“Isto é que vai uma crise…”
A frase que escolhi para o editorial deste mês é originária do refrão da canção que uma dupla humorística usava nos seus sketches para comentar a situação do país de então.
Agostinho e Agostinha eram personagens interpretados por Camilo de Oliveira e Ivone Silva, em especial destaque no programa humorístico Sabadabadu (no início da década de 1980, quando ainda só havia dois canais de TV). Humores à parte, hoje muito se comenta e argumenta acerca das origens e causas das crises nos vários planos e áreas, às vezes origina até autênticas lutas de titãs, em especial nas redes sociais, que em nada esclarecem e apenas aumentam a desinformação.
E a igreja? O que deve fazer? Como deve agir perante um mundo envolto em desigualdades e crises económicas e sociais? Nada como ir à fonte (e não apenas ao “achismo”) para saber os princípios que Deus nos deixou.
Um dos versículos que sintetizam muito bem aquilo que Deus deseja de cada um de nós (e isso reflete-se também no Corpo de Cristo) é Miqueias 6:8: “O Senhor já te declarou, ó homem, o que é certo. O que ele pretende de ti é que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes com humildade perante ele.” (OL). Justiça, misericórdia e humildade são três aspetos que devem andar sempre ligados. Encontramo-los no Antigo Testamento, num dos principais discursos de Jesus, o Sermão do Monte, e na vivência e ensino da igreja nascente (de Atos dos Apóstolos em diante).
Em resposta à primeira questão que coloquei, vejamos como a igreja vivia e era ensinada acerca de como lidar com as situações particulares e globais de crise económica e social.
Logo nos primeiros tempos de vida da igreja, lemos: “Os crentes encontravam-se constantemente e repartiam tudo uns com os outros, vendendo os seus bens e pertences, e partilhavam o produto por todos, segundo a necessidade de cada um.” (Atos 2:44-45, OL, destaques da autora). Mais à frente, Lucas regista em detalhe: “Não se sabia o que era a pobreza, pois quem tinha terras ou casas vendia-as, levando o produto da venda para o entregarem aos apóstolos, e distribuíam-no segundo a necessidade de cada um.” (Atos 4:34-35, OL, destaques da autora).
Quando os desafios surgiram, havia uma ação concreta: “Com os discípulos a aumentar tão rapidamente em número, havia no seu meio murmúrios de descontentamento. Os que só falavam grego queixavam-se de que as suas viúvas eram postas à margem e de que não lhes davam tanta comida na distribuição diária como às viúvas que falavam hebraico. Então os doze combinaram uma reunião com a assembleia dos discípulos: (…) irmãos, escolham entre vós mesmos sete homens de quem haja um bom testemunho, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, e encarregá-los-emos deste importante trabalho. (…).” (Atos 6:1-4, OL, destaques da autora)
A epístola de Tiago está repleta de alertas neste sentido. Ele menciona a importância de viver uma fé prática, demonstrando amor, misericórdia, equidade e humildade, em atos concretos para com todos, independentemente de serem ricos ou pobres. Numa frase apenas: “(…) a fé, se não é posta em prática, está morta.” (Tiago 2:17, BPT)
Paulo elogiou a igreja em Filipos pela sua generosidade (Filipenses 4). À igreja em Corinto alertou para as divisões que havia em diversos aspetos (1 Coríntios) e para falta de generosidade para com os irmãos de Jerusalém (2 Coríntios 8-9). Aos Tessalonicenses lembra que deveriam trabalhar para o seu sustento (1 Tessalonicenses 4:11-12, 2 Tessalonicenses 3:10-12). Aos crentes em Éfeso fala sobre o trabalho como uma forma de sustento e meio de ajudar os que precisam (Efésios 4:28). Alerta Timóteo para que ensinasse os mais abastados a serem generosos e prontos a partilhar (1 Timóteo 6:17-19), entre muitos outros aspetos.
A sociedade daquele tempo era bastante fraturada e desigual. A igreja marcava a diferença por ser uma comunidade que procurava ser reconciliadora e unida, mesmo sendo étnica e socialmente diversa. Servos e senhores, homens e mulheres, adultos e crianças, judeus e não judeus, de todas as proveniências, origens e etnias passavam a fazer parte de uma grande família, a igreja, desafiando as desigualdades existentes (Gálatas 3:28, Efésios 2:11-19). E isso não era apenas visto no culto a Deus em si, mas no dia-a-dia, na união e no suprimento das necessidades mais básicas. O mesmo deve acontecer hoje, connosco.
Que todos e cada um de nós tenha bem vivas no seu coração e ponha em prática as palavras de Jesus: “(…) Como eu vos tenho amado, assim devem amar-se uns aos outros. O vosso amor uns pelos outros provará ao mundo que são meus discípulos.” (João 13:34b-35, OL). Que sejamos conhecidos e identificados pelo amor e cuidado mútuo… com justiça, misericórdia e humildade.
Ana R. Rosa
in revista Novas de Alegria, setembro 2025

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