02 março 2007

(In)dependência


O CENÁRIO
Dormir era privilégio fugaz naquele tempo. Vivia a pensar naquele dia quase eterno, sem vislumbrar bem o que me estava a acontecer. O momento era difícil o suficiente para dialogar de dia e de noite com Ele acerca das causas e dos objectivos do meu deserto. Como se de matemática ou estratégia humana se tratasse. A lógica caiu por terra. O racional tornou-se insuficiente.

Tentava ressuscitar cá dentro uma ténue esperança de que o sol do amanhã rasgaria no meio da minha penumbra. A incerteza do minuto seguinte era abrasadora como o fogo que nos consome por dentro e transparece no rosto, nas mãos, no olhar, no vazio da resposta silenciosa do Ser sempre presente.

No âmago da dúvida acerca da decisão, justa ou não, dos homens desperava na minha própria justiça. Dizia nas minhas lamúrias constantes que dependia Dele, mas a minha natureza humana rogava uma resposta urgente que trouxesse de volta a minha independência. Relatava a lista inacabada dos factos duros do presente, sem perceber que o Soberano que controla o Universo desejava ter-me na Sua mão e que eu, voluntariamente, lhe desse toda a minha vida, de A a Z. Ele queria tudo para eu ter tudo.

O CORRECTOR
A Escola da Dependência de Deus tem provas práticas que corroboram os seus diplomas. São certificados selados nos vales das experiências de vida. Ficam expostos na parede do escritório do tempo que se segue, no currículo particular da vivência com Deus, no microfone da humanidade, no canto do templo, na zona pobre da cidade, entre irmãos ou forasteiros... o que aprendemos nessa Escola é a arte de ir pintando o "in" com o corrector das provas e das circunstâncias, para que fique apenas a palavra "dependência". Às vezes a tinta branca vai desaparecendo e o "in" ressuscita... então, ouvimos ou vivemos algo que o encobre de novo. Assim, prendemos a depender de Deus para levar outros à mesma dependência - nas palavras, nos actos, nas intenções.

O EXEMPLO
O exemplo irrefutável está traçado no trajecto da Cruz, após o Filho de Deus ter mergulhado na humanidade. A dependência era constante no dia-a-dia do Seu ocupado ministério. Não era apenas o escape do irremediável, nem simplesmente o S.O.S. do momento depressivo. Na bonança ou na tempestade, Jesus e o Pai comunicavam. O que era normal nas alegrias tornava-se óbvio nas dificuldades. Numa dessas conversas, perante a fase mais complexa da Sua obra na terra, Jesus demonstra a sua exemplar dependência, em obediente consonância com a vontade do Pai.


"E [Jesus] apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos, orava, dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua."
Lucas 22:41 e 42

Quando largamos, de facto, a nossa vontade por livre escolha nas mãos de Deus entendemos claramente como o Seu caminho, mesmo não sendo sempre aquele que se enquadra no nosso padrão humano, social ou cultural de certo ou errado, é verdadeiramente perfeito.

DEPENDER DE DEUS É...
  • Confiar que o Seu plano para nós é o melhor - Ele ama-nos, como poderia dar-nos algo mau?!
  • Conhecer o Seu coração e irmos, passo a passo, nos apaixonando pelas mesmas coisas que Ele.
  • Saborear o tempo de espera ao colo do Pai - Ele tem maneiras de nos acalmar e dar paz quanto ao futuro, mesmo quando estamos veradeiramente irrequeitos.
  • Muito mais que um grito de socorro efémero - é entregar-Lhe plenamente cada sucesso e fracasso da nossa vida.
Quando perdi a minha independência recebi a resposta às minhas orações. Levou tempo, mas entendi que tudo é mais fácil quando, simplesmente, dependemos de Deus.

Ana Ramalho


in revista Novas de Alegria, suplemento NAJovem, Março 2007

01 março 2007

Operação STOP: o melhor mesmo é encostar...

A viagem corria bem. Estávamos a respeitar o limite de velocidade. A certa altura, percebemos que a GNR está a mandar parar algumas viaturas. Parece que estão a pedir-nos para encostar. É mais uma operação STOP.

Não sou da GNR, mas queria convidar-te a parar e pensar. A maior missão da Igreja apontada por Jesus não é conquistar terrenos e construir templos mas alcançar e reconstruir vidas. Os templos são necessários, mas para enche-los precisamos ir e testemunhar. Sair do conforto e ser sal onde o pecado torna a vida insonsa e luz onde a corrupção obscurece o dia-a-dia. É mais confortável ficar sentado ou até muito atarefado... mas sempre dentro da casa de oração. Na segurança e no bom ambiente da casa do Pai tudo é mais fácil e agradável. Mas sal dentro do saleiro não faz efeito e luz escondida não ilumina ninguém.

Às vezes oramos “Deus, trás pessoas à Tua casa”, como se transferíssemos a responsabilidade de evangelizar para o Senhor. Deus é Todo-Poderoso mas nós temos o privilégio e dever de falar para que o Seu poder transformador se manifeste em muitas vidas.

Não estou a sugerir que vamos todos para a rua com um megafone ensurdecer as pessoas com o slogan “Arrepende-te ou vais para o Inferno!”. Obvio que ao evangelizar precisamos falar da justiça de Deus, mas com amor. “Porque Deus amou o mundo tanto, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16 NTLH).

Se a forma de alcançar pessoas para o Reino de Deus não está a ser tão eficiente quanto noutros tempos, precisamos fazer um STOP. Se já estamos a terminar a secundária e ninguém na escola vê através da nossa forma de vida que somos cristãos, precisamos fazer um STOP. Se a necessidade de salvação dos nossos vizinhos, família e amigos não nos incomoda, precisamos fazer um STOP. Quer sejamos novos cristãos ou desde a infância, lideres ou liderados, de grandes ou pequenas igrejas, precisamos fazer um STOP.

Fazer STOP significa Sentir, Traçar, Orar e Persistir

Sentir a mesma compaixão que Deus tem em relação às pessoas perdidas.
Traçar estratégias e organizar ideias para que a forma como transmitimos a Palavra de Deus seja contextualizada e eficiente.
Orar, orar e orar para receber orientação, força e inspiração do Senhor.
Persistir em comunicar o evangelho transformador de Jesus.

A segunda vinda de Jesus está-se a aproximar a uma velocidade fenomenal e a urgência de evangelizar é emergente. É essencial agirmos como o Mestre. Comunicar a verdade de Deus de forma responsável, completa, com amor, mas contextualizada. Deus conta connosco.

STOP

Ana Ramalho
in revista Novas de Alegria, suplemento NAJovem, Março 2007

A vida é como a areia que nos escapa entre os dedos

Ela tinha sonhos como todos nós. Falava com entusiasmo acerca de projectos, de coisas que ambicionava realizar na sua vida. Dedicou os últimos anos, entre outras coisas, a trazer de novo à Casa do Pai aqueles que se foram afastando pelas mais diversas razões.

Apesar de ter consciência da fragilidade da sua saúde, ela não baixou os braços e prosseguiu em direcção a alvos vislumbrados por alguém que ama a vida e serve a Deus.

O ano começa. O casamento à porta. Abruptamente toca o telefone e recebe-se a notícia irreversível. Agora a Rute está com Deus.

Não li esta história numa revista, nem num livro do Nicholas Sparks. A verdade é que aconteceu com alguém que conhecia.

Fiquei a pensar numa verdade absoluta: a vida é como a areia que nos escapa entre os dedos. Agora estamos aqui, daqui a nada não sabemos. Hoje tens aquela pessoa perto, amanhã podes estar no seu funeral. Neste momento tens uma oportunidade fantástica de abençoar outros, na hora seguinte não sabes.

A verdade é que cada dia é uma oportunidade que Deus nos dá para fazer alguém feliz. Para quê viver apenas no intuito de construirmos apenas a nossa própria felicidade sem sequer tentar ajudar os outros? Afinal, não valem as pessoas mais do que as nossas futilidades?

Faz alguma coisa pelo mundo à tua volta, enquanto ainda seguras alguma areia nas tuas mãos.

“Não nos cansemos de fazer o bem, pois, se não desanimarmos, teremos a colheita no tempo devido” (Gálatas 6:9, Bíblia  Sagrada - Tradução em Português Corrente)

Ana Ramalho

in revista Boa Semente, secção BSteen, Março 2007