01 setembro 2007

Diferença ou indiferença?

Cada novo dia é (mais) uma oportunidade para ser como Jesus.


De mãos abertas, vertendo aquele amor tão Seu, incrível mas atingível. De braços escancarados, como portas franqueadas pela misericórdia contínua por todos, sem excepção. De corpo inteiro, totalmente entregue no auge do maior acto de generosidade da História. 

Exposto perante a multidão, por uma carga incalculável de pecados e angústias, de doenças e sofrimentos de todos os séculos. Ele foi além do esperado. Além do mero acto de compaixão humanista. Além de um gesto de simpatia ou dever. Além do compromisso frio com a Sua missão.

Fez a diferença eterna na Sua morte, como fazia no seu dia a dia, invadindo com gentileza, cavalheirismo e amor genuíno o quotidiano colectivo e individual daqueles com quem se cruzava. Da escravidão do pecado e opressão espiritual para a liberdade do compromisso com Deus. Da agonia da doença, para a alegria da cura. Do caos para o Céu, num percurso iniciado pelo passo do arrependimento, no veículo do novo nascimento.

Ele amou-nos primeiro. Primeiro Ele agiu. Primeiro Ele mostrou o Seu divino interesse em nos salvar e transformar. Primeiro Ele veio e entregou-Se. A Sua generosidade activa que aniquilou a indiferença fez (e faz) mossa no egoísmo crescente da humanidade.

Mais uma vez confronto-me com o desafio dos desafios: ser como Jesus. Saber que sou amada por Ele ao ponto de ter entregue a Sua vida por mim dá-me razões suficientes para agradecer por toda a eternidade, começando aqui na terra. Mas a visibilidade do resultado do Seu amor derramado na minha vida é também necessária e importante. Ser veículo das Suas palavras de mudança positiva para a vida da humanidade em declínio. Aprender a amar como Ele ama, agindo para levar pão e salvação aos outros.

O melhor púlpito é o nosso mundo. A melhor pregação é a nossa vida. O melhor apelo são as lágrimas que vertemos com aqueles que choram, o sorriso que partilhamos com quem alcança uma vitória, o recado de encorajamento para o abatido, o chá e o tempo para o amigo que quer desabafar, o nosso segundo casaco para quem não tinha com que se aquecer, o prato cheio para o estômago vazio. Dar o que podemos a quem deseja receber.

Peço perdão a Deus pela minha indiferença. Pelas oportunidades que deixo para trás na história da minha vida. Mas fico grata pelas vezes em que aproveitei a ocasião e vi Deus marcar a vida do outro. Estas são as sementes que planto, os frutos que colho e colherei, mesmo que não ouça um imediato “obrigado” nem aconteça nada de fantástico, aparentemente. Continuo. Espero no futuro e suplico ajuda ao meu Mentor e Amigo dos amigos, para que eu seja cada vez mais um espelho Dele, marcando a diferença de forma positiva nas vidas daqueles que me rodeiam.

Diferença ou indiferença? Reparto o desafio com quem me escuta para que partilhe da mesma oração e parta para a acção.

Ana Ramalho


in revista Novas de Alegria, suplemento NAJovem, Setembro 2007

O regresso (in)esperado

Depois de arrumar, definitivamente, o chapéu de sol e outros apetrechos habituais da época de Verão, fecha-se o portão da garagem com a sensação que se encerra a “velha” estação a sete chaves.

Mesmo que o sol faça ainda o seu apelo a cada manhã e a praia bem perto ou bem longe continue a chamar-nos, o relógio não pára. O patrão não espera. O toque soa e os mais novos voltam à escola. Nós regressamos à rotina, desesperados pelo próximo feriado ou pela época natalícia. Enquanto esperamos as primeiras gotas de chuva, gastamos parte do orçamento nos livros e parte da nossa paciência na renovação do guarda-roupa, na troca da roupa fresca pela mais quente.

O regresso às aulas é o retorno esperado. Voltar ao trabalho é destino obrigatório. O decurso natural dos tempos e estações, ao ritmo do qual nos movemos e agimos, calendariza boas-vindas e despedidas, partidas e regressos. Factos e acontecimentos socialmente banais. Datas marcadas. Rotinas e tradições da nação, da cidade, da família.
Como família espiritual, o organismo vivo cujo comandante é Cristo, ao qual chamamos igreja, temos também um outro calendário. Não me refiro aos doze meses do ano, aos 365 ou 366 dias, às 24 horas do nosso relógio. Falo do calendário de Deus, Aquele que governa os tempos e as estações.

Na Sua infinita e eterna existência, o Senhor do universo tem o Seu próprio calendário, o Seu plano. Como filhos, temos acesso à Sua agenda de datas invisíveis mas com sinais visíveis que anunciam aquilo que irá suceder. Revemos na terra esses factos acontecerem, cumprindo aquilo que Ele avisou que aconteceria. Aquilo que daria o sinal de que Jesus iria regressar. O que lemos nessa agenda – a Bíblia – vemos no planeta. Escutamos as vozes da natureza, da crise política e social, da guerra e poluição, do amor enfraquecido, da insegurança, do Evangelho a ser espalhado pelas estradas de terra, os caminhos de alcatrão e auto-estradas da informação.

O regresso esperado do Filho de Deus será inesperado. Rápido e invisível. Num ínfimo segundo[i]. Sem falhas ou erros, justo e preciso na escolha daqueles que O irão encontrar nos céus e viver eternamente com Ele. Sem possível arrependimento ou mudança de atitude para os que dormem na sua negligência espiritual[ii]. Jesus notificou a realidade da Sua vinda e explicou aquilo que O antecedia. Avisou como seria, quem ficaria e quem iria.
Os nossos olhos vêem aquilo que Mateus apenas registou[iii]. Que outros factos necessitamos mais para estarmos (ainda) mais despertos espiritualmente? O apelo emergente é o mesmo exarado por Paulo na sua primeira carta à igreja em Tessalónica[iv], ou seja, que vivamos um cristianismo autêntico, compassivo, puro, santo, pentecostal e dedicado, aguardando o Seu regresso (in)esperado.

Ana Ramalho



[i] 1 Coríntios 15:52
[ii] Mateus 24:35 a 44
[iii] Mateus 24:1 a 14
[iv] 1 Tessalonicenses 5:1 a 11


in revista Novas de Alegria, suplemento NAJovem, Setembro 2007