O que Deus NÃO é!

Como sociedade estamos mal habituados. Achamos que a liberdade é um veículo que podemos usar para dizer o que queremos, fazer o que queremos e não nos importarmos com as consequências dos nossos actos. As pessoas são reduzidas a conceitos pequeninos, consoante o seu comportamento e categorizadas. Arrumam-se pessoas como se fossem livros, ao estilo de um bom bibliotecário. Seja pela capacidade ou pela desabilitação para algo, fazemo-lo constantemente e como qualquer prática social, existe a tendência de transportar isso para dentro da igreja. O problema não seria tão grande se isso fosse limitado ao ser humano… O problema torna-se infimamente maior (para não dizer infinitamente vasto) quando o fazemos com Deus.

A teologia sempre teve os seus hipsters[1] e as igrejas sempre tiveram, têm e vão ter os seus membros mais progressivos e visionários. O erro crasso aparece na progressão desordenada e na tentativa de pegar a Deus rótulos do que Ele não é. Por vezes, o conforto pessoal leva a que atribuamos a Deus características que Ele não tem. Por exemplo, para se justificar a prosperidade financeira de algumas pessoas, usa-se o dizer “Deus é o Deus da prata e do ouro”. Na verdade, o senhorio de Deus é pleno e total em relação a tudo. Tudo Lhe é sujeito pela Sua vontade, excepto aqueles que decidem rebelar-se ou ignorar o chamamento nos seus corações. Mas isso não é válido para podermos estender este tipo de argumentos, além do que é claramente razoável e sensato. Obviamente, que Deus pode abençoar de modo material, mas a verdadeira abundância vem no sentido espiritual e do modo como Ele nos transforma após aceitarmos Jesus como Senhor e Redentor[2]. A primeira não substitui a segunda, nem tão pouco lhe é semelhante.

Entre as coisas que Ele não é, podemos destacar algumas simples e que são repetidas incessantemente hoje em dia. Deus não é um facilitador, ou seja, Deus não serve como alavanca para puxarmos algo, como degrau para mexermos nas bolachas no alto do armário ou como almofada para descansarmos a cabeça. Por outras palavras, Deus não é um instrumento que nós usemos, mas nós devemos ser instrumentos que Ele cria, molda e usa[3]. Jesus ensina-nos que devemos pedir ao Pai que envie trabalhadores para a seara[4] num exemplo da nossa submissão, amor e desejo de sermos usados por Ele. A ética utilitarista não tem espaço na igreja local, muito menos na Igreja universal. Deus ama-nos e entregou o que de melhor tinha por nós, para que nós possamos ter um novo começo, num caminho que apesar de ser estreito, tem a recompensa final acima do que os olhos podem ver e o coração sentir.

Deus não é bipolar. Em traços muito claros, Deus não é simplesmente um ser numa altura e noutro espaço de tempo outro ser. O modo como olhamos para Deus, leva a que por vezes seja declarado que o Deus do Novo Testamento é amoroso, compassivo e apaixonado pela Sua criação, enquanto o Deus do Antigo Testamento se situa algures entre um guarda prisional cruel e punidor de pecado e um totalitarista castrador de liberdades. Antropomorfizar Deus (isto é, atribuir-lhe características humanas), é um exercício complicado e deve ser feito com cuidado. As nossas limitações e falhas, levam a que mesmo as nossas melhores características sejam faltosas e isso não se aplica a Deus. Deus revela-se ao Homem através da Palavra, escrita por homens falíveis e com problemas.

O facto de a Escritura ser inspirada, não implica que a mesma seja claramente ditada ou citada, mas também não implica que o que está escrito, seja objecto de renúncia intelectual ou de descredibilização. Deus é Deus, o Seu imenso amor por todos nós está bem vincado[5]. Mas a Sua santidade e justiça também [6] são características notadas e não podemos diminuir umas, relativizando-as ou esquecendo-as, para elevar as que são do nosso agrado. A confrontação dos padrões morais e comportamentais humano e divino, vai obviamente produzir diferenças e outras discrepâncias, mas no meio de tudo, o lugar e posição de Deus são o de soberania e perfeição. O mesmo Pai que nos ama loucamente, é o mesmo Pai que corrije, repreende e castiga o Seus filhos e filhas[7], não porque seja um pai tirano, mas porque a palmada pedagógica resolve muitos problemas futuros.

Existem muitas mais coisas que podemos constatar que Deus não é, apesar de existir quem Lhe tente colar o rótulo. Deus não é masoquista (ao contrário do que muitos possam pensar) e não teve qualquer prazer em Jesus ter agoniado na cruz. Deus também não é o Ministério das Finanças ou uma entidade carente dos nossos donativos e muito menos um banco com quem negociamos empréstimos (nas mais variadas formas e feitios de capital e pagamento).

Existe algo que Deus é, independentemente de tudo com que O tentem adjectivar. Deus é Pai, preocupa-se com os Seus filhos e filhas e não deseja que nenhum de nós se perca ou não O conheça[8]. Muito pelo contrário, que todos O possamos conhecer como Ele realmente é e não com as más imagens e figuras que são criadas d’Ele, por quem também não O conhece.

Ricardo Rosa

[1] - Subcultura social que valoriza o pensamento progressivo, a contra-cultura, a liberalidade e a atitude “faça você mesmo”
[2] - João 10:10
[3] - Romanos 9:20-21
[4] - Mateus 9:36-38
[5] - João 3:16-17
[6] - Levítico 20:7,26; Deuteronómio 32:4; Jó 9:19; Isaías 5:16
[7] - Apocalipse 3:19
[8] - João 6:38-40

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