Salmologia 3#

Os problemas familiares de David sempre lhe deram "água pela barba". Esta acaba por ser uma consequência (quase) natural do seu problema com os relacionamentos. Por vezes, relacionava-se bem demais (que o diga Bate-Seba)[1]; outras de modo péssimo (Urias foi prova disso)[2].

No meio da aflição movida paciente e planeadamente por Absalão[3], que por acaso era um dos seus filhos, David volta-se (novamente) para Deus. Este é o exemplo mor de David para toda a raça humana. Não se trata de um pecar-humilhar contínuo e sem arrependimento sincero. Trata-se de admitir que falha, que também é homem, que mesmo sendo “segundo o coração de Deus”[4], peca e necessita de fazer o retorno ao caminho para a porta estreita.

O discurso bélico traz à memória as conquistas do rei David, os actos heróicos em batalha, a sabedoria militar. Era um rei acostumado aos tempos de guerra, mas ciente de que o verdadeiro escudo é Deus. É em Deus que David vê a sua segurança, o “andar de cabeça erguida” é apenas para quem está seguro, confiante e sem nada a temer. A confiança dele não vem pelo número de soldados que se contam no seu exército; vem porque contra a vontade e misericórdia de Deus, todos os exércitos do mundo são poucos. Existe uma relação tão estreita, tão íntima e tão certeira, que David sabe que pode clamar e que Deus não o deixará sem resposta. A fé está em prática, é exercitada como se fosse um músculo. Não existe espaço para o laxismo ou para a dependência de si mesmo. O descanso do salmista é viver na presença de Deus, mesmo nas situações mais complicadas[5], onde o inimigo parecer estar em vantagem; Deus é o sustentador e protector; criador e juiz.

Não é errado clamar a acção de Deus, errado é clamar e não esperar por ela. Ou então desejar que ela seja levada a cabo por motivos maus, egoístas ou vingativos. David sabe disso, clama a Deus pela sua acção protectora. Em qualquer embate ou frente a frente, quando agredidos somos forçados a defender-nos. A mão de Absalão pode tentar desferir o soco, mas a mão divina repele essa tentativa. A ideia do salmista não é deixar literalmente os inimigos no dentista, é expressar simplesmente algo… A sua aflição tem fim no livramento de Deus, que surge (quase sempre, senão mesmo sempre) sempre como um K.O. em grande estilo. Ele não compromete a nossa fé, nem aniquila a nossa esperança. Deus dá o troco inteiro à moeda falsa com que tentam pagar a quem é Sua propriedade[6].
Se Jonas diz que do Senhor vem a salvação, David ensina-nos que do Senhor vem o livramento. E com ele o descanso e a bênção da paz e da harmonia no povo. Deus pode ser o Deus dos exércitos[7], mas deseja dar paz aos Seus filhos e filhas.

Ricardo Rosa

[1] - 2º Samuel 11:4
[2] - 2º Samuel 11:14-22
[3] - 2º Samuel 15:1-12
[4] - 1º Samuel 16:7
[5] - Salmo 91:1-2
[6] - Deuteronómio 32:35-36
[7] - Salmos 46:11

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