01 junho 2010

“Restos não são uma alimentação adequada”

Este era o slogan do anúncio duma marca de comida para cães, que prometia deixá-los saudáveis (não dizia é que os donos tinham que guardar umas dezenas de euros extra para “investir” nos seus animais de estimação). A verdade é que, depois de se habituarem a comer aqueles pratos deliciosos – aparentemente – os caninos lá de casa não se contentavam com outra coisa.

E se os cães falassem, como nos desenhos animados que víamos (vimos?) quando éramos crianças? O que diriam quando aparecesse em vez do “precioso manjar da lata do super mercado” os restos de comida do almoço?

Bom, os cães não falam, mas nós falamos.... e queixamo-nos quando nos calham as sobras, os restos, aquilo que mais ninguém quer, não é?

Parece que é uma injustiça os nossos pais não terem tempo para conversar connosco porque a nossa irmã mais nova está com problemas na escola e precisa de mais atenção. Ou ficarmos como “apanha bolas” no torneio de voleibol da escola, porque não chegámos a tempo à prova de admissão para a equipa. Ou termos que dividir o computador com o nosso irmão mais novo, enquanto o mais velho tem um só para ele. Ou calhar-nos sempre a nós tratar da reciclagem lá de casa porque o pai está muito ocupado (a ver televisão).

Se temos justificação para nos queixarmos, o que dirá Deus? Quantas vezes Lhe damos apenas os restos – o pior, mais pequeno, menos interessante de nós?

Falamos com Ele antes de dormir, mas estamos mais para lá do que para cá. Escutamos a Palavra mas adiamos a mudança que tanto nos é necessária. Passamos a semana toda ocupados e não investimos uns minutos por dia para crescermos no nosso relacionamento com Ele. Não Lhe perguntamos a opinião em decisões importantes, nem nos lembramos de perceber o que Ele diz sobre assuntos banais da vida.

A relação com Deus é mais do que um compartimento na nossa vida. É uma entrega total, completa, radical e consciente de tudo o que somos, temos, vivemos. Quando damos as sobras a Deus quem perde somos nós. Perdemos a oportunidade de conhecê-Lo, nos sentirmos completos, perceber a Sua perspectiva da vida, estar em ligação directa com Ele sempre, para as opções que precisamos tomar.

“(...) Ouve, ó Israel. O Senhor teu Deus é o único Deus. Não há outro! Ama-o de todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente com todas as tuas forças!.” (Marcos 12:29-30 – versão “O Livro”)

Para Deus é tudo ou nada! Não há cristãos em part-time. Ou somos ou não somos.

Estou contigo!


Ana Ramalho


in revista BSteen, Junho 2010

Os santos e os populares


Até onde vai a fama?

  
O mês de Junho dá honra aos santos populares. As festas são à grande. O álcool perde pelo excesso e a multidão invade as ruas mais afinada com as marchas e a cerveja do que com os santos propriamente ditos.

Se pensarmos bem, venerar santos de pedra e pau, de argila ou metal é ir contra um dos primeiros pontos do "Top Ten" dos mandamentos de Deus (podem ver em Êxodo 20).

Por outro lado, a Bíblia chama a todos os que recebem Cristo como seu Salvador de santos. Santificados por Cristo através da salvação para ter uma vida santa (ou seja separada do mundo e consagrada a Deus). Paulo explica isso muito bem quando diz aos crentes que estavam em Éfeso que fomos salvos não "pelas" boas obras mas "para" as boas obras. Fomos salvos para ser cada vez mais como Cristo - que foi santo em toda a plenitude.

E onde entra a parte dos populares? Quando estava a pensar neste tema logo me veio à mente o percurso de Jesus na terra... Se Ele é santo e é o nosso exemplo, até que ponto Ele foi popular? O Evangelho de João apresenta de forma clara as fases da popularidade de Jesus.

Nos capítulos 1 a 4 vemos Jesus a crescer na Sua popularidade. Logo mais, nos capítulos 5 e 6 inicia uma fase de controvérsia que se transforma em conflito (7-11:53) e termina numa crise (11:54-12:36a). Depois desta fase, Jesus dedica-Se a instruir os Seus discípulos até terminar na Sua morte, ressurreição e ascensão1. Repara que a partir do capítulo 5 a popularidade de Jesus começa a cair, pouco a pouco... Porquê? Se Ele vinha para conquistar vidas, não seria melhor fazer tudo por tudo para ser aceite por todos?

Acho que esta declaração de Jesus resume o Seu conceito de popularidade: "O meu alimento é fazer a vontade de Deus, que me enviou, e terminar a sua obra" (João 4:34 - versão "O Livro"). Era como se Jesus dissesse que obedecer ao propósito que o Pai Lhe tinha entregue era mais importante do que qualquer outra coisa. Neste caso específico, era falar com aquela mulher samaritana que estava junto ao poço, mas vemos claramente reflectido este sentimento e vontade em todo o Seu ministério.

Jesus não veio à terra para ser "anti-popular" mas para fazer a vontade do Pai e isso fê-Lo perder a popularidade algures no Seu ministério. É certo que Ele curou enfermos, deu alimento a centenas de pessoas, acalmou a tempestade, ressuscitou mortos, instruiu discípulos mas, no fim, ficou ali, na cena quase solitária da cruz.

Interessava-Lhe mais ser popular para o Pai do que para os homens. Tudo o que Ele fazia, todos os lugares que visitava, todas as pessoas com que privava e comunicava, tudo tinha este grande objectivo em mente: fazer a vontade do Pai.

Ser popular na empresa, na cidade, na comunidade, na igreja, na escola, seja onde for, por si só não é mau... o problema é quando esse objectivo nos faz, de modo quase imperceptível, abdicar dos princípios cristãos. Ser aceite pelos nossos pares é bom, mas se isso me faz desagradar a Deus? O que faço? Isso leva-me a pensar no meu próprio estilo de vida:

1.      Se me perguntassem o que é ser popular? Diria o mesmo que Jesus?
2.      Melhor, o que é que a minha vida diz acerca disso?
3.      Tenho a percepção de que o propósito de Deus para a minha vida é, acima de tudo, viver para a Sua glória, reflectindo o carácter de Cristo?
4.      Se Jesus vivesse fisicamente ao meu lado todos os dias, será que eu teria o mesmo padrão de vida que tenho hoje? Haveria alguma coisa que O iria entristecer?
5.      Será que por vezes estou pronta a abdicar da minha santidade para não perder a popularidade? E o contrário?
6.      Neste momento qual é o motor da minha alegria interior: o que Deus pensa de mim? O que eu penso? O que os meus amigos pensam?
7.      Será que tenho uma "capa" de santidade apenas para ser aceite no meio da igreja, ou deixo que Deus molde a minha vida em santidade?

Preciso reavaliar o meu modo de ver a vida, como cristã: os meus hábitos, as minhas companhias, o tipo de influências que tenho nos sítios que frequento dia-a-dia... e como Deus vê tudo isso. Bem, pode não ser muito popular para mim... mas, como Jesus, eu preciso que o Pai me ache popular por fazer a Sua vontade. E só com a Sua ajuda consigo imprimir no coração esse desejo de ser uma expressão do Seu propósito.

A vida santa de Jesus deixa-nos sem argumentos, porque o Pai aprovou-a em tudo. Faz-nos baixar a cabeça e pedir perdão pelas tantas vezes em que abdicámos da santidade em prol de uma efémera popularidade que nos levou a entristecer o Senhor. Não me vou tornar uma pessoa anti-social, mas preciso compreender que, antes de tudo e de todos, a minha prioridade tem que ser Deus.

Senhor, eu quero que TU me aches popular por fazer a Tua vontade. Sabes que sozinha não sou mesmo capaz... Mas eu conto Contigo para me dares a cada dia uma visão correcta do que é ser santa e popular para Ti. Já Te magoei tantas vezes. Perdoa-me, Senhor. Perdoa-me quando permito que os meus desejos - sejam eles quais forem - me faça abandonar a Tua vontade. Obrigada pelas pessoas que colocas ao meu lado para me ajudar a ver o Teu caminho. Preciso que me guies a cada momento. Que o meu coração esteja sempre sensível ao Teu Espírito. Quero que a minha vida seja popular aos Teus olhos, acima de tudo.

Assim seja

Ana Ramalho


(1) conceito mencionado no Manual do Evangelho de João, na disciplina omonima leccionada pelo Pr. Carlos Fontes no MEIBAD (Fanhões)

in revista BSteen, Junho 2010