Pescadores de homens…

 


O título do editorial deste mês remete-nos para o conhecido episódio bíblico em que Jesus chama Simão Pedro e André, irmãos e pescadores, para serem Seus discípulos. “Venham comigo e eu vos farei pescadores de homens.” (Marcos 1:17, BPT)

O convite de Jesus está no contexto do início do Seu ministério. É simples e diz muito. Jesus chama-os (e chama-nos também) a segui-Lo e a trazer outros para o mesmo caminho. Ainda hoje o desafio é o mesmo: trazer as pessoas que estão na escuridão para o caminho da luz, levar a mensagem de reconciliação que Deus com os homens, proclamar o Evangelho da paz.

Mais tarde, Paulo escreveu “O meu grande desejo tem sido ir sempre mais longe, pregando de preferência onde o nome de Cristo ainda não tenha sido ouvido, e não edificando sobre um fundamento posto por outro.” (Romanos 15:20, OL). Roma tinha uma igreja já estabelecida. Logo no início desta carta ele demonstra gratidão a Deus porque aqueles irmãos e irmãs foram alcançados pela mensagem do Evangelho e receberam a Salvação.

Paulo e as equipas com que trabalhou fundaram várias igrejas locais naquele tempo... e a sua prioridade era clara: começar igrejas onde estas ainda não existiam. Eles eram verdadeiros pescadores de homens, no mar que é este mundo, e não pescadores de aquários alheios (igrejas já estabelecidas) – lendo o livro de Atos dos Apóstolos e as muitas cartas escritas a várias igrejas verificamos exatamente isso.

O foco, as energias, o trabalho, as estratégias da igreja nascente, dirigida pelo Espírito Santo, seguiam claramente esse princípio. O desejo de que as boas notícias de Salvação, da nova vida em Cristo deviam chegar ao maior número possível de pessoas, no maior número possível de lugares.

E hoje? Os números falam por si:

 - PORTUGAL - Há 29 concelhos por alcançar com o Evangelho1, onde não há uma igreja evangélica sequer… então por que razão a maioria das novas igrejas abre nas cidades, vilas e bairros e até ruas onde já estão outras igrejas, mesmo em pequenos lugares?

- MUNDO – Segundo dados do Joshua Project, existem cerca de 3,6 mil milhões de pessoas pertencentes a grupos étnicos considerados não alcançados (44% da população mundial), onde menos de 2% da população é evangélica (e alguns não têm qualquer testemunho cristão, nem a Bíblia traduzida no seu idioma). Então, por que razão apenas 3% dos missionários estão envolvidos no alcance desses grupos étnicos, ao passo que 97% dos missionários trabalham onde o Evangelho já chegou a grupos considerados alcançados (segundo a mesma fonte)?

Há uma estratégia silenciosa e disfarçada para que a igreja – cada um de nós – fique adormecida a paralisada. Ao invés de obedeceremos ao essencial e principal que Jesus nos mandou fazer (ir, alcançar, ensinar… do outro lado da rua ao outro lado do Mundo), a sedução do conforto e da autossatisfação ganhou espaço e palco. A fé como prática privada, consumista e cultural, substituiu o verdadeiro discipulado, onde a renúncia, a humildade e o serviço são inegociáveis.

A influência que deveríamos exercer como sal e luz, como pacificadores e reconciliadores, tem sido silenciada como tal, porque é desconfortável ser-se discípulo de Jesus nos Seus termos e condições (que tal ler os Evangelhos e verificar?). Então, usámos a mesma palavra – influência - para deixarmos que os nossos métodos falassem mais alto: o poder mais do que o serviço, o impacto temporário mais do que o resultado eterno. Em vez de pontes disponíveis para levar os outros a Cristo – até os que se poderiam considerar nossos inimigos – construímos altíssimos muros de orgulho, longe da compaixão do Mestre que dizemos servir.

Neste mundo de marcas, egos e corrupção onde tudo parece ser possível, a Igreja pode e deve marcar a diferença. Devemos ser construtores de um reino que não terá fim – o Reino de Deus – onde a humildade, o respeito, a submissão mútua, a compaixão e o desejo de resgatar vidas do caminho para a perdição, sejam a nossas escolhas, e não criarmos e alimentarmos os nossos impérios pessoais, terrenos e incertos. Menos de nós, e mais de Deus. Menos egoísmo, mais compaixão.

Como Paulo, que o nosso grande desejo seja ir sempre mais longe para crescimento da Igreja e Glória de Deus, pregando de preferência onde o nome de Cristo ainda não tenha sido ouvido. Homens e mulheres que levam a mensagem do Evangelho através da sua vida e das suas palavras, do outro lado da rua ao outro lado do Mundo.

Pensa nisto!

 

Ana R. Rosa

Texto originalmente publicado na revista Novas de Alegria, setembro 2026

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