Além do aparente
Apesar de continuarem muito ligados ao mundo digital, muitos jovens têm escolhido não publicar nada nas redes sociais. A tendência, chamada posting zero, começou por aparecer nos Estados Unidos e está a espalhar-se por outros países.
“As redes sociais estão a ser usadas sobretudo como plataformas de consumo de conteúdos.” Há “várias causas para esta mudança de hábitos. Entre elas estão o desgaste provocado pela exposição constante, a saturação de conteúdos e o chamado ‘cansaço digital’. Outro fator frequentemente referido é a perda de confiança nas plataformas, associada ao peso dos algoritmos e à perceção de manipulação da informação.”1
Não é por acaso. Muito se tem falado das consequências do consumo de redes sociais (e não só) na saúde mental. Dá-se muita importância à aparência e às perceções, como se o nosso valor e felicidade dependessem da imagem, de tal modo que se torna desgastante tentar estar sempre “em alta”, mesmo que seja apenas aparentemente. Isto dá que pensar. Quando tiramos todos os filtros e enquadramentos, o que fica? Afinal, o que é que importa: quem somos ou aquilo que parecemos?
Vamos ao primeiro Salmo…
“Feliz é aquele que não segue o conselho dos ímpios, que não vai pelo caminho dos pecadores, nem se senta na companhia dos escarnecedores. Antes tem prazer em fazer o que o Senhor ensina, meditando dia e noite na sua Lei. É como a árvore plantada junto a cursos de água, que dá fruto na época própria, e cujas folhas não murcham. Tudo o que ele fizer prospera. Mas não são assim os ímpios! São antes como a palha que o vento leva. Por isso, não resistirão, quando vier o julgamento de Deus, não poderão permanecer no ajuntamento dos justos. Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios conduz à perdição.” (Salmo 1, OL)
Este poema vai-nos falar daquilo que importa e das
consequências de termos as nossas prioridades trocadas. É feliz (noutras
traduções “bem-aventurado”) quem é fiel de coração, pensamentos e atitudes a
Deus, em tudo... Na sua vida pública, privada e no secreto... Porque tudo
começa no coração. A verdadeira felicidade é, no fundo, a alegria que só Deus
proporciona cá dentro. A nossa devoção completa a Deus, mesmo que ainda
imperfeita, resulta da nossa resposta ao desafio de nos negarmos a nós mesmos,
identificarmo-nos com Jesus em tudo o que somos e fazemos, e segui-Lo: viver
uma vida de adoração inteira e não apenas extremamente, ou seja, obedecer-Lhe.
Quando Deus é quem amamos acima de tudo e de todos, Ele não é uma parte da
nossa vida, mas tudo na nossa vida gira à volta Dele. Não precisamos de
relacionamentos que nos prejudiquem, de conversas que nos corrompam, de estilos
de vida que neguem aquilo que dizemos ser e quem dizemos seguir.... Porquê?
Porque Ele é o nosso tudo, o maior amor que podemos encontrar. A 'vacina'
(preventiva) das pessoas, ambientes e estilos de vida tóxicos é a Palavra de
Deus - é nela que acedemos aos princípios que devem determinar as nossas
práticas... Princípios que refletem o Seu carácter Santo, Justo e Amoroso.
E agora, voltando ao tema com que abrimos este artigo. Se nos compararmos a
árvores, o salmista aponta que quando estamos centrados em Deus, somos como “a
árvore plantada junto a cursos de água, que dá fruto na época própria, e cujas
folhas não murcham. Tudo o que ele fizer prospera.” (v. 3)
Quando estamos enraizados no sítio certo, seremos como árvores que dão bom fruto - fruto produzido pelo Espírito Santo em contraste com as obras da nossa natureza caída (carne) (Gálatas 5:22-23). Árvores frutíferas e não apenas decorativas, com folhas bonitas, mas sem qualquer utilidade. Podemos ter muitos seguidores, saber fazer os melhores vídeos, ter as melhores fotos, e na igreja sermos conhecidos pelos nossos múltiplos talentos, mas quem é que somos e como vivemos realmente? Como está o nosso coração, a nossa linguagem, o nosso estilo de vida?
Nestas coisas não há uma terceira via: ou vivemos ou não vivemos para Deus. E quando não vivemos... somos “como a palha que o vento leva.” (v. 4). Jesus explica que podemos parecer quem realmente não somos, mesmo no que toca à nossa fé pelo nosso fruto (carácter) e não pela nossa performance. No Sermão do Monte, Ele é bastante claro: “Cuidado com os falsos profetas que se disfarçam de ovelhas mansas, mas que afinal são lobos que querem devorar-vos. Vocês reconhecê-los-ão pelos frutos que eles dão. (…) Nem todos os que me chamam ‘Senhor! Senhor!’ entrarão no reino dos céus. Porque o que importa é saber se obedecem ao meu Pai que está nos céus. No dia do juízo muitos me dirão: ‘Senhor! Senhor! Profetizámos em teu nome e servimo-nos do teu nome para expulsar demónios e para operar muitos outros milagres.’ Mas eu responderei: ‘Nunca vos conheci. Afastem-se da minha presença, pois praticam transgressões.’” (Mateus 7:15-16a, 21-23, OL)
Num tempo em que o aparente está no trono das tendências da
sociedade, como seguidores de Jesus, que a nossa maior alegria e razão de viver
seja agradar-Lhe, como filhos, como servos. Que vivamos além do aparente.
Pensa nisto!
Ana R. Rosa
1 RFM. (2024, dezembro 20). Porque é que os jovens
estão a deixar de publicar nas redes sociais? RFM.
https://rfm.pt/atualidade/21913/porque-e-que-os-jovens-estao-a-deixar-de-publicar-nas-redes-sociais
(negrito da autora)
Texto originalmente publicado na revista Novas de Alegria, julho 2026

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