Da Palavra escrita à Palavra encarnada

“Tole, lege” ou em português, toma e lê, foram as palavras que Agostinho de Hipona ouviu dado dia num jardim. 

Ditas por uma voz desconhecida, estas palavras levaram-no a aceder às Sagradas Escrituras de modo a poder lê-las e escutar o que a voz de Deus lhe diria através do silêncio e da oração.


Ainda hoje, é importante que façamos o exercício da disciplina do silêncio, da leitura das Escrituras e da oração das mesmas com o Deus. Toda a Palavra escrita, diário da revelação de Deus ao Homem e do relacionamento entre ambos durante séculos, serve como sustentáculo histórico à fé Cristã. Esse conjunto de livros a que chamamos Bíblia, não é como o Alcorão, um livro a ser adorado. Mas força-nos a um caminho, a um trajecto em que a intimidade com a Palavra encarnada (Jesus de Nazaré) é anunciada; torna essa intimidade desejada, processada e concretizada.


Toda a Palavra escrita tem um fim, uma aplicação prática, uma espécie de instrução devocional para o caminhar com Cristo. Toda a Palavra escrita não é um fim nela mesma, mas um meio de nos levar à Palavra encarnada, de nos solidificar no Messias, de nos alimentar com as palavras do Emanuel. Toda a Palavra escrita é uma obra colaborativa entre o ser humano criado e necessitado e comunhão, e o Deus Criador e comunitário.

O trajecto feito por Agostinho, desde a leitura das Sagradas Escrituras até ao seu processo de relacionamento com Cristo, é por isso uma espécie de parábola pós-bíblica, na qual somos incentivados a perceber que quem lê as Escrituras com sede, vai ser saciado pelo autor das mesmas. É como que uma espécie de aplicação do ditado chinês do homem e do peixe. Viver do que outros nos digam sobre as Escrituras, é viver como o homem que mendigava por um peixe, cuja fome era saciada por vezes, mas ainda assim vivia pobremente. Mas ser instruído e ler as mesmas, é sofrer o processo de aprendizado que levará esse homem a pescar e a ver a sua fome saciada continuamente.

Este trajecto a ser cumprido diariamente, numa espécie reconversão diária (na qual assumimos diariamente a nossa cruz e pedimos perdão a Deus pelas nossas falhas) é feito naquilo a que o Latim Teológico chama, “Coram Deo” ou seja, na presença de Deus. Não existe outro modo de caminhar, das Escrituras que testemunham do Cristo, até Cristo que valida as Escrituras, somos chamados a fazer um percurso como Israel no Sinai. Perante o olhar e sob a proteção e direção de Deus.

É na riqueza deste percurso, começado na leitura das Escrituras, feita de coração aberto e espírito que perscruta, que Cristo vai caminhar ao nosso lado, tornando incontestável a ideia de Ralph Emerson: “Nenhum caminho é longo demais quando um amigo nos acompanha”. Começar na Palavra escrita e procurar receber no coração a Palavra encarnada é um acto de relembrar a Natividade. É o ler hoje, as profecias que já foram cumpridas no nascimento do Messias, para celebrar hoje o nascimento mais importante da História.

A Palavra escrita traz-nos Deus, tanto literária, como ideológica e teologicamente; mas precisamos de dar passos no sentido de O acolher no nosso meio: primeiro no coração, depois no nosso círculo de influências e finalmente na nossa sociedade. Só assim faz sentido celebrar o nascimento do “Deus que está no nosso meio”, Emanuel.


Ricardo Rosa

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