Obesidade digital, anorexia espiritual

Bolsas, resultados desportivos, novidades tecnológicas, acontecimentos marcantes… Tudo é reportado na hora, numa sociedade híper-informatizada e cada vez mais tecnodependente.

Hoje em dia, tal como argumentado na série “Sob Suspeita”, o maior bem que se pode transacionar não é o ouro, títulos de dívida ou qualquer bem material. É a informação – a aglomeração de dados. E, na ânsia de vivermos tão atualizados, por vezes somos confundidos com demasiada informação contraditória.


HIPER-INFORMATIZAÇÃO
Em traços muito simples, o que acontece hoje, é nada mais, nada menos, do que uma acumulação de dados. As redes sociais virtuais tornaram-se o meio por excelência para tal. Por exemplo, alguém que leia um artigo na Wikipédia, está a absorver dados em relação a um assunto, que depois são processados mentalmente e estruturados como informação. O processo de colocar a informação em prática leva ao passo seguinte, aquilo a que chamamos conhecimento (que não se pode limitar à teoria, requerendo por isso prática na exposição da informação estruturada).

O famoso estadista inglês Winston Churchill disse certa vez: “A mentira dá meia volta ao mundo, enquanto a verdade ainda se está a calçar”. Casos como os refugiados vindos da Síria, tão banalizados por informações falsas ou como fotografias partilhadas com histórias não verdadeiras, são um exemplo da rapidez com que um rumor se espalha. Uma mentira repetida e replicada várias vezes, torna-se uma verdade extremamente convincente, por força da massa de pessoas que por ela são iludidas.

O mesmo acontece com o cristão em relação às suas doutrinas e verdades elementares. Uma qualquer expressão popular, dita por alguém com carisma, tem a tendência de se sobrepor às verdades incontestáveis que Deus nos revela. Quando nos limitamos a absorver dados seja na igreja local, seja num livro, seja na Web e não os confrontamos com os padrões bíblicos, não estamos a estruturar informação. Estamos a tornar-nos analfabetos espirituais. Temos as ferramentas, mas falta-nos o discernimento sobre como as usar.

É importante que não sejamos ignorantes no que toca à verdade bíblica (1 Pedro 3:15). Devemos ler as Sagradas Escrituras, não apenas como recreação (Salmo 19:17), mas como meio de nos fortalecermos na sã doutrina e conseguirmos desenvolver um pensamento coerente, capaz de dialogar e defender a fé em Cristo num mundo cada vez mais questionador (à semelhança dos discursos de Estevão antes de ser apedrejado ou de Paulo no Areópago). Pedro adverte-nos para estarmos sempre prontos a responder a quem quer que nos questione sobre as razões da nossa esperança. Judas, movido pelo Espírito Santo, diz na sua epístola que tinha o desejo de escrever sobre a salvação, mas que devido às falsas doutrinas que ameaçavam a igreja apostólica, era necessário incentivar o batalhar pela fé contra as mesmas. O próprio Pilatos questionou Cristo sobre o que era a verdade. Cabe a nós, imitadores de Cristo, responder ao mundo (virtual ou não) que Jesus é a verdade pelo qual tantos anseiam.

WCULTO DO AMADORISMO”
O filólogo italiano, Umberto Eco, disse a propósito das redes sociais virtuais, que as mesmas servem para elevar o tolo da aldeia ao nível de um prémio Nobel. Com isto, adverte-nos para o perigo que as redes sociais virtuais vieram trazer: o aumento desmesurado do egocentrismo. Na verdade, qualquer rede social virtual promove o narcisismo (a adoração de si próprio) dado que um utilizador das mesmas não se sentirá realizado, enquanto não receber a aprovação dos restantes utilizadores (mais ou menos próximos) manifestado em likes e/ou shares.

Mas também nos alerta para o perigo de absorvermos demasiado ruído digital, ou seja, informação que apenas vai causar uma barreira de insensatez na nossa mente e coração. Um pouco à semelhança da figura do tolo, descrito no livro de Provérbios. Nasce assim (fazendo uso do título do livro do britânico Andrew Keen, um ativista antitecnodependência) o chamado “Culto do amadorismo”. E, como qualquer culto ou seita, funciona de modo fechado (quem está contra a opinião de X é ignorante, por exemplo), agressivo (um olhar às páginas eletrónicas dos jornais desportivos e rapidamente percebemos a animosidade gerada entre utilizadores), intolerante (onde se exerce uma pressão de grupo como se de um clã se tratasse) e centrado em figuras que se promovem continuamente.

A Internet tem ajudado a criar milhares de figuras, com maior ou menor sucesso, que se assumem como os novos gurus da autoajuda, dos negócios e mesmo da espiritualidade. São esses “gurus”, que entram diariamente nas nossas casas, através da televisão, computador ou smartphone e que moldam o pensamento das novas gerações. Entre outros casos, somos confrontados com a militância pró-aborto, eutanásia e (demasiado) humanista de várias figuras sociais, que tendem a influenciar o pensamento daqueles que se recusam a refletir por si mesmos.

É este elevar do amadorismo, no qual o sermão online substitui a celebração
comunitária, onde o álbum de louvor substitui a adoração conjunta, onde as conversas via chat tomam o lugar do estreitamento de laços pessoais e da comunhão eclesiástica; que a sociedade atual (as chamadas Geração Y e Z) enfrenta. Não podemos trocar o Corpo espiritual que é a Igreja Universal, pelo corpo virtual que é a Web e as redes sociais virtuais.

A pergunta que se coloca é: como viver numa sociedade assim? A História da Igreja está recheada de homens e mulheres que se levantaram para defender os valores de Cristo, mesmo quando tal não era famoso e ia contra o socialmente conveniente e as redes sociais da altura. Cabe a cada um de nós, individual e coletivamente, agir como os crentes de Bereia: confrontando o que nos é dito e apresentado, com as bases da nossa fé, para que possamos julgar o que é bom e o que é mau.

Nas Sagradas Escrituras encontramos a direção e segurança (Salmo 119:29, João 5:39, Atos 17:11), no Espírito Santo encontramos o consolo e a convicção para essa caminhada (Romanos 8:14, 1 Coríntios 2:9-16). Ambos trabalham em conjunto, para nos ajudarem a discernir o que é certo e o que não é certo.

Ricardo Rosa



in revista Novas de Alegria, fevereiro 2016. Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico

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