente em Cristo e que, por isso, não devemos estilhaçar em ambiente virtual os princípios pelos quais vivemos (1ª Coríntios 10:23, 31, 32).

O testemunho dado nas comunidades virtuais, onde partilhamos pensamentos e imagens, é um reflexo do que carregamos no nosso interior (Mateus 12:34, 35). À vida prática no mundo real deve equivaler o testemunho dado nas comunidades virtuais. Seguir o conselho de Paulo para fazer tudo para a glória de Cristo também se enquadra neste aspeto, sobretudo quando as comunidades virtuais são levadas tão a sério quanto as comunidades físicas e reais. Apesar da realidade ser virtual, os comportamentos nela tidos devem ser (e são mesmo) bem reais.

Mas um conjunto de amigos virtuais, com quem na maioria não temos contacto direto e pessoal diário ou semanal, não pode substituir a presença real do nosso próximo, sejam ele o colega de trabalho, a mãe, o vizinho ou o irmão com quem partilhamos o hinário na igreja. O reflexo da imagem de Deus no Homem não é o isolamento, mas sim a ação comunitária harmoniosa e dotada de amor (Efésios 4:15,16, 32). E vem desde o início dos tempos, quando Deus na Sua perfeita e tripla pessoa cria o ser humano para dominar sobre toda a terra (Génesis 1:26).

Tornamo-nos mais sociais virtualmente, isto é, em situações em que o nosso desconforto não é acionado; por outro lado, existe uma tendência preocupante de isolamento como refere o psicólogo Graham Jones[5]. Em conjunto com os problemas de isolamento, aparecem associados os problemas de passividade emocional que se geram e a criação de uma perceção adulterada de quem são as pessoas com quem interagimos.

Se o uso sensato destas ferramentas escalar para uma dependência séria, existe a possibilidade real de emocionalmente um indivíduo se tornar apático perante a sociedade. E quem deve ser sal e luz (Mateus 5:13,14) não pode deixar de salgar ou de iluminar o caminho. Apatia não condiz com uma vida cheia de Cristo!

POSTS, LIKES E AFINS
Uma das grandes vantagens de comunidades como o Facebook é o amplo auditório que podemos formar (ao escolher conectarmo-nos a alguém). Esse conjunto de pessoas com quem nos ligamos passa a ser público que tem acesso ao que partilhamos, que pode conhecer melhor a nossa atividade virtual e com quem nos “relacionamos”. Os likes são expressões de aprovação, os shares uma demonstração de concordância, os tags um reconhecimento pessoal sob a forma de um texto, de uma imagem ou de um vídeo.

Geralmente, um utilizador partilha algo com o qual concorda, que aprecia ou no qual se revê. E se podemos partilhar golos mirabolantes de Ronaldo, discursos inflamados de Luther King e ondas de saxofone vibrantes de Coltrane, então porque não partilhar a conversões miraculosas no Irão ou sermões que alimentam a nossa alma?

O primeiro exemplo de comunicação orientada para grandes massas humanas é dado por Deus em Habacuque 2:2. Se o Deus fascinantemente criativo ordenou ao profeta que criasse o primeiro placard publicitário de que temos conhecimento, porque não seguir este exemplo e partilhar o Evangelho com quem nos lê nas redes sociais? No fundo, é apenas o seguimento dos posts primordiais realizados quer por Jeremias (Jeremias 30:2), quer por Naum (Naum 1:1). Registos do que Deus nos transmite para posterior leitura, tanto nossa como de quem nos rodeia.

Todos nós temos um auditório que atenta para as nossas palavras, uma assembleia que podemos abençoar. A Grande Comissão transmitida por Jesus (Mateus 28:18-20) torna-se mais rica e capaz de chegar a qualquer povo, nação ou gente. Não é suposto as redes sociais serem igrejas virtuais, mas são campos missionários em potencial e à espera de quem os possa trabalhar!

GENEROSIDADE VIRTUAL
O aumento de contactos também torna mais fácil qualquer ação de generosidade ou apoio social. E a nível virtual, isso acaba por se refletir visto termos ao nosso dispor mais pessoas do que normalmente teríamos. Mas se existem excelentes ações[6] que têm bons resultados, também se cai numa dormência no que toca à manifestação física do nosso ativismo -  o termo corrente é slacktivism, traduzido para português corrente, ativismo preguiçoso. Alguém que partilha estados, imagens ou subscreve petições virtuais sem realmente se importar ou tentar auxiliar em campanhas ou ações de apoio ou humanitárias fora da internet.

A generosidade não pode limitar-se ao campo virtual, uma vez que todos os exemplos de amor e generosidade presentes na Bíblia nos demonstram que são práticos e para serem vividos (Romanos 13:8, Colossenses 3:12-15, 1ª João 3:11). É possível angariarem-se fundos e pessoas, mas existe sempre um dever central em ligarmo-nos àqueles que nos rodeiam, não apenas de modo virtual mas também (e mais importante) de modo real. O amor requer prática e por isso excede qualquer barreira de preguiça, tal como Paulo nos ensina em 1ª Coríntios 13.

A MELHOR REDE SOCIAL
A soma final de todos os fatores leva-nos a perceber que as redes sociais virtuais não são de todo maléficas em si, mas podem ser mal aproveitadas. Tal como todas as coisas, não podem ser substitutas do relacionamento pessoal com Deus. Ao cair-se nesse extremo, cai-se no velho hábito da idolatria, mudando do bezerro de ouro para o perfil da rede social. A comunhão com a igreja local não pode ser trocada pelos grupos e páginas de interesses comuns, nem a exortação ou o consolo podem ser trocados pelos likes e comentários de outros.

A verdadeira, maior e melhor rede social a que nos podemos ligar à Igreja contra a qual as portas do Hades não prevalecem (Mateus 16:18) e que é o Corpo submisso ligado à cabeça que é Cristo (Romanos 12:5, Efésios 5:22-25). É nesta rede que devemos permanecer continua e verdadeiramente ligados. Não é uma rede virtual desenvolvida com base na Matemática, é uma interligação de vidas em transformação contínua, que é validada pela morte e ressurreição de Cristo em favor de restabelecer o link quebrado entre Homem e Deus. É uma rede real, uma rede eterna, uma rede sem igual!

Ricardo Rosa





[1] - produtos ou serviços que nos são fornecidos por nossa escolha e no momento imediato que o escolhemos;
[2] -  DURKHEIM, Emile (1893). De la division du travail social: étude sur l'organisation des sociétés supérieures, Paris: F. Alcan.
[3] - http://wow.joystiq.com/2014/02/06/world-of-warcraft-up-to7-8-million-subscribers/
[4] - http://www.statista.com/statistics/268136/top-15-countries-based-on-number-of-facebook-users/
[5] - http://www.grahamjones.co.uk/2012/articles/social-media-articles/does-social-media-create-social-isolation-or-unity.html
[6] - Consultar algumas campanhas como: http://waterislife.com/ ou http://invisiblechildren.com/kony/

in revista Novas de Alegria, agosto 2014

Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico

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