“Nem tudo o que luz é ouro”


Sim, o ditado popular tem esta característica de dizer muito com poucas palavras. Outro dito popular parecido “Nem tudo o que parece é”. Mas neste editorial não vou dedicar-me à Paremiologia, ao estudo dos provérbios populares1… Vamos fazer uma “breve” viagem ao passado.

Jesus estava no início do Seu ministério. Ele percorreu a Galileia e ensinou, curou, libertou pessoas. Vejam como Mateus descreve o alcance do ministério de Jesus: “E a sua fama correu por toda a Síria, e traziam-lhe todos os que padeciam, acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos, e os paralíticos, e ele os curava. E seguia-o uma grande multidão da Galileia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judeia, e de além do Jordão.” (Mateus 4:24-25)

Quando entramos no capítulo 5, é este o contexto. Não era “meia dúzia” de pessoas que se juntaram para escutar Jesus… Era uma grande multidão. E é a esta multidão que Ele começa a ensinar. O Sermão do Monte não é uma espécie de coleção de soundbites populares. Nada disso - é uma mensagem que tem um encadeamento, uma linha de pensamento, que leva os ouvintes a compreenderem a diferença entre o pensamento religioso em vigor e a chegada do Reino de Deus, que Jesus anunciava (Lucas 4:43). Enquanto o primeiro se baseava em atitudes externas, o segundo baseia-se nas intenções do coração. E quando chega quase ao final deste sermão basilar para todos os que se dizem cristãos, Jesus deixa avisos importantes…

“Cuidado com os falsos profetas que se disfarçam de ovelhas mansas, mas que afinal são lobos que querem devorar-vos. Vocês reconhecê-los-ão pelos frutos que eles dão. Será que se colhem uvas dos espinheiros, ou figos dos cardos? Assim, toda a árvore boa dá frutos de boa qualidade, e toda a árvore de má qualidade dá frutos maus. Uma árvore boa não pode dar frutos maus, nem uma árvore de má qualidade pode dar frutos de boa qualidade! Toda a árvore que não dá bons frutos acaba por ser cortada e lançada no fogo. Sim, é pelos frutos que eles dão que vocês reconhecerão esses falsos profetas. Nem todos os que me chamam ‘Senhor! Senhor!’ entrarão no reino dos céus. Porque o que importa é saber se obedecem ao meu Pai que está nos céus. No dia do juízo muitos me dirão: ‘Senhor! Senhor! Profetizámos em teu nome e servimo-nos do teu nome para expulsar demónios e para operar muitos outros milagres.’ Mas eu responderei: ‘Nunca vos conheci. Afastem-se da minha presença, pois praticam transgressões.’” (Mateus 7:15-23, OL)

“Nem tudo o que luz é ouro”... nos dias turbulentos em que vivemos, precisamos revisitar as palavras de Jesus, vez após vez. Como Seus seguidores, devemos ser bastante ponderados antes de validarmos, partilharmos ou nos associarmos a quem quer que seja - qualquer que seja a área e quaisquer que sejam as pessoas. Muitos dos que se dizem "cristãos" têm apenas o rótulo… o problema depois é o "conteúdo". E muitos dos que defendem alguns pontos de vista semelhantes ao bíblicos, contradizem por opção e em consciência a maioria dos ensinos de Jesus e os princípios bíblicos, sem quaisquer problemas.

Sejamos prudentes. Os resultados negativos de validação ou associação com pessoas/entidades erradas são por norma mais avultados (moralmente) do que os benefícios aparentes... Há uns anos ouvi uma mensagem pela evangelista Ana Mary baseada em Josué 9 que, de forma muito clara e contextualizada, nos mostrava o perigo de nos associarmos a alguém precipitadamente. Josué e os líderes de Israel foram visitados por gente muito simpática, aparentemente. Não consultaram a Deus e agiram segundo lhes pareceu bem. Pouco depois, “provaram” o sabor amargo da sua imprudência…

“Três dias mais tarde os factos começaram a ser conhecidos e a verdade a vir ao de cima; essa gente não era mais do que simples vizinhos. O exército de Israel pôs-se logo em campo para averiguar os factos e alcançou as cidades deles em três dias. Os nomes dessas povoações eram Gibeão, Cafira, Beerote e Quiriate-Jearim. No entanto, nenhuma dessas cidades foi atacada, devido ao tratado que os líderes de Israel tinham feito na presença do Senhor, o Deus de Israel. O povo de Israel ficou revoltado contra os seus chefes, por causa do engano em que caíram, assinando esse tratado de paz. Contudo, os líderes responderam-lhes: ‘Jurámos perante o Senhor, o Deus de Israel, que não lhes tocaríamos e assim faremos. Teremos de deixá-los com vida pois, se quebrarmos o juramento que fizemos, a ira de Deus cairá sobre nós.’” (Josué 9:16-20, OL)

Sem saber, fizeram acordos com povos inimigos, e hipotecaram o propósito de Deus quanto à conquista da extensão da Terra Prometida na sua geração e nas gerações seguintes. “Nem tudo o que luz é ouro.”

Pensa nisto!

 

Ana R. Rosa


1 "paremiologia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/paremiologia.


Texto originalmente publicado na revista Novas de Alegria, junho 2026

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