A criatividade criativa do Criador

 


Deus como o ponto de partida para a criatividade

Enquanto cristãos, não creio que estejamos acostumados a apreciar a faceta criativa de Deus. Ou melhor, sabemos que Ele é o Criador de todas as coisas, interiorizamos isso como pensamento, mas não o vivemos como podemos (e até devemos) viver.

 

CRIADOR

Reconhecer que Deus é Criador é nada mais, nada menos, que reconhecer uma das facetas mais importantes de Deus. Porquê? Na verdade, é bastante simples… reconhecer que Deus é Criador é dar crédito ao texto de Génesis 1 e 2, em toda a sua extensão, profundidade e beleza. O modo ordenado como Ele faz todas as coisas, a Sua preocupação em estabelecer astros para o dia e para a noite, animais em todos os ambientes, concluindo com o ser humano (a peça mais excelente da Criação), empurra-nos para outros textos como Êxodo 37-39 (a descrição da preparação e construção do Tabernáculo) ou 1 Reis 6-7 (com a descrição da construção do Templo sob a coordenação de Salomão). Mas não só… Job atribui a Deus o nome de Criador (Job 4:17, 32:22, 36:3), Salomão apela a que nos recordemos do nosso Criador durante o tempo da nossa mocidade (Eclesiastes 12:1), Isaías regista Deus a denominar-se Criador de Israel (Isaías 43:15), Jeremias aponta que Ele é o Criador de todas as coisas (Jeremias 10:16, 51:19), Oseias lamenta que Israel se tenha esquecido do seu Criador (Oseias 8:14) e Paulo regista que o ser humano optou por servir mais as criaturas do que o Criador (Romanos 1:25). O facto é que como lemos no relato em Génesis, Deus tem poder para fazer todas as coisas a partir do nada, como pode optar por instruir e inspirar homens e mulheres para usarem os recursos naturais para criarem segundo a orientação de Deus.

 

CRIATIVIDADE

É comum associarmos a criatividade apenas aos artistas. Poetas, pintores, escultores, arquitetos, designers, cineastas, uma vasta gama de meios de representar a arte. Mas, a verdade é que a criatividade não está refém da arte. Está lá emprestada. Ser criativo é encontrar uma solução onde aparece um problema e, aparentemente, não existe solução à vista. Em 1 Reis 3:16-28, vemos o exemplo da criatividade dada por Deus a Salomão, para com sabedoria, resolver um problema complicado que lhe tinha sido trazido a decidir. Já em Neemias 4:17 lemos sobre o modo como Neemias orientou o povo para reconstruir os muros de Jerusalém. Um dos grandes exemplos de criatividade é lido em Atos 17:22–34, quando Paulo, em pleno Areópago (onde se reuniam os pensadores, filósofos, etc., da época para debater sobre todo o tipo de assuntos) anuncia o Evangelho, resultando em vários convertidos.

 

Quando pensarmos em criatividade e em Deus, não podemos ficar fixados ou limitados na produção da arte, mas devemos ser ousados e pedir a Deus que nos dê formas criativas de ultrapassar as dificuldades que enfrentamos, de prosseguirmos a nossa caminhada com Ele ou de O servir, servindo tanto crentes, como descrentes, para alimentar os primeiros e trazer notícias que mudam a vida aos segundos.

 

BOM SENSO (PARTE UM)

Um dos melhores professores de Informática que tive costumava alertar-nos para a falta de bom senso. Dizia ele que o bom senso é a coisa melhor e mais mal distribuída do mundo. Toda a gente diz ter bom senso, mas, muitas vezes, notamos que é o que mais falta. Isso atesta diretamente à criatividade, quando até podemos ter ideias interessantes, mas que são desproporcionais ou desconexas das práticas das igrejas locais onde estamos inseridos. Resumindo, se vamos fazer algo que consideramos criativo, mas corremos o risco de chocar e dividir, mais vale termos bom senso e não o fazer. Deus não é um Deus de confusão, mas de paz, em todas as igrejas (1 Coríntios 14:33).

 

BOM SENSO (PARTE DOIS)

Infelizmente, hoje vive-se uma crise humanitária de larga escala, que obriga a que pessoas de nações distintas procurem noutras nações um porto de abrigo. Podemos questionar o que tem isto em conexão com a criatividade. A resposta é: muito. Começando por perceber que para Deus não existe um estereótipo de pessoa que Ele ame, porque João 3:16 reflete-se a favor de toda a Humanidade. Em Apocalipse há pelo menos duas referências claras a salvos, que são de todos os povos, tribos e línguas (Apocalipse 7:9, 11:9), o que quer dizer que, se não estamos a pensar em como alcançar criativamente estes povos que habitam no nosso meio, estamos a desperdiçar capacidades, tempo e a contrariar a vontade de Deus. Amar o próximo como a nós mesmos (Mateus 22:39) não coloca limitação no tipo de próximo que devemos amar. Pelo contrário, expande-a além do preconceito humano e dos medos que tenhamos. O Criador não faz aceção de pessoas (Atos 10:34-35), porque na verdade, não há diferença cultural para aquele que está em Cristo (Gálatas 3:28). Infelizmente, a criatividade é usada muitas vezes para tentar contornar estas linhas e encontrar subterfúgios para justificar o não amar determinado próximo. É um erro. O mandamento de Deus é para que sejamos testemunhas para com todos (Marcos 17:15-16) e façamos discípulos transculturalmente (Mateus 28:19-20), dentro ou fora das “nossas” fronteiras.


CRIATIVOS

Nem todos vamos ser como Bezalel ou Aoliabe (Êxodo 31:1-11), nem como Asafe (Salmo 50, 73-83), Agur ou Lemuel (Provérbios 30-31). Mas, todos podemos pedir a Deus que nos dê criatividade perante os desafios da vida. Maiores ou menores, mais ou menos artísticos, em todos os âmbitos da nossa vida. E que cada um seja feliz com os dons e criatividade que Deus lhe dá, porque, no final, o que conta é o alcance dos que ainda não foram alcançados (Atos 1:8; Romanos 10:14-15) e a edificação da Igreja (1 Coríntios 14:26; Efésios 4:11-12).

 

Ricardo Rosa

Texto originalmente publicado na revista Novas de Alegria, março 2026

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