Não há casos perdidos

O título talvez faça ressuscitar em alguns episódios impregnados nas células mentais e emocionais desde a infância. “És um caso perdido!” diziam, sem medir consequências. Sem querer entrar num circuito de simplismo e facilitismo descartista, desta vez preencho o espaço com exemplos de carne e osso. Supostos “casos perdidos”. Dou a conhecer rasgos de esperança, percursos reais e presentes.

Era trabalhador, dedicado e muito ligado à família. Tinha um problema de saúde que transportava desde que se conhecia. Os altos e baixos emocionais, por ter uma doença crónica, eram constantes, mas fizeram-no procurar em Deus o seu refúgio. Um dia ganhou coragem de partilhar o seu problema com alguém. A doença ainda estava lá, companheira de todos os dias, e as dúvidas acerca do futuro também. No meio do turbilhão de emoções e  questionamento, não deixou de lutar, de buscar de Deus a força emocional – e física – de que necessitava. As melhorias foram progressivas, em ambas as áreas. Os anos passaram. A sua saúde ficou estabilizada. A obra de Deus na sua vida, nesta área, deu-lhe a base para prosseguir em frente, em vários níveis. Aquilo que era uma barreira, foi uma oportunidade para viver pela graça de Deus e ver a Sua mão, pouco a pouco, a sará-lo.


Era bonita, inteligente, mas despida de amor próprio. Amigos, não tinha muitos. A pressão que o seu grupo de pares fazia era uma opressão que a levava a achar-se um “caso perdido”. Então, em vez de estabelecer pontes, criavam-se barreiras de parte a parte. Até que encontrou alguém que a escutou, que orou com e por ela. O processo de cura foi acontecendo, com altos e baixos. Os medos foram-se dissipando. As barreiras foram caindo. O valor próprio foi alinhado com a consciência do valor que ela tinha para Deus. Confiar as nossas feridas a alguém pode ser doloroso, mas é muitas vezes a forma que Deus usa para nos sarar. 

Era gordinha, introvertida e birrenta. Ao entrar na adolescência foi molestada. A partir dali, tentou esconder e esquecer o facto, mas as feridas estavam lá. Refugiava-se a ajudar os outros, e projetava neles a solução dos seus problemas, angústia e frustração. Tentava estar sempre ao nível das expectativas alheias, mas – porque somos limitados –, mais cedo ou mais tarde, sofria desilusões. Aparentemente era segura e cheia de sucesso, sentia-se perdida – um caso perdido. Um dia, alguém a levou a descobrir que não era um “patinho feio”, que era amada por Deus sem que para isso tivesse feito alguma coisa, que era possível ultrapassar a dor de ter sido molestada, perdoar aquele homem e viver tudo o que Deus tinha para ela. Deus várias pessoas como ferramentas de conforto, cura e esperança na vida dela. Levou alguns anos, mas valeu a pena tentar a mudança.

Era talentoso, motivador e amigo, mas estava enredado em vícios ocultos. Na adolescência, expandiu-se a revolta. O tempo foi passando e, de escape, o suposto prazer sexual passou a vício incontornável. As raízes e valores cristãos da infância conturbaram-se por mais de uma década, levadas pelo medo de rejeição e embaladas pela vida de “copos e festas”, que tentavam adormecer a sua consciência. Depois de Deus ir ao seu encontro, da sua restauração como filho de volta aos braços do Pai, a luta para sair do ciclo vicioso da promiscuidade sexual permanecia. Mas o Pai estava no processo. Um dia, ele partilhou em lágrimas a sua história com alguém de extrema confiança. Não ficou confinado a ser um caso perdido. Procurou ajuda especializada e alguém para caminhar com ele em oração. Foi um processo mas, meses depois, partilhou como Deus o tinha restaurado e como ele se sentia finalmente livre. 

Para Deus não há casos perdidos. Nunca! O “negócio” de Deus é transformar vidas. Mudar corações, rumos, expectativas. Muitas vezes a solução está na graça que Deus dá para suportar o sofrimento, para mudar a perspectiva perante as situações. Noutros casos, Deus realiza autênticos milagres. Há uma coisa que podemos ter a certeza, quando nos predispomos a deixar Deus invadir a nossa vida, Ele vai transformar-nos – especialmente nas áreas que estão a afastar-nos do Seu propósito para nós em termos morais, emocionais, etc. Tudo parte da nossa confiança obediente aos Seus desejos.

Tu não és um caso perdido! E se já foste encontrado pelo amor do Pai, pensa naquelas pessoas que são rotuladas como casos sem solução, que estão ao teu lado, e que precisam que lhes leves a mesma esperança que encontraste. Oferece aos outros o bem que Deus te deu. 

Ana Ramalho Rosa



in revista Novas de Alegria, abril 2017. Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico

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