20 outubro 2011

Renúncia libertadora

Jean Jacques Rousseau,  um filósofo adepto do iluminismo[1], defende na sua obra “O Contrato Social” que “Renunciar à liberdade é renunciar ao que mais qualifica o homem, aos direitos da humanidade, aos próprios deveres. Para quem renuncia a tudo não há qualquer compensação”[2]. A obra de Rousseau elege o povo como força motriz de qualquer nação, decretando o povo como soberano e centralizando em si (no povo), todo o poder e atenção.

Nesta citação, que está encadeada no capítulo acerca da Escravatura, é assumido que o ser humano que renuncia a tudo, não tem direito a qualquer retorno por essa renúncia. A abnegação é misturada com a renúncia forçada, o acto amoroso do altruísmo é misturado com a privação da liberdade que leva o povo ao estado de escravo. No mesmo capítulo, Rousseau crava na figura do rei, enquanto líder de uma nação, o termo déspota e nega a entrega gratuita do homem.

Meditando no contexto sócio-económico actual do nosso país, lendo também esta obra, cheguei a uma conclusão simples mas eficaz. Para aqueles que crêem e amam a Deus, a abnegação e a entrega às mãos de um Rei, figuram tudo menos aquilo em Deus nos demonstra pela Sua Palavra e pelo Seu amor. Jesus é o constante exemplo da abnegação e do buscar o bem do irmão em primeiro lugar. Amar a Deus acima de todas as coisas, é procedido pelo amor aos nossos próximos (os que nos rodeiam, circundam, com quem nos cruzamos) como nos amamos a nós mesmos[3].

Sendo nós criados livres, com capacidade de escolha e conscientes das nossas decisões (pelo menos a grande maioria), devemos reflectir sobre a mensagem que a sociedade nos transmite hoje em dia. Renunciar aos próprios desejos, à chamada descaracterizada da liberdade actual, é ser digno de tudo menos de reconhecimento; para estes não existe “recompensa”. O Senhor Jesus declara directamente, usando o exemplo de uma pequena criança, que a simplicidade e pequenez (no sentido de humildade e dependência do Pai) têm como recompensa o maior galardão no Reino dos Céus[4].

Vivemos numa sociedade em que a retribuição é uma constante; existe um desprezo pelo altruísmo e pelo amor ao próximo, o esfriar dos corações em direcção à acção humanitária nota-se pela escalada de violência e pela Lei de Talião, “olho por olho, dente por dente”. Os exemplos de abnegação de Jesus, Paulo e Pedro (só para citar três grandes nomes) devem ser acções-espelho, as quais devemos reflectir para testemunho perante uma comunidade que cada vez mais se perde, se entrega ao vazio existencial e busca no prazer egoísta a sua satisfação.

Escrevendo a Tito, o apóstolo Paulo transmite aquilo que a Graça pretende que façamos no que toca ao modo social de interagir[5]. Entregarmo-nos a Deus e amar o próximo, não são uma renúncia à nossa liberdade. São antes o zénite da verdadeira liberdade, a mesma com que Deus nos criou e que tem sido acorrentada e violentada pela queda em declínio do Homem; que martiriza milhões de vidas que ainda não beberam da Fonte de Água Viva. A verdadeira liberdade, aquela com que Deus nos criou e da qual deseja que usufruamos, não é reconhecida pelo poderio militar, pela exorbitância financeira ou pelo ascetismo oriental. A verdadeira liberdade está no facto de amar o meu próximo como a mim mesmo, de não desprezar as suas dores e anseios, mas de poder abençoa-lo e amá-lo tal como Jesus amou (e ainda ama) todos aqueles que estão entregues à dominação do pecado.

Nós, que conhecemos e amamos a Deus, temos sobre nós a responsabilidade e o peso (saudável e encorajador) de amar de modo desinteressado e de usufruirmos da nossa liberdade em Cristo. Esta liberdade, torna-nos soltos do pecado e da condenação eterna[6], não nos aprisiona e qualifica-nos. Contrariando Rousseau, é uma liberdade que nos torna filhos e filhas de Deus, aguardando pela vinda de Cristo, em quem teremos a futura recompensa pela nossa fidelidade e amor, não só a Ele, como aos que estão ao nosso lado. A humanidade em si arrolou o direito à destruição quando Adão e Eva pecam no Paraíso, mas Cristo carregou em si as nossas imperfeições e impiedade, para que agora possamos arrolar para nós como direito imerecido o amor e a presença do Espírito Santo de Deus.

Renunciar ao eu é aceitar dar o passo de amor de Jesus. Procurar amar ao próximo como a mim mesmo, é dizer à nossa carne e ao nosso intelecto que somos criados à imagem e semelhança de Deus, que desejamos uma vida de santidade e de abundância da Sua presença. Renunciar ao egocentrismo não é contrário à natureza humana, pois Deus criou-nos de modo semelhante a Si, com capacidade para não nos auto idolatrarmos, sem mácula e de modo muito bom. Renunciar às nossas paixões e desejos incontroláveis, à ideia central de uma sociedade confusa onde o “eu primeiro” reina, a uma vida despropositada e com défice de algo importante; é abraçar e dar o primeiro passo para desfrutarmos da gentil e indevida bênção de Deus, a Graça.

Rousseau está sem dúvida alguma certo quando escreveu “Dizer que o homem se entrega gratuitamente é uma afirmação absurda.”[7]. Entregamo-nos porque existe alguém que já se entregou pelo nosso pecado e que nos permite esta escolha livre. Amar ou não a Deus, é de facto uma opção nossa, correspondente a cada um de nós, decidida no mais íntimo do nosso ser. É absurdo pensar que podemos chegar a Ele pelo nosso mérito, sobretudo quando foi Ele que chegou a nós pelo Seu amor. Mas absurdo ou não, o amor de Deus existe, tal como existe a Sua tremenda e inviolável paixão e desejo de ver reconciliado consigo (e por meio de Jesus Cristo, o nosso mediador) todo o homem e toda a mulher à face da Terra.

Estamos nós prontos a renunciar a uma liberdade empestada de grilhões invisíveis e a assumir uma postura de serventia que nos liberta realmente? Estamos nós dispostos a viver de um modo livre o amor de Deus, deixando para trás todo o embaraço e paixão da carne? Sigamos então o conselho na epístola aos Hebreus[8] e vivamos livres da seguinte forma:

“Portanto, nós também, pois estamos rodeados de tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com perseverança a carreira que nos está proposta, fitando os olhos em Jesus, autor e consumador da nossa fé, o qual, pelo gozo que lhe está proposto, suportou a cruz, desprezando a ignomínia, e está assentado ã direita do trono de Deus. Considerai, pois aquele que suportou tal contradição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos canseis, desfalecendo em vossas almas.”

Ricardo Rosa


[1] - Corrente filosófica do século XVIII que defende que o ser humano, levando a cabo uma prática constante de auto-análise e da razão para melhorar a sociedade.
[2] - Rousseau, Jean Jacques – “O Contrato Social”- 2010 - Editorial Presença Lda. – Colecção “Livros que mudaram o Mundo”- p.22
[3] - Mateus 22:38-40, Marcos 12:30-32, Lucas 10:26-28, Romanos 13-9
[4] - Mateus 18:1-4
[5] - Tito 2:11-14
[6] - Romanos 8:2
[7] - Rousseau, Jean Jacques – “O Contrato Social”- 2010 - Editorial Presença Lda. – Colecção “Livros que mudaram o Mundo”- p.21
[8]  - Hebreus 12:1-3

17 outubro 2011

Obediência?

No actual panorama social, é-nos dito que somos seres livres, criados para o nosso umbigo e com origem no vazio. A criação ex nihilo [1] não é desestruturada, não acontece por acaso, não tem como origem o nada em si. Mas é-nos vendida essa ideia, de que tudo o que conhecemos e vemos, tudo o que o nosso planeta é, provém do vazio e da ausência de um Criador. Essa “desordem” serve como desculpa para nos tornarmos antinomianos[2] e egocêntricos. Do propósito divino, herda-se apenas o síndroma messiânico e totalitário de que somos deus, pais de nós mesmos, reguladores morais e infalíveis de tudo o resto.

Como vemos então a nossa posição em tudo isto? Como nos posicionamos em relação à vida em si? Ora bem, crendo em Deus, devemos primeiramente assumir isso. Sim, existe um Criador. Sim, existe um Relojoeiro, um Arquitecto, um Designer, um Construtor, um Planeador… Não somos fruto do acaso, nem da soma aleatória de variáveis e inconstantes esticadas aos infinitos. Somos produto idealizado por Deus, desenhados para sermos felizes, estruturados para amar-mos e sermos amados, projectados para uma vida santa com base na imagem e semelhança divina de Deus.

Sabendo aquilo em que cremos, podemos passar rapidamente ao que somos ou devemos ser. A Igreja, enquanto corpo de Cristo, tem lidado com intrusões camufladas ou ataques frontais à sã Doutrina. Desde os tempos de Noé, a perversão da queda e o instinto auto-satisfatório do Homem leva a que existam ataques a tudo o que tem origem em Deus e se manifesta no ser humano. Neste momento, vive-se uma crise de revisão de valores, onde a sociedade teima em querer penetrar e infectar a Igreja com ideologias declaradamente anti-cristãs. A banalização da vida humana, a instrução e apologia para a auto-satisfação total, a necessidade mandatória de controlar, o desrespeito e desconsideração pelo papel da família (como Deus a institui) na sociedade, etc.

Infelizmente, a questão do egocentrismo humano também afecta o nosso serviço pelo Reino e condiciona a nossa proximidade do Pai. A não conformidade com a vontade de Deus, leva a que exista uma espécie de esquizofrenia espiritual. Tornamo-nos incapazes de decidir o que queremos ser, senão mesmo, tornamo-nos invariavelmente os pólos opostos de qualquer coisa ao mesmo tempo. Filhos humildes ou enteados mimados? Servos submissos ou escravos rebeldes? Herdeiros esperançosos ou caça-fortunas ansiosos?

Hoje, mais do que nunca, é urgente pensarmos na posição em que queremos estar. De que lado ficamos. Não podemos assumir uma posição de agente do contra, em que alternamos entre facções de acordo com o que ganhemos. A chamada de Deus para sermos filhos e filhas, também é uma chamada para O servirmos. A submissão aos padrões da recompensa divina deve ser uma realidade, não pela recompensa em si, mas pelo amor de quem nos cria e educa. Como Pai, Deus é perfeito e infalível. Como filhos, somos defeituosos e erramos sistematicamente. As Boas Novas dizem-nos que Ele nos ama apesar de tudo. E nós, amamo-Lo ou amamos a Sua recompensa?

No que é que se baseia a nossa obediência?

Ricardo Rosa

[1] - termo que define a origem de algo vindo do nada

[2] - posição que não reconhece qualquer Lei, seja ela moral, social ou cerimonial (p.e.)

11 outubro 2011

Inclusivo ou exclusivo?

A Igreja enfrenta uma disseminação de doutrinas (conjunto de instruções, princípios, posições ou ensinamentos) e teologias (denominadas erradamente desse modo, pois a Teologia encarrega-se do [limitado] estudo de Deus), de entre as quais a chamada Teologia Inclusiva, é uma das mais recentes e que mais agitação causa.

A Igreja deve ser inclusiva, isto é, deve receber todos aqueles que estão fracos e oprimidos, cansados e abatidos, maltratados e violentados, escorraçados e descriminados. A Igreja é O local certo para a restauração de qualquer ser humano, seja o seu estado qual for. A bela lástima a que podemos chegar, não é impedimento para o Deus que ressuscita mortos, divide mares, se manifesta através de colunas de fogo pelo deserto ou no mais básico, para o Pai que criou os céus e a Terra e tudo o que neles há. Mas não é um local de permanência na mesma miséria com que se chega. O “Venham a mim” (Mateus 11:28) de Jesus é condicional, porque apesar de Ele nos chamar e de aliviar a nossa carga, somos também chamados a aprender com Ele e a carregar o fardo da santidade, amor e submissão a Cristo e por Cristo.

A inclusividade é para aceitação e regeneração, não para tolerar e apaziguar socialmente.O nosso sentimento não pode ser de repulsa perante os abatidos, mas não podemos ser coniventes com a proliferação dos maus ensinos e da manutenção do pecado; sobretudo no meio do Corpo de Cristo. Receber e amar os que chegam maltratados, mas participar na sua restauração; amar em Cristo aqueles que ainda não são novas criaturas, mas partilharmos diariamente o que Ele opera em cada um de nós.


A posição da Teologia Inclusiva é “a de demonstrar pela Palavra, que a homossexualidade é um aspecto da diversidade humana, tal como a cor dos olhos e do cabelo”[1]. Existe uma necessidade prática e homocêntrica de criar uma alternativa, para quem assume um estilo de vida alternativo e diferente de toda a instrução de Deus, no que toca aos relacionamentos íntimos e geradores de família. Num chart político, a Teologia Inclusiva alinhará pelo perfil do Bloco de Esquerda ou do Partido Comunista Português, numa tentativa de analisar as Sagradas Escrituras de um modo liberal e que agrade a todos, ou pelo menos, seja mais politicamente correcta.   

Um questão pertinente, é se a Igreja actual (sobretudo a igreja local, enquanto representação física e palpável da Igreja Universal) deve ou não ser inclusiva. E qual o grau da sua “inclusividade”. Trata-se de uma análise necessária, tanto mais quando nos deparamos com um mundo em constante mudança, onde a corrupção da carne produz efectivamente mais estragos e mais danos, tanto no Homem, como na restante criação. O argumento contra-natura é desvalorizado, com o recurso a exemplos da vida selvagem e animal. Existe (por parte dos inclusivistas) uma tendência para bestializar o Homem e tornar Deus em Karl Marx. O vermelho que cobre o madeiro onde foi pendurado Cristo, já não é o vermelho do sangue sacrificial e expiador, mas o partidário liberal de Leste que patrocina a tese do Übermensch[2]. Centralização da vontade de Deus dentro da vontade do Homem, hedonismo espiritual e uma boa dose de falta de seriedade, honestidade e submissão aos padrões divinos.                

Através da aceitação de Jesus como Senhor e Redentor, Deus opera com o Espírito Santo para a nossa restauração emocional, espiritual e sexual. Os laços violentados da intimidade são restaurados e os tormentos da tentação carnal são combatidos. O mesmo Deus que ressuscita mortos e cria Adão do pó, também restaura os padrões da sexualidade humana, que tal como toda a Criação, se encontram num declínio elevado e rápido, até ao fim dos tempos. Devemos saber receber e ajudar aqueles que são atormentados pelo pecado, mesmo pelo pecado sexual e pelo desvio do que é correcto aos olhos de Deus. Os padrões da moralidade humana só podem ser medidos e correctamente avaliados pelo padrão divino, imutável e perfeito; nunca pelo padrão carnal, inconstante e corruptível de um nosso semelhante.


Adaptar e extrapolar contextualmente os casos de Noemi e Rute, David e Jónatas, Daniel e Aspenaz, além de ser má prática, é também uma atitude a roçar a blasfémia. A instituição do relacionamento humano íntimo e sexual começa no Éden, quando Deus cria homem e mulher, à Sua imagem e semelhança espiritual (Génesis 1:27). O início dita a regra da futura procedência, isto é, estabelece as bases pelas quais nos devemos reger e o padrão que agrada e contenta o coração de Deus. Ver que tudo o que foi criado no sexto dia foi muito bom, é sinónimo de demonstrar que aquela é a intenção clara e admissível de Deus. Ainda que se admitam teses liberais mais antropocêntricas, a questão da ordem processual da Criação e da reprovação do acesso ao Reino por Paulo, quando este escreve à igreja em Corinto (1ª Coríntios 6:9), servem para redefinir a vontade expressa de Deus. O próprio Senhor Jesus afirma essa distinção de género sexual e da vontade do Pai (Mateus 19:4-5, Marcos 10:6-7). 

Devemos ser inclusivos para recuperar e reabilitar, mas exclusivos de Cristo para viver.

Ricardo Rosa


[1] - Feitosa, Alex - http://teologiaeinclusao.blogspot.com/2011/01/o-que-e-teologia-inclusiva-definicao.html

[2] - O Super Homem de Nietzsche, descrito no livro de 1883 “Assim falava Zaratustra”

09 outubro 2011

Caminho(s)

Engano. Ilusão. Pensava que o que via era real, confiável e permanente, mas o resultado foi mais do que oposto.
Caminhei na direcção que me apeteceu. Atrás e à frente de muita gente que pensava estar certa, como eu. Achei que a corrida frenética pelo aqui e agora era a solução para uma vida intensa, mas mal acabava o efeito de uma dose de ilusão, precisava de outra, e outra, e outra... uma sensação insaciável.
Prossegui os dias a mudar de estratégia, mas no mesmo sentido – cada vez mais descendente. Passei do prazer para o moralismo. Do “faz tudo” para o “não faças nada”. Julguei que se ficasse acima dos outros, moralmente, poderia apagar a insatisfação interior. Mas se nem uma garrafa alcoolizada o fez, muito menos a embriaguez da minha falsa rectidão. Por mais que me tentasse auto-emendar por fora, continuava a apodrecer por dentro.
Finalmente concluí que o altruísmo seria o escape para a sede cada vez maior que morava no meu coração. Dei, ajudei, ouvi, apoiei... mas esse caminho bonito não me preenchia.
Mantive-me em marcha, algumas vezes em forma circular, mas a maioria das vezes numa espiral, em queda vertiginosa. Perdi anos a viver assim. Andei por aqui e por ali, de aventura em aventura, de investida em investida, à espera de descobrir o tesouro certo, mas estava no lugar errado.
As muitas propostas, caminhos e soluções à la carte que pude experimentar, trouxeram-me para a conclusão simples mas não simplista de que era preciso uma alternativa - “A” alternativa.
Nas páginas do Livro dos Livros, descobri que “há caminhos que ao homem parecem rectos, mas que, no fim, conduzem à morte. (...) O ingénuo acredita em tudo o que se diz; o prudente reflecte antes de dar um passo. O sábio receia o mal e desvia-se dele; o insensato vai para a frente e julga-se seguro.” (Provérbios 14:12,15,16, versão “A Bíblia para Todos”). Era a radiografia da minha vida.
Mais à frente, nos Evangelhos, Jesus elucidou-me ainda mais “só pela porta estreita se pode entrar no céu. A via para o inferno é larga, e a sua porta é ampla bastante para todas as multidões que escolherem esse caminho fácil. Mas a porta da vida é pequena, o seu caminho é estreito, e poucos o encontram.” (Mateus 7:13-14; versão “O Livro”). O Céu é a companhia eterna com o Deus bondoso, justo, misericordioso e santo. É a Casa do Pai, que juntará os Seus filhos, que decidem viver com Ele e para Ele ainda em vida. O Inferno, destinado aos anjos que se rebelaram contra Deus e, consequentemente, a todos os que decidem permanecer no caminho do seu coração, é o pouso de uma vida imortal, sem repouso final.
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida, respondeu Jesus. Ninguém pode chegar ao Pai sem ser por mim.” (João 14:6, versão “A Bíblia para Todos”). Precisava entrar neste caminho. Precisava reconhecer como os meus caminhos foram e continuariam a ser, um desastre com máscara de felicidade. Jesus, o Caminho, é a via para a paz, o conforto, a esperança, a felicidade... mas, antes de tudo, é Aquele que fez o caminho que eu devia ter feito. Ele foi até à morte, numa cruz bárbara e imerecida, pagar a preço sofrido e machucado, o meu caminho horrendo e infeliz – a vida encharcada no meu pecado. Por mim e por todos. Por todos e por cada um.
E é este “O” caminho que eu sigo. Alegre, mesmo nos apertos. Esperançoso, mesmo nos vales. Seguro, mesmo que invisível. A alternativa certa para a vida é só uma: Cristo.


Ana Ramalho Rosa

in revista Novas de Alegria, Outubro 2011

07 outubro 2011

Anarquismo Cristocêntrico

Pertencer a um corpo multi-composto não é fácil... Nem todos podem ser coração, uns têm que ser músculo. Existe quem deseje ser pulmão, mas tem que se contentar em ser joelho. A vida é assim mesmo, tal como o é ser parte da Igreja. Assiste-se hoje, a um fenómeno novo e que tem levado a ponderações. Uma debandada física do corpo de Cristo, uma espécie de fragmentação. Existe quem continue a estar na igreja local, mas também existe quem opte por se divorciar da mesma. É uma espécie de anarquismo com base em Cristo.

Não existe sujeição a nada, mas apenas e só a Ele. Cria-se uma espécie de paradoxo, motivado pelo "cansaço" de pertencer à igreja local, pela criação de grupos comunitários alternativos (e onde a assumpção de que parte do corpo somos, é mais fácil e mais agradável), pela consideração de que toda a liturgia envolvida na vida da igreja é aborrecida e entediante, por uma busca mais "real" do que é estar relacionado com Deus (creio que outro paradoxo ou então uma falácia de que "mais real com Deus = menos problemas") ou por uma má imagem que se gera, ligando a igreja local a uma espécie de country club, do qual ninguém (a não ser os infelizes e menos iluminados) desejam fazer parte.É uma ideia revolucionária, própria de quem tem sangue na guelra e fervilha de vontade de agir.

Mas neste caso, de agir de maneira errada e tudo menos virada para Cristo. Vamos por partes... A Igreja, o corpo universal de Cristo, não é perfeita, está num processo de aperfeiçoamento contínuo e para o qual todos nós contribuímos. O mesmo se pode dizer da igreja local. Na igreja local somos chamados a criar uma célula, que em conjunto com várias outras, vão perfazer o corpo de Cristo. Esta espécie de decorporização (corta-se o corpo, para subsistir a cabeça) não pode produzir resultados eficazes. Tal como na decapitação existe morte, na decorporização morte existe. O problema, é que este acto de desconexão parte do lado do ser humano, não do lado de Cristo.

Ao renunciarmos à igreja local, estamos na realidade a retalhar um propósito maior. E o facto de querermos estar ligados só à cabeça, sem qualquer ligação a outra parte do corpo, leva a que isso seja uma utopia ou então um filme de terror. Aniquila-se a participação na edificação mútua, algo contrário ao que é desejado por Deus (Hebreus 12:25), toma-se o caminho da auto-suficiência e auto-promoção a ungido. A rebelião e o desregramento nunca trouxeram coisas boas, sobretudo dentro da esfera de Deus. Duvido seriamente que agora o traga.As queixas de que a igreja local é uma comunidade diferente, podem (e devem) ser apontadas como insuficientes. É suposto a Igreja (universal, corpo de Cristo) e a igreja (local, amalgama de pessoas) serem comunidades diferentes. São compostas por homens e mulheres em fase de mudança progressiva, numa caminhada sem termo com Deus. A finalidade não é padronizar pelo mundo, é subir os standards e nivelar por cima. É uma missão difícil, mas a qualidade e a excelência perante Deus assim o motivam, logo, é de todo reprovável querer assumir o papel de Técnico de Controlo de Qualidade Espiritual e censurar/cortar/excluir/etc. tudo aquilo que não esteja conforme a norma auto-centrada dos nossos padrões.

A união, disposição mental e parecer que Paulo refere (1 Coríntios 1:10) também englobam a igreja local. Abandonar a congregação local e incitar à auto-iluminação, é desprezar a benção do corpo local. A possibilidade de obter aconselhamento pastoral (Romanos 15:14) e fraternal, torna-se apenas um acto dispensável. Ao desregramento básico inicial, pode então seguir-se um maior e mais complexo. Dá-se ao desprezo a ordenança de Paulo, para que reconheçamos quem trabalha, admoesta e preside entre nós por instrução de Deus (1ª Tessalonicences 5:12-13). Sendo uma comunidade multi-racial, multi-cultural e pluri-pessoal, a igreja local deve manter o seu estandarte e alargar as cordas da tenda. Mesmo que não concordemos com todas as acções, mesmo que seja difícil tornar-mo-nos parte ou socializar activamente, jamais foi escrito ou dito que ser Igreja na igreja é fácil. Feitios diferentes, personalidades próprias, histórias de vida variadas e modos de pensar vastos. A unidade em Cristo é a 1ª pedra de fundação para o contínuo crescimento. E isso é válido tanto para a vida pessoal, como para a vida colectiva da igreja local. A igreja local deve ser uma amostra percentual do amor da Igreja. O crescimento em amor uns pelos outros (1ª Tessalonicences 3:12), o suporte pessoal e cuidado mútuo pelo bem estar do nosso/a irmão/ã (1ª Coríntios 12:25), o encorajamento e incitação a que Cristo viva cada vez mais em nós (Hebreus 10:24), terminando na exortação e edificação contínua entre membros do corpo (1ª Tessalonicences 5:11); tudo isto são motivos mais do que válidos para a permanência na igreja local. Abandonar o corpo local, é o mesmo que ser amputado ao corpo universal. 

Ricardo Rosa

01 outubro 2011

“Mantém-te original!”

Esta frase faz parte do slogan de uma marca de refrigerantes portuguesa. Basicamente, a mensagem que passa na campanha é que ser crescido é uma ‘seca’ e que, o melhor mesmo, é mantermos um estilo de vida exótico sem pensar nas consequências, no qual o prazer é o centro e o principal objectivo.

Estranho... se pensarmos bem, o pessoal quer ter vida de adulto desde cedo. E não estou a falar de quando tinhas 8 anos e querias imitar o teu pai a fazer a barba. Estou mesmo a falar de termos o melhor portátil, o telemóvel mais avançado, a consola último modelo... não à custa do nosso trabalho, mas com o dinheiro dos padrinhos – claro! Fazer birra para comprar ténis de marca, e obrigar os nossos pais a passar das marcas, e a arranjar um segundo emprego para termos “do bom e do melhor”.

Ou querer ter relacionamentos mais do que coloridos, nos quais entregamos a nossa intimidade até às últimas consequências, sem termos sequer a mínima ideia se é apenas uma relação passageira ou daquelas que aguentam um casamento ‘até que a morte os separe’, e pelos poucos momentos de prazer ‘esquecermos’ o plano de Deus para o relacionamento íntimo, quer emocional, espiritual, quer físico... porque isso do casamento, achamos muitas vezes, é para alguns adultos... o que conta é o aproveitar.

Os senhores publicitários que me desculpem, mas o que é realmente original é crescermos em todos os aspectos. Hoje todos querem ter privilégios de adultos e responsabilidade de bebé (quem ‘paga’ são os pais – os outros). Todos querem ser adolescentes... até aos 70 anos. Mas isso não é natural. Deus criou-nos com um ritmo próprio. Uma altura própria para ser criança, adolescente, adulto, idoso... cada fase tem a sua beleza e os seus desafios e, conforme crescemos, vamos ganhando mais responsabilidade – em todos os aspectos, nas emoções, no relacionamento com Deus, no bem-estar físico, nos relacionamentos com as pessoas e com as coisas (dinheiro e afins).

Gosto de pensar no exemplo de Samuel. Ele era ainda muito novo quando foi para o Templo para se preparar para servir a Deus, muitos séculos antes de Jesus nascer. Em 1 Samuel 2:26 diz que “o menino Samuel ia crescendo em estatura e em graça diante do Senhor, como também diante dos homens”. Ao leres na Bíblia a história da vida de Samuel, descobres que ele não ficou apenas por aqui. Conforme foi crescendo, foi também ganhando mais responsabilidade. Ele foi de tal maneira fiel a Deus que este o escolheu para ungir o primeiro rei de Israel, Saul.

Deus deseja moldar-te, ajudar-te a crescer e usar-te, em cada fase. Aproveita bem cada período da vida. Aceita o crescimento e prepara-te para o futuro. Conhece Deus e os Seus princípios para uma vida saudável, uma vida que vale a pena. “Lembra-te do teu Criador, enquanto fores jovem, enquanto não vierem os tempos difíceis e os anos em que vais dizer: «Não sinto gosto em viver».” (Eclesiastes 12:1, versão “A Bíblia para todos”)

Estou contigo!


Ana Ramalho

in revista BSteen, Outubro 2011