Consolados para consolar
Se é verdade que “princípios (bíblicos) determinam práticas”, como o pastor Jeff Grenell tantas vezes afirma, também é verdade que a nossa vivência deve atestar esses princípios… seja nas boas, seja nas más situações que experimentamos.
Este mês e nos próximos gostaria de nos levar a pensar em alguns aspetos dentro desta ótica, em assuntos que Paulo deixa na sua segunda carta à igreja em Corinto.
Se estão familiarizados com a primeira carta de Paulo aos Coríntios, sabem que nela ele aborda vários problemas na igreja (recomendo a leitura do livro Corinto, a igreja (im)perfeita da autoria do pastor António Gonçalves).
Esta segunda carta tem um tom muito pessoal, mesmo dando
algumas achegas a certos assuntos pendentes. Paulo usa muitas vezes expressões
que têm um tema central: consolação… e começa o capítulo um a falar disso
mesmo.
DEUS É A FONTE DA NOSSA CONSOLAÇÃO
“Louvado seja o nosso Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, a fonte de toda a misericórdia e consolo!” (2 Coríntios 1:3, OL)
É tão importante termos a noção de quem Deus é! Ele não apenas nos consola – Ele é a fonte de toda a consolação. Uma consolação verdadeira, profunda e completa que não encontramos noutra pessoa nem noutro lugar. Não procures consolação noutra fonte!
Noutra tradução, lemos que Deus é “o Pai das
misericórdias” (ARC). Ou seja, Ele não apenas tem misericórdia, mas é uma
fonte inesgotável de compaixão. É por isso que Ele merece todo o nosso louvor e
gratidão. Enfrenta as tuas lutas com esta certeza!
A CONSOLAÇÃO NÃO É UM FIM, MAS UM MEIO
“É ele quem nos consola nas nossas tribulações, e isto para que também possamos ajudar outros que estejam aflitos, com a mesma ajuda e conforto que Deus nos concedeu.” (2 Coríntios 1:4, OL)
Paulo assume que os filhos de Deus também sofrem – ele mesmo era prova disso. Alguns crentes em Corinto talvez achassem o contrário, pondo em causa a integridade ministerial de Paulo porque ele era alguém que passara por muitas lutas, e não “encaixava” naquilo que achavam ser o perfil de um apóstolo. A leitura de ambas as cartas leva-nos a essa conclusão. Não podemos julgar a integridade ou espiritualidade dos outros apenas baseados no seu sofrimento.
É verdade que o sofrimento é inerente à condição humana, mas
Deus consola-nos! Isso é fantástico, no entanto a consolação não é em si mesma
um fim! Não somos depósitos de consolo… somos canais de Deus para consolar os
outros! O nosso sofrimento deixa-nos mais sensíveis para consolarmos outros. Entrega-te
nas mãos de Deus e sê usado(a) para consolar outros!
O DISCIPULADO É CARO, MAS A CONSOLAÇÃO É CERTA
“Podem ter a certeza de que quanto mais sofrermos por causa de Cristo, tanto mais ele mostrará o seu consolo para connosco através de Cristo. Tem sido através de tribulações que vos temos levado o consolo e a salvação de Deus. Mas no meio dessas provações Deus nos consolou, o que reverteu em vosso benefício, pois pudemos mostrar-vos pela nossa experiência pessoal a maneira como Deus ajuda todos os que passam pelos mesmos sofrimentos. Ele vos dará, pois, a força para suportá-los igualmente.” (2 Coríntios 1:5-7, OL)
Paulo não está a falar de sofrermos como consequências dos nossos erros – isso é outra questão! Por causa de seguirmos Jesus, mesmo sendo sábios na forma como apresentamos a fé, vivemos situações de oposição por andarmos contra a corrente da maioria e somos atacados por um inimigo que nos quer fazer desistir. No Cristianismo, o conforto na Terra é uma das formas de adormecermos espiritualmente… precisamos vigiar o nosso coração e termos a noção que vivemos numa certa tensão. Podemos ler isso no Sermão do Monte, em 1 Pedro, ver em Atos o que a igreja nascente passou, e estudar a história da Igreja.
No entanto, esse sofrimento não é em vão. Quando passamos por provações por amor a Cristo e ao Evangelho, ficando firmes em Deus e deixando que Ele nos console, vamos ser de ânimo para outros cristãos que sofrem, e um testemunho da fé para aqueles que ainda não conhecem Jesus.
A verdade é que não somos poupados do sofrimento, mas temos à nossa disposição uma consolação de efeitos sobrenaturais, e a nossa experiência deve ser uma forma de inspiração e consolo para outros.
Somos, por isso, consolados para consolar… és um canal ou um depósito do consolo de Deus?
Pensa nisto!
Ana R. Rosa
Fontes consultadas: João C., 2 Coríntios - Série Comentários Bíblicos, Editora Fiel, 2008; Boor, W., Cartas aos Coríntios, Editora Evangélica Esperança, 2004; Hoover, T. R., Comentário Bíblico: 1 e 2 Coríntios, CPAD, 2012; Lopes, H. D., 2Coríntios: o triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades, Hagnos, 2008.
in revista Novas de Alegria, fevereiro 2026

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