07 dezembro 2015

Da paternidade divina - I

Um dos insondáveis mistérios do Cristianismo centra-se na compreensão de Deus como Pai.

Este fenómeno condiciona muitas vezes, o relacionamento entre um cristão e Deus, dado que a tendência primordial é associar a figura do pai biológico/adoptivo à figura do Pai divino.

Na verdade, o processo de parentalidade de Deus deve ser visto como um processo adoptivo. É por meio de Jesus, que somos chamados a este modelo familiar e essencialmente espiritual, muito embora sem descurar a parte relacional. Enquanto seres humanos, somos dotados de defeitos e virtudes, que nos condicionam os relacionamentos sócio-afectivos. Esse condicionamento em conseguir perceber o amor divino, reflecte-se na nossa vivência diária.


Torna-se mais fácil ao ser humano perceber o amor de Deus, quando também assume uma posição de parentalidade. O cuidado com um coração desprotegido, o desejo de proteger a inocência da infância, a angústia das aflições da vida… Se Deus se pode caracterizar com emoções humanas, podemos encontra-las em Cristo e no Seu ministério no nosso meio. Ele é a imagem exacta do Pai, e serve como referencial ao Homem, para que possa dialogar com Deus por meio das emoções. Isto é, para que o Homem perceba que Deus o criou com emoções, porque também sente, tem n’Ele a essência de todas as coisas, incluindo o coração do Homem.

De facto, aqueles que procuram Deus, não procuram uma divindade que reine superiormente sobre eles. Mas procuram o abraço ternurento de um Pai, um recanto de consolo na tristeza onde podem derramar lágrimas… Procuram um porto de abrigo, um protector, um confidente, alguém que os oiça sem censura… E assim, quando o encontro entre Homem e Deus se proporciona, existe o descobrir de um Deus que geralmente desconhecemos. Um Deus que se alegra connosco, que chora as nossas dores. Um Pai que nos ama profunda e abissalmente, mas que nos educa e disciplina para que não nos afastemos do Seu amor. Um Deus que chora, um Deus que ri, um Deus que escuta, um Deus que fala, um Deus que não entendemos totalmente, mas que nos conhece ínfima e intimamente.

Diz o adágio que “pai é quem ama e educa”, algo que podemos aplicar a Deus. Não sendo o nosso pai biológico, assume o papel de Pai que nos recolhe no seio da Sua família. As Sagradas Escrituras são plenas de referências a Deus como um Pai acima no natural. Ele é o pai que após ver o filho mais novo pedir-lhe a sua parte da herança, não se coíbe de correr em direção ao mesmo, quando o vê voltar a casa humilhado, quebrado, sujo e desesperançado. Corre não para o escorraçar, mas para o abraçar mais rápido; para que o seu afecto seja mais rapidamente transmitido a quem está quebrado. Deus é o pai que procura proteger os seus filhos, como pintos debaixo das asas da galinha, que sofre com a rebeldia dos filhos. Deus é o pai que retarda a Sua ira em privilégio do beneplácito do arrependimento, dando ao Homem uma lição sobre o verdadeiro amor e perdão, tal como fez a Jonas.

A paternidade divina é um mistério, porque a experimentamos mas não a conseguimos compreender logicamente. É um mistério porque a vivenciamos em nós mas não a conseguimos reproduzir na íntegra com o outro. É um mistério porque nos demonstra o amor no seu estado mais puro, gratuito e sem necessidade de pagar por ele.

Demasiado profunda para ser compreendida, simples para ser desfrutada, a paternidade divina está ao alcance de todo e qualquer ser humano. É essa paternidade, que colmata o vazio existente no coração do Homem, como sublinha Fyodor Dostoyevsky.

Mais do que filosofar sobre ela, a paternidade divina é um bem, uma experiência de vida, um trajecto a ser palmilhado pelo ser humano. É um produto do amor sobrenatural de Deus.


Ricardo Rosa

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