08 fevereiro 2012

Umbigo meu

“Umbigo meu que estás na terra, bajulado seja o teu nome; venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na escola como em casa; o telemóvel de última geração acima dos 500€ de cada operador exige agora; e perdoa os meus pais, não te fazem a vontade mal pedes roupa de marca; e não me deixes esperar na tentação; mas livra-te de não agarrar tudo o que te apetece, como e quando quiseres. Porque o 'eu' é o reino, o poder é meu, e que possas fazer tudo, sem consequências. Assim é que tem que ser!”

“Adaptei” a oração-modelo de Jesus ao Pai para nos fazer pensar. Somos uma geração que exige muito, quer tudo à sua maneira, faz “birra” se não tem isto ou aquilo, se não pode viver “o momento”, da maneira que mais lhe parece bem. Só posso exigir aos outros aquilo que exijo de mim. Infelizmente às vezes exijo mais do que dou... Era bom perguntar "Umbigo meu, umbigo meu.... haverá alguém mais egoísta do que eu?"

No geral, porque felizmente há exceções, a ideia de ouvir pessoas sábias, descobrir os princípios de vida saudáveis de Deus e aplicá-los de forma prática, é mesmo o último recurso. A maioria das vezes só nos lembramos de Deus e dos mais velhos, depois de tomarmos más decisões... e não queremos mesmo que nos digam que fizemos asneira – queremos que nos “safem” da consequência. Até temos a ousadia de dizer “eu não me arrependo de nada”, como se fossemos mais espertos que o resto do planeta.

Queremos viver numa realidade virtual, na qual somos nós o centro e tudo gira à nossa volta... mas a realidade real é que as coisas não funcionam dessa maneira.  É por causa dessa ideia, tão antiga quanto a humanidade, que estamos de costas viradas para Deus e temos o resultado de um mundo complicado – todos querem “mandar”, ninguém quer ouvir e obedecer.

Mas Deus ama-nos apesar disso (não me perguntem porquê, porque é algo que não consigo compreender totalmente). Ele deseja ser o centro da nossa vida, não porque “precise” de atenção mas porque nós precisamos de direção – MESMO!

Só quando amamos Deus totalmente, e somos transformados pela Sua Palavra, no nosso pensar, sentir e agir, vamos encontrar satisfação... e aí, mudamos a nossa oração: “Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia nos dá hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também temos perdoado aos nossos devedores; e não nos deixes entrar em tentação; mas livra-nos do mal. Porque teu é o reino e o poder, e a glória, para sempre, Amém.” (Mateus 6:9-13, versão “O Livro”)

Estou contigo!


Ana Ramalho

in revista BSteen, fevereiro 2012

Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico

03 fevereiro 2012

Sicar, confesso-me

Nunca imaginei que fosse possível, mas a verdade é que aconteceu. Tu sabias tudo acerca do meu passado e, mesmo assim, arriscaste o olhar mesquinho da sabedoria religiosamente popular, para me apresentar um futuro.
Andei à procura de saciar-me com amores e desamores... e acabei fielmente dependente daquilo que não queria. Ganhei uma coleção de aventuras amorosas, mas sentia-me a mulher menos amada do mundo.
Apostei tudo o que tinha nas tentativas de procurar contentamento nos braços fortes de um lar feliz, mas o castelo de cartas caiu mal acordei para a realidade da rejeição.
A vergonha foi a minha amiga mais próxima e mais dolorosa. A fama de má qualidade atirou-me em câmara lenta para o chão da verdade. O meu nome estava queimado, não pelo sol que me derretia a testa quando Te encontrei, mas pela fria rapidez com que me rotularam - não fosse verdade o que me fazia suportar 45º C, apenas por uma vasilha de água.
Foi por causa dessa água que nos encontrámos pela primeira vez... Uma conversa simples que me levou a fazer perguntas, algumas há muito escondias na minha busca pela felicidade.
Tu caminhaste ao meu lado, sem dar um passo, mas invadindo o meu coração com toda a delicadeza do Teu amor incrível, poderoso, puro e misericordioso. Eu bebi as Tuas palavras com atenção e espanto. Mostraste que me conhecias antes mesmo daquele diálogo e, mesmo assim, não me trataste com o desprezo que sentia quando passava nas ruas de Sicar.
Não eras um homem qualquer, mas O Escolhido de Deus para me dar uma nova vida, muito além daquela que alguma vez imaginei – a mim e a todos os que a desejam.
A água que deixei no poço não se compara às fontes de água viva que trouxeste para a sequidão desértica da minha história. A vida que abandonei aos Teus pés foi enterrada junto ao poço, com todos os meus pecados do passado. És o Médico dos médicos, que limpa e sara as minhas feridas, o desgaste dos meus erros, as mazelas dos outros no meu coração. A Tua vida deu-me esperança. Caiu a vergonha porque me aceitas, não para que fique cansada com tudo o que sobrecarregava ao meu encargo e responsabilidade, mas para correr mais longe – e ser uma nova criatura que cresce com e para Deus.
E assim, correu a tinta pelos séculos acerca de mim, nas palavras de um dos Teus:
“A mulher deixou o balde junto ao poço e, voltando para a aldeia, disse a toda a gente: Venham ver um homem que me disse tudo o que eu fiz! Não será ele o Messias? Então o povo veio a correr da localidade para o ver.
Muitos dos habitantes daquela terra samaritana creram em Jesus, levados por aquilo que a mulher afirmara: Disse-me tudo o que fiz! Os que foram vê-lo junto ao poço pediram-lhe que ficasse na sua aldeia, e Jesus assim fez durante dois dias, o suficiente para que muitos outros cressem depois de o ouvirem.
Então disseram à mulher: Agora acreditamos porque nós próprios o ouvimos e não apenas pelo que nos contaste. É, de facto, o Salvador do mundo.” (João 4:28-31; 39-42, versão “O Livro”)
O meu caso era tão perdido quanto a areia depois de um tornado arrasador, mas Tu salvaste o meu mundo. E salvas quem quiser que o faças...


Ana Ramalho Rosa

in revista Novas de Alegria, fevereiro 2012

Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico