Quando há choro na festa
Se disser que devemos ser solidários com o estado de espírito dos nossos irmãos na fé, ninguém me questiona. Afinal, Paulo instrui os crentes em Roma: “Alegrem-se com os que estão alegres e chorem com os que choram.” (Romanos 12:15, BPT)
Mas talvez não seja assim tão linear quando as duas situações se cruzam. Por vezes quando uns estão a celebrar outros podem estar em sofrimento, mesmo ali ao lado. Não estou a falar de uma situação do momento, um dia mau ou “amarrar a burra” por inveja… Há pessoas ao nosso lado a viver situações de desgaste físico, emocional e mental, que sofrem no corpo ou na alma, não por falta de fé, mas pelas circunstâncias que passam e que se estendem ao longo do tempo. Então, o que fazemos?
A nossa natureza humana tem a tendência automática de julgar essa pessoa (ou essas pessoas) porque não é socialmente conveniente... “Não dá jeito nenhum” alguém estar deprimido, ansioso, stressado ou mesmo esgotado, quando só tinha era de “ficar bem na fotografia” ... Debitamos a nossa opinião e calamos a voz da consciência que eventualmente nos tenta alertar para a possibilidade de haver razões mais profundas do que aquelas que julgamos.
Sem compreender as causas e a amplitude da tristeza e do sofrimento dos outros, fazemos os nossos juízos precipitados e acabamos por afastar em vez de acolher as pessoas que se calhar só precisavam de um momento de escuta ativa, de uma oração, de um(a) amigo(a).
Há pessoas que escondem as dores porque ao exporem as suas fragilidades no passado foram julgadas como fracas ou 'coitadinhas'. Pessoas que “engolem” os seus sentimentos e até dor física, e que ficam isoladas para não ter de lidar com a falta de empatia dos outros.
Há pessoas que estão a passar necessidades, que precisam de ajuda para sair do buraco em que se encontram, e guardam isso para si com vergonha de expor a sua situação e dos rótulos ou julgamentos alheios. Então, não sabem como nem onde procurar sem serem expostos ou julgados, mas ajudados e orientados.
Há pessoas que deram tudo a todos em todo o lado, mas foram esquecidas quando já não faziam falta. E vivem numa luta interior constante acerca do seu valor e da sua entrega. Que não têm um telefonema a perguntar 'como estás?' há meses. Não para pedir alguma coisa, mas simplesmente porque do outro lado há alguém que deseja ouvir e orar com ela.
Há pessoas que entram e saem da igreja sem ter uma conversa de genuíno interesse pela sua caminhada com Deus e as suas necessidades. Que sofrem em silêncio, porque simplesmente estamos mais preocupados com o nosso grupo, e não temos tempo nem paciência para ajudar a levar as cargas dos outros (mas queremos sempre que alguém nos ajude a levar as nossas).
Estamos numa sociedade cada vez mais egocêntrica, que valoriza as aparências e julga tudo pela perceção mais do que a essência. Vivemos entretidos e distraídos. Queremos que todos façam festa quando estamos em festa, mesmo que estejam em pedaços por dentro, e “cobramos” do alto da nossa prepotência…
A tendência é desvalorizarmos o sofrimento do outro com uma espiritualidade tipo “penso rápido” - “O Senhor vai ajudar-te.” -, usando a famosa e perigosa comparação - “Eu passei por coisas piores” -, ou ainda nos afastamos para não ter de lidar com a situação.
Não deve ser assim na igreja...
“Imaginem que algum irmão ou irmã, não tem nada que vestir e lhe falta o necessário para comer, cada dia. Poderão dizer-lhes: ‘Vão em paz! Hão de encontrar com que se aquecer e matar a fome!’ Mas se não lhes dão aquilo de que eles precisam, de que valem essas boas palavras? Do mesmo modo, a fé, se não é posta em prática, está morta.” (Tiago 2:15-17, BPT)
“Que o amor que mostrarem pelos outros seja autêntico. Tenham horror ao mal. Tomem sempre posição do lado do bem.” (Romanos 12:9, OL)
“Partilhem uns com os outros o peso das vossas dificuldades e assim cumprirão o mandamento de Cristo. Se alguém se julga importante demais para ajudar a levar os fardos dos outros, está a iludir-se a si próprio.” (Gálatas 6:2-3, OL)
“Posso suportar todas as coisas com a ajuda de Cristo, que é a fonte da minha força. Contudo, fizeram bem em me terem ajudado nesta difícil situação.” (Filipenses 4:13-14, OL)
Quem queremos ser? A quem queremos imitar? Queremos ser compassivos como Jesus ou egoístas como muitos que nos rodeiam? Que o Senhor ajude a todos e a cada um a estar sensível e solidário com aqueles que estão tristes, da mesma forma que gostamos que nos ajudem nos nossos momentos mais difíceis.
Pensa nisto!
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