03 setembro 2010

“Está tudo bem, senhor Doutor!”

Entrou no consultório com um sorriso de orelha a orelha. Roupa impecável. Olhar comprometido. Gracejar estudado, mas pouco convincente, como se estivesse a querer apenas fazer tempo e sair dali depressa. 

Depois de uma breve conversa, observei aquele paciente com todo o cuidado. Exames, análises e histórico clínico vistos ao pormenor ditaram o diagnóstico sincero: “Está com um problema cardíaco e parece grave. Precisa de ir ao cardiologista com urgência”

“Problema? Eu? Não...” – disse. “Mas não sente uma dor no peito? Não tem problemas respiratórios frequentes?” – perguntei. A resposta foi desconcertante: “Isso não é grave. Não tive nenhum ataque cardíaco.” Ainda sem acreditar no que ouvia, reformulei: “Mas se os seus exames apontam para um problema no coração... já pensou que pode estar a por em perigo a sua vida?” E o discurso não mudou: “Não... Comigo? Nunca! Está tudo bem, senhor Doutor!”

O pior doente é aquele que, mesmo a morrer, nega o diagnóstico. Prefere apodrecer na sua teimosia a enfrentar o bloco operatório, a dieta, a medicação... e pior do que isto, é quando o médico é Deus e a doença são os nossos pecados.

O Médico dos Médicos, que cura o corpo, quer antes de tudo curar a alma de cada homem, de cada mulher. Deus conhece-nos profundamente. Afinal, Ele criou-nos e sabe que estilo de vida moral, físico e psicológico é mais saudável para nós.

Quando entramos no Seu consultório, tenhamos o bom senso de escutar o Seu diagnóstico, fazer a dieta necessária, tomar a medicação correcta. Há problemas que só Ele consegue resolver com o toque cirúrgico da Sua Palavra, que mesmo quando nos fere é para operar mudança e crescimento, para nos aperfeiçoar em amor.

Se desejamos viver à nossa maneira e rasgamos na prática a receita médica, evitando aplicar à nossa vida a Palavra de Deus, achamo-nos acima de tudo e de todos, perfeitamente intocáveis, como se fossemos detentores de toda a verdade. Qual será o nosso destino? 

Caminhamos para a decadência ao fazermos uma auto-medicação moral e espiritual ajustada às nossas conveniências, ou permitimos que o diagnóstico amoroso de Deus nos confronte para nos dar vida? 

Ao pensar no tema, um jovem universitário afirmou “Assumir a doença é o mesmo que dizer que precisamos de ajuda.... Numa sociedade auto-suficiente a dependência é impensável!” (Eliézer Correia). O facto é que esta independência é tão ou mais perigosa que renegarmos a ajuda dos médicos, quando o problema é a nossa saúde. Precisamos dos outros. Precisamos de Deus.

Em vez de vivermos orgulhosamente sós, numa falsa independência, numa concretização efémera, entretidos com a sedução do erro camuflado, talvez tenhamos que nos render e arrepender de estarmos a levar um estilo de vida que renega o plano de saúde total de Deus para o homem.

O arrependimento é um acto de coragem num mundo que se esmera por viver ilusoriamente emancipado. É mudar de direcção assumidamente e estabelecer um compromisso de seguir Cristo, aconteça o que acontecer. 

“Mas Jesus, que os ouvira, respondeu: Porque não são os que têm saúde que precisam de médico, são os doentes. Têm de aprender o que significa esta passagem das Escrituras: Mais do que os vossos sacrifícios, quero provas da vossa bondade. Eu vim a este mundo para chamar os pecadores para que se voltem para Deus. Não vim para os que já se consideram a si próprios bons.” (Mateus 9:12-13, versão “O Livro”)

Ana Ramalho


in revista Novas de Alegria, Setembro 2010

01 setembro 2010

“Galinha motiva tiro na mulher”

“‘Ele ficou bravo por causa de uma galinha que faltou na capoeira e atirou para me matar’, descreve Alice Lopes, de 54 anos, baleada pelo ex-marido.”

Já paraste de rir? A mim deu-me mais vontade de chorar! Por causa dum problema tão pequeno, chegou a haver tiros?! Se calhar não era a primeira situação em que se chateavam... mas dai até passar à violência, vai uma grande distância.

Gostava de dizer que nunca fiz “uma tempestade num copo de água”... mas estaria a mentir. Nunca dei um tiro em ninguém, literalmente, mas se calhar fiz isso na minha imaginação (e eu tenho uma imaginação muito fértil).

Foi o teu pai que não prestou atenção à tua pergunta. A tua melhor amiga que se esqueceu do teu aniversário. O teu namorado que passou por ti, mas não reparou no penteado novo... enfim! Pequenas coisas que ficam gigantes não sabemos bem porquê. Os pensamentos vão-se multiplicando, fazemos um filme e entretanto já temos mil e uma razões para detestar a pessoa.

Jesus falou disso quando esteve entre nós. “As leis de Moisés tinham por regra: Não matarás. E se cometeres assassínio serás sujeito a julgamento. Mas agora digo-vos que basta o sentimento da ira contra alguém para se cair sob julgamento!” (Mateus 5:21, versão “O Livro”)

Não precisamos chegar a dizer ou fazer algo contra alguém... basta pensarmos. Aí, já estamos a errar, porque tudo o que fazemos e dizemos começa na nossa mente, nos nossos pensamentos. Se não cuidarmos do nosso coração e da nossa cabecinha, quem perde somos nós. Perdemos tempo a magicar coisas erradas, em vez das colocarmos nas mãos de Deus.

Sabes o que eu deveria fazer sempre, em todas as situações em que me sinto magoada? Falar com o Pai acerca delas e dar tempo ao tempo. Este é o desafio: se tens algumas “galinhas” que te estão a fazer pensar mal de alguém, entrega isso a Deus.

“Pai, perdoa-me quando deixo que os maus pensamentos cresçam no meu coração. Ajuda-me a ter um coração puro e a confiar que Tu cuidas de mim... Assim seja!”

Estou contigo!


Ana Ramalho



1adaptado de www.cmjornal.xl.pt

in revista BSteen, Setembro 2010