Binómios: como conciliar ciência e fé, em resposta a dúvidas da Geração Z?
À primeira vista, o título parece algo que não
compreendemos. Até pode dar o ar de que me enganei a escrever binóculos, algo
que não está muito longe da verdade, uma vez que equacionei o termo “binóculos”
para o título. Mas não…
NO PRINCÍPIO
Sendo muito claro e com pouca disposição para textos analíticos, o grande problema da palavra binómico é que soa a algo esquisito. Alguns leitores vão associar o termo ao campo da Matemática, já que lá se trata de binómios em operações. Outros, como eu, que são mais dados às Humanidades, embora tenha formação no eixo das ditas Ciências Exatas, mais concretamente em Informática (que de exata começa a ter cada vez menos), arriscarão a explicação filosófica para falar do Homem como um binómio de corpo e alma.
Na realidade, um binómio é a ligação entre duas coisas (perdoem-me a simplicidade da definição; no entanto, creio que é a mais simples e compreensível). Mas, o ideal mesmo é começarmos pelo princípio, como diz Génesis 1:1 e, se calhar, cronologicamente, até antes disso, com João 1:1 e 2, onde lemos “Antes de tudo, havia a Palavra, a Palavra presente em Deus, Deus presente na Palavra. A Palavra era Deus, Desde o princípio à disposição de Deus.” (MSG)
Quando falamos em Deus e em fé, até podemos pensar num
trinómio, numa ligação de três coisas, ou numa tricotomia (para complicar mais
um pouco), algo que é composto por três partes. Um excelente exemplo é como
lemos em 1 Tessalonicenses 5:23, que o Homem é espírito, alma e corpo. Ou o
próprio Deus, que sendo três-em-um, é “composto” (contém, é formado, existe
como, pode descrever-se) por Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. A
grande questão é esta: o que é que isto quer dizer à Gen Z (Geração Z) e
como é que entendem estes temas?
SETE PRINCÍPIOS ELEMENTARES
Se queremos traduzir para linguagem da Gen Z o que é
a fé e que entre fé e Ciência, não existe necessariamente uma exclusão de uma
pela outra. Então, precisamos compreender sete princípios base, que vou deixar
abaixo e começar a lidar com a Gen Z e as suas dúvidas de modo natural:
1 – A fé responde à questão do “porquê?”, a Ciência
responde questão à questão do “como?”.
A Ciência explica como o Universo veio à existência (ou como
Deus fez as coisas existirem de modo ajustado, afinado e capaz de sustentar
vida); a fé explica o porquê de Deus ter feito o que fez e, já agora, o “para
quê?”, também.
2 – Uma ideia que desfaz muita da tensão que é
inutilmente criada no binómio Fé-Ciência é compreender e aceitar algo simples:
a Bíblia não é um manual de Ciência.
Não ensina ou transmite fórmulas, cálculos, leis científicas
ou regras de investigação, por exemplo. Deixemos que a Bíblia explique por si o
que ela mesmo é: “Porque toda a Escritura é inspirada por Deus” [Nota do
autor: por Escritura, entendam-se o Antigo e Novo Testamentos e não a
generalidade das escrituras religiosas como o Alcorão, os Vedas, o Baghavad
Gita, o Livro Tibetano dos Mortes ou o Nihonshoki] e é útil para nos
ensinar, para nos repreender, para nos corrigir, para nos instruir no caminho
da justiça. Para que todo aquele que pertence a Deus
seja reto e perfeitamente habilitado a executar o que é bom.” (2 Timóteo
3:16,17, OL);
3 – A Ciência está em constante verificação, avaliação e
mutação; Deus não.
A Ciência precisa de se autoavaliar e autoquestionar, de ser
revista e de ser transformada, adaptada e mudada conforme o conhecimento
permite aprofundar mais a Física, Química, Biologia, Geologia, etc. Já Deus e
as Sagradas Escrituras (Bíblia), não precisam de mudar, nem mudam. Aliás, Tiago
explica-nos isso muito bem, quando escreve que “Ele que é o Criador de toda
a luz e nele não há sombra, nem mudança.” (Tiago 1:17b, OL). Por inerência,
se Ele não muda, a Sua revelação escrita também não muda, caso contrário seria
uma contradição;
4 – Ciência não implica ateísmo.
Uma pesquisa levada a cabo e que engloba os vencedores do
prémio Nobel de 1901 a 2000, demonstra que 65% deles são cristãos (das mais
variadas confissões cristãs, 20% são judeus e menos de 1% são muçulmanos.
Apenas 11% se descrevem como ateus e/ou agnósticos, sendo que desses 11%, a
maioria foi Nobel da Literatura (35%) contra 7% em Química, 9% em Medicina ou
5% em Física1.
5 – A dúvida não é um sinónimo ou um sintoma de falta de
fé.
Aliás, eu diria mesmo é que demasiadas certezas e poucas
dúvidas, são um indicador de mais falta de fé (e de encaixotar Deus e a
Palavra) do que propriamente o contrário (mas isso é outro sermão, que fica
para outra ocasião!). A Bíblia está repleta de exemplos que, em algum momento,
exibiram um comportamento que geralmente se etiqueta como falta de fé ou (pelo
menos), dúvida: Tomé (João 20:25), David (Salmos 13:1), Job (Job 3:11), Elias
(1 Reis 19:4) ou Habacuque (Habacuque 1:2). A dúvida surge em vários momentos
da nossa vida e caminhada cristã. O problema não é ter. É não as resolver. E,
muitas vezes, a resolução para a dúvida assenta em confiar em Deus pela fé,
vivendo com o que Ele já nos deixou declarado (Deuteronómio 29:29);
6 – A fé explica ou dá sentido ao que a Ciência não
consegue responder ou onde não consegue chegar.
Pode parecer uma ideia meio escapista, mas, cientificamente,
provar que temos uma alma ou espírito, assim como descobrir a fórmula química
do amor, decretar princípios que definam práticas ou definir valores de vida
humanos, não só é uma ilusão, como faz com que as pessoas deixem de ser
pessoas. A Ciência pode explicar como as emoções fazem o nosso corpo reagir,
que neurotransmissores estão mais ativos ou contabilizar os melhores valores e
princípios de vida. Mas, não os consegue definir, porque a Ciência é uma
ferramenta, não um fim em si mesmo;
7 – Menos debates, mais proximidade.
A Gen Z vive com telemóveis e dados ilimitados nas
mãos. Encontrar argumentos é algo que não lhes é difícil. O complicado é
colocar esses argumentos ao mesmo nível da vida cristã que devem levar. E, é aí
que geralmente, temos as quebras e os conflitos com quem não tem fé (e por
vezes, até mesmo nas igrejas locais). É quando existem argumentos na teoria,
mas pouca evidência (provas, factos, algo que demonstre) o viver desses
argumentos. Quando se é confrontado com algo que não se domina ou não se sabe,
mas se quer responder, nada como ser honesto, não inventar desculpas ou
respostas, para se ir aprender sobre o assunto e depois responder.
Ricardo Mendes Rosa
1 “How Many Nobel Prize Winners Believed In God?”, John Lennox, consultado a 13 de abril de 2026,
https://johnlennox.org/article/how-many-nobel-prize-winners-believed-in-god/.
Texto originalmente publicado na revista Novas de Alegria, outubro 2026

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