Marcha lenta

Era o caos no trânsito. Uma marcha lenta contra alguma coisa que descontentava quem por isso marchava... e, assim, quem queria andar, acabava por parar ou marchar a “passo de caracol”. Na rádio ouviam-se os “senhores do trânsito” a falar de “caos”, de procurar “alternativas” e de filas a chegar aos dois dígitos de quilómetros. A marcha, que lá ia mais lenta que silenciosa, prosseguia sem “dar cavaco” ao transtorno alheio, ou mesmo pensando que ele (o transtorno) faria mudar alguma coisa.


Não me compete julgar intenções, estratégias, ações ou supostos resultados – até porque se o fizesse haveria de aparecer alguém bem mais versado do que eu com os argumentos certos para contrapor o meu ponto de vista, ou simplesmente para me contrapor (há quem seja sempre do contra). Mas não é só no trânsito que apanhamos, algum dia, uma marcha lenta que nos bloqueia, transtorna e tira a paciência. A longo da vida eles estão lá – os obstáculos, as situações provocadas por terceiros que sentimos na nossa pele, as maleitas e outros entraves que, como os “senhores caracóis”, parecem existir apenas para nos fazerem atrasar ou azucrinar a vida. Quem nunca os apanhou, prepare-se – é mais certo do que possamos prever e, na maioria das vezes, aparecem sem pré-aviso.

Quem é apaixonado por (alguma) velocidade não gosta da marcha lenta, em especial se isso implica “picar o ponto” mais tarde do que se devia, perder o comboio e chegar a casa tardíssimo, ter um atraso de uma hora a uma consulta marcada há 6 meses (e por isso perdê-la), entre outros episódios que deixo ao cuidado da vossa imaginação ou mesmo da vossa experiência.

A marcha lenta aconteceu. E as contrariedades acontecem. Os obstáculos aparecem. Ao olhar para a vida nesta terra, quando procurava um sentido para a existência, o sábio Salomão observou: “Goza da prosperidade sempre que puderes, e quando vierem os tempos difíceis, lembra-te de que Deus dá tanto uma coisa como a outra, a fim de que cada um se dê conta de que nada é certo na vida.” (Eclesiastes 7:14, OL) A vida é um dom fantástico. Deus dá-nos a possibilidade de existir e isso, por si só, já é algo que nos devia fazer estar gratos... mas temos tanto a ideia (porque será?) de que a vida só devia ter coisas boas, que quando vêm os empecilhos nos pomos a lamentar.

Talvez as últimas palavras de Salomão, nesta altura do seu livro, nos pareçam em parte como as conversas da sala de espera do Centro de Saúde, onde muito se fala de doenças e desgraças porque “a vida é mesmo assim” ou “nunca sabemos o que nos pode acontecer”. Salomão tinha a sua razão, tal como aqueles que esperam pela sua consulta. Mas, ao contrário destes últimos que se ficam pelos lamentos e pelas verdades de La Palice, o terceiro Rei de Israel termina a sua investigação desta forma: “Esta é a minha conclusão final: teme a Deus e obedece aos seus mandamentos; este é o dever de todo o ser humano. Deus nos julgará por tudo o que fazemos, incluindo o que está encoberto, seja bom, seja mau.” (Eclesiastes 12:13-14, OL)

Aproveita, “encosta”, estaciona o carro e anda a pé. Sente o vento a acariciar o teu caminho, e até a fazer voar as tuas lágrimas. Aprecia os sons, as paisagens, as pessoas. Lembra-te das coisas boas que tens – e agradece a Deus e aos que te rodeiam. Não podes evitar a marcha lenta, mas podes evitar que ela te impeça de valorizar a vida – em especial se já conheces a nova vida oferecida por Cristo com o custo enorme da Sua vida, vida esta que nada nem ninguém poderá travar. Porque essa vida (é garantido) não termina aqui, mas as contrariedade, os obstáculos e a marcha lenta, sim! “E ouvi uma voz forte que vinha do lado do trono: Esta é a morada de Deus junto dos homens. Ele habitará com eles e eles serão o seu povo. É este Deus que estará com eles. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos e já não haverá mais morte nem luto nem pranto nem dor porque as primeiras coisas desapareceram.” (Apocalipse 21:3-4, OL)


Ana Ramalho Rosa

in revista Novas de Alegria, julho 2016. Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico

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