Árvore genealógica – parte 3/3

Hoje chega-se ao fim da árvore genealógica. Chega-se à geração do chamado pós-modernismo ou já a tender para o pós-pós-modernismo. É a geração de Jacob, o tal usurpador…

É a geração para quem a Igreja é um misto de cadeia de fastfood e de low-cost fashion shop. Come-se o que se quer, usa-se o que se quer, tudo a preços mínimos. E normalmente, seguem-se as tendências da moda, sejam elas teoricamente boas ou más! Jacob não era conhecido por ser alguém próximo de Deus. O silêncio bíblico nesse ponto, é quebrado quando com a ajuda da mãe engana o pai, tudo isto para ficar com a bênção que havia comprado ao irmão[1]

Existiu o desrespeito pela primogenitura, tanto por Esaú (que a desbaratou e achou que era transaccionável) como por Jacob (que tendia a fazer tudo para se colocar onde queria). Tal como Jacob, esta geração vê as coisas de uma maneira diferente, não adopta os mesmos costumes dos mais velhos e tende a ver o seu Deus como outro Deus diferente do dos avós ou pais. À sua maneira, a geração de Jacob crê num marcionismo[2] revisto para os dias de hoje. O Deus dos tempos antigos passa a ser um deus entre muitos. O deus pós-moderno e da abastança do amor assume o seu lugar como regente. A geração da híper-graça que vive sem saber (?) no antinomianismo[3] sob o manto de viver a graça superabundante de Cristo. 

Um dos seus ícones, o teólogo-pastor luterano Dietrich Bonhoeffer cunhou aquilo que é a prática usual desta geração e a sua visão da graça: 

A graça barata é a pregação do perdão sem exigir arrependimento, o batismo sem a disciplina da igreja, a Comunhão sem a confissão, a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo, vivo e encarnado[4] 

No fundo é Jacob como usurpador. Usurpa-se de Cristo os conceitos de Graça, amor, perdão, reconciliação, sacrifício, cruz, morte, ressurreição, união, discipulado, etc… A resposta é que o trauma da religião dos antecessores já causou danos em demasia. Vive-se de extremos. Jacob era alguém que também vivia de extremos, mas vivia essencialmente para si. Não interessa se Labão o enganou ou não[5], o modelo de Cristo é diferente[6].

Esse é um dos grandes erros de Jacob, que acaba por se perpetuar na sua descendência e no modo como lidou com os seus filhos. Chama-se relativismo e diz que não existem pilares sólidos, tudo é relativo. Para Jacob tudo era relativo, inclusive a moralidade com que tratava dos seus negócios[7]. De tal maneira, que o pensamento alastrou para as suas duas esposas e ficou-lhes retido que o resultado da desonestidade de Jacob, era afinal uma bênção de Deus[8]

Ou seja, assumem que Deus as abençoa ricamente e advogam o direito de exigir reparação pela má parentalidade de Labão, quando o que se lê é o relato de como o usurpador rouba o enganador. O ditado popular diz que “ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão”. Mas os ditados populares apesar de até serem úteis, são sabedoria populista. Nem sempre o que o povo diz é bom e a multidão nem sempre dá bons conselhos[9]. O que dá maus frutos não pode produzir melhores sementes e isso reflecte-se mais ainda quando Raquel rouba os ídolos da família[10]. 

O PROBLEMA DE JACOB 

Mas afinal qual é o problema? O problema centra-se na visão que Jacob tinha de Deus. Alguém que servia para o abençoar, que era uma desculpa, uma almofada moral para exigir reparação por danos e para viver ao seu gosto, sem arcar com consequências… 

O problema de Jacob não era questionar, mas sim não reconhecer a resposta e tudo o que existia já demonstrado (não existe melhor testemunho que a vida e tanto Abraão, como Isaque foram certamente testemunhos da bênção e segurança de Deus) e partir para as suas próprias conclusões. “Deus abençoa? Sim, mas com uma ajuda humana… “Esta é a inferência que Jacob faz à acção de Deus na vida do Homem. “Deus é poderoso? Sim! Mas será que é real?“ Isto pode muito bem ter ecoado no interior de Jacob. Afinal, ele é o patriarca pós-moderno… 

Esta também é a inferência que a geração pós-moderna faz em relação a Deus e à Igreja. A desconstrução de padrões é uma necessidade, não porque estejam errados (alguns certamente estarão e esses bem podem ser demolidos) mas porque é preciso reinventar. É preciso questionar tudo, é preciso rever tudo… A ideia geral é que a prevalência da declaração de Cristo em Mateus 16:18 torna-se assim relativa. A pedra de fundamento da Igreja deixa de ser a declaração de Pedro e não é mais sólida. O “…as portas do Hades não prevalecerão contra ela [Igreja - nota do editor]” deixa de fazer qualquer sentido. Se tudo é questionável e relativo, se não existem certezas absolutas, então o próprio Senhor passa a ser. Em vez de um só Senhor, Evangelho e Baptismo, passamos a ter tantos quantos quisermos. Submetemos Cristo ao Homem, quando é o Homem que tem que se submeter a Cristo.

E com isso vem a teologia da chave hermenêutica da Bíblia ser Cristo. Troca-se o paradigma em que toda a Igreja assenta, de que Ele é a Palavra viva e em acção[11] e o ponto alto da revelação progressiva que é a Bíblia, para assumir que tudo é visto farisaicamente através de Jesus. Não deixa de ser curioso, que a corrente que quer quebrar com o legalismo e a religião (esquecendo o ensino de Tiago e Paulo acerca da mesma)[12], acaba por instaurar um legalismo próprio e uma religião dissimulada mas presente. Olha-se então para Jesus como suplantador da Lei, como destrutor da Doutrina, como o executor das Ordenanças. 

Olha-se para Jesus a partir de todos os cantos, mesmo aqueles que não estão relacionados com Ele (Cantares e Ester, a matança dos cananeus, a instituição dos diáconos, o vinho que Paulo aconselha Timóteo a tomar, o véu na cabeça das mulheres, a capa que Paulo pede que lhe levem, etc.) e assume-se então que a Igreja está totalmente errada! Força-se Jesus para dentro da caixa, depois de se afirmar tê-Lo tirado de dentro de um caixote. Se não se vê Cristo ali, então algo estamos a fazer de mal. E provavelmente a resposta vai ser "legalismo", "menos Justiça e mais Graça", quando esquecemos que para desfrutarmos da Graça, alguém teve que nos tornar justos. E do modo mais horrendo possível...

Não é desde há 20 ou 40 anos que erramos. Não desde Lutero e Calvino, nem desde Constantino ou dos cismas. Para o pós-moderno, o problema da Igreja está na má concepção que tem do Seu fundador desde há cerca de 2000 anos (e provavelmente mais, se tivermos em conta aqueles que viveram antes de Cristo, mas que não conheceram a plena revelação de Deus). Provavelmente o mesmo pós-moderno que chamaria antiquado ou legalista a Paulo, religioso a Tiago, insensível a Judas e rude a Pedro. 

MUDAM-SE OS TEMPOS… 

Compreendo os anseios desta geração, afinal faço parte da mesma em termos de tempo e espaço. Vemos Deus fazer menos porque cremos (e queremos) que Ele faça menos, mesmo quando clamamos o inverso. Perdeu-se a fé na acção do Deus Eterno, para se crer mais nas metodologias e técnicas do deus pós-moderno. 

O ministério pastoral é substituído pelo management, o discipulado pelo coaching, a exposição da Palavra pelos discursos motivacionais, a santidade pelo relativismo quase-universalista, a doutrina pela graça-barata. Acabam-se as conversões motivadas pelo arrependimento do Homem, por acção do Espírito Santo. O que é válido agora são as decisões ou opções por Jesus. Virar paradigmas de pernas para o ar nem sempre é mau. Mas é péssimo quando dá origem a mais erros, sobretudo se não forem assumidos. E estes são erros que se vão pagar caro, se não é que já não estão a ser cobrados… 

É certo que Cristo redime o Homem e o Homem pode redimir a cultura. Mas não existe espaço para o afrontamento a Deus na Sua Igreja. Questionar Deus é um acto simples do ser humano. Quem questiona Deus com base na busca sincera pela verdade é elucidado pelo próprio Deus. Cristo fulmina a teoria gnóstica da libertação e redenção pelo conhecimento, sobretudo quando diz que é necessário conhecer e permanecer.[13] Questionar nunca será um problema, caso contrário Job teria ficado em branco e seria fulminado. Não, questionar Deus é um exercício que Ele aprecia, porque aí mostra ainda mais toda a Sua Glória, Majestade e Poder. Quem pode não saber responder somos nós, Job que o diga e que ateste a retórica divina… 

Voltamos a Jacob. Sabemos que Deus lhe muda o nome[14], que continua nele a promessa feita anteriormente a Abraão e validada em Isaque. Ele que veio a ser pai de José, sofre na pele a cultura que instaura na sua família quando começa a envelhecer e ganha preferência por um dos filhos. José foi o menino dos seus olhos, a sabedoria humana torna a sobrepor-se à divina e volta-se novamente ao cerne da questão. Deus redime, mas para continuarmos redimidos, temos que continuar com o Redentor bem presente a cada dia. 

É na geração actual que continua o trabalho começado por Deus com os nossos avós, continuado através dos nossos pais e que um dia chegará à mão dos nossos filhos. Não podemos cair no erro de nos acharmos arrogantes, de sermos questionadores ao estilo do “porque sim”. Temos uma caminhada de cerca de dois mil anos e uma Igreja a honrar. Nem tudo em Jacob é mau, nem tudo nesta geração é mau. Temos mais meios, temos mais conhecimento teórico, temos mais canais e caminhos. Parte do terreno já foi desbravado, já temos mapas e sabemos para onde vamos, mas não podemos perder de vista o essencial. 

Deus escolheu Abraão e prometeu-lhe uma multidão de descendentes. Mas também o levou a testes extremos, algo que nos escapa hoje em dia. Subir o Moriá com o filho pela mão não é um caminho alegre. Sacrificar o que mais prezamos não é tão fácil quanto imaginamos. Isaque subiu como sacrifício, desceu como continuador da promessa. Mas não teve que subir o seu monte, nem pensar na sua possível escolha. Desfrutou do que o pai havia conquistado, acumulou e passou ao filho que o enganou. Jacob não subiu ao Moriá, mas passou por Jaboque e teve que lutar com Deus[15]. E da junta que ficou danificada, permaneceu a marca que levou o agora Israel a não mais esquecer esse dia.Todos nós vamos dar com um Moriá ou um Jaboque. Cabe-nos escolher como queremos enfrentar a situação. Se em humildade perante Deus, se em medo perante factores humanos que se nos apresentem. 

A sociedade pode ditar muitas coisas, mas não dita que as portas do Inferno prevaleçam e derrubem a Igreja. E se não ditou com o Renascentismo, nem tão pouco com o Modernismo, não será nesta (nem em qualquer outra) que veremos a Igreja de Cristo derrotada. Podemos traçar várias imagens e planos para a Igreja, mas no fim, é em Actos que encontramos o funcionamento fiel daqueles que são fiéis a Deus. 

“Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos.” Actos 2:42-47 NVI

Ricardo Rosa



[1] - Génesis 17:19-29;
[2] - O marcionismo é uma heresia que defende que o Deus representado no Antigo Testamento é cruel e vingativo, sendo diferente do Deus amoroso do Novo Testamento e por isso inferior;
[3] - Termo cunhado por Lutero no qual se define que debaixo da graça divina, a lei moral de Deus é de pouco/nenhum uso ou obrigação;
[5] - Génesis 29:15-28;
[6] - Mateus 5:39-41; Lucas 6:29;
[7] - Génesis 30:25-42;
[8] - Génesis 31:14-16;
[9] - Êxodo 23:1-3
[10] - Génesis 31:19;
[11] - João 1:1-14;
[12] - Tiago 1:26,27; 1ª Timóteo 5:4;
[13] - João 8:31-33
[14] - Génesis 32:27-29
[15] - Génesis 32:22-24

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