25 setembro 2009

Para quê?

É hoje uma das notícias do Jornal de Negócios:

Mais de metade da população adulta no nosso País admite não falar outra língua além do português. Os dados são do Eurostat e colocam Portugal como o segundo membro da UE onde há mais pessoas que não falam línguas estrangeiras.

"Saber uma língua estrangeira para quê?" Perguntam alguns... Não sou perita em fenómenos sociais, mas uma análise superficial faz-me acreditar que sim, é importante. Se o nosso país se quer desenvolver e crescer, especialmente nas relações políticas e comerciais com países estrangeiros, é conveniente que nos entendamos uns aos outros... A língua ajuda a estabelecer comunicação e a criar laços, partilha, progresso, mudança...

Mas este tema levou-me a pensar noutro aspecto: a linguagem que nós cristãos usamos. Sejamos honestos e façamos o teste: se uma pessoa entrar pela primeira vez nalgum tipo de reunião ou celebração, será que conseguimos estabelecer uma comunicação relevante com ela ou é necessário a ajuda de um dicionário para nos entender?
Será que ao falarmos de assuntos religiosos mudamos de português para "espiritualês"? Estamos nós a esforçarmo-nos por, como Jesus, transmitir a mensagem numa linguagem contextualizada ou dizemos "Para quê?".

Desculpem o desabafo, mas a vida confortável que muitas vezes temos "dentro do saleiro" pode-nos levar a esquecer que os outros precisam ser alcançados, e que isso exige que cada um fale e seja compreendido. Traduzir a mensagem não significa seculariza-la ou "desbotar" a cor do pecado, simplesmente é dizer a mesma coisa de uma forma diferente.

Sim, a Palavra de Deus é poderosa. Sim, é o Senhor que dá o crescimento. Sim, é o Espírito Santo que convence. Sim, devemos falar a Palavra em amor. MAS os canais, os veículos, as ferramentas de Deus somos nós... temos a nossa parte, a nossa responsabilidade. Exige pensar? Sim! Exige olhar para fora da nossa zona de conforto? Sim! Exige estar próximo das pessoas, conhecê-las para poder transmitir a verdade? Sim! Exige mais disciplina espiritual e intimidade com o Pai? Sem dúvida...

Com tudo isto, espero que me tenham compreendido...

"Prefiro cinco palavras compreensíveis a dez mil numa língua estranha"
Paulo, patrono do Twitter

17 setembro 2009

Regressos

Nos placards, regresso às aulas. Nas conversas de café, regresso ao trabalho. Voltar. Retornar. Retomar. Regressar.

Podemos estar confortáveis e não desejar abandonar a situação em que nos encontramos. Foi pouco tempo ou deu para ficar com alguns hábitos enraizados, mas as circunstâncias, as obrigações, o dever, leva-nos a regressar. Talvez com algo novo na bagagem. Com alguma tristeza e saudade.

Há regressos que não custam, quando a fase ou o meio em que estamos nos perturba, ou nos entristece... são retornos desejados, ambicionados, sonhados até. Também voltamos diferentes. Com novas experiências para partilhar. Às vezes com cicatrizes para mostrar.

A vida leva-nos a retornar aos braços do Pai, quando desejamos. Podemos contar-Lhe como custa regressar ou como voltamos cansados do que vivemos.

Deus não tem regressos... ele está lá para nos acolher, a toda a hora, todos os dias!

"Por isso não devemos ser como escravos medrosos e servis, mas devemos comportarmo-nos como verdadeiros filhos de Deus, recebidos no seio da sua família e chamando-lhe realmente querido Pai."
(Romanos 8:15, versão "O Livro")

Foto: © John Perivolaris - Flickr


04 setembro 2009

Em frente...

O Pai deixou-nos sair de casa, com a nossa parte da herança, numa atitude semelhante à notícia da fase terminal no consultório... como se disséssemos "preferia que estivesses morto".

Rebeldia? Desamor? Infidelidade? Tentação? Revolta? Apatia? Saímos, para longe. Longe do Pai. Primeiro longe do coração, depois da vista e, finalmente, da Sua presença e protecção.

Agora, o regresso a casa pode ser uma decisão difícil quando esbanjámos o tempo, a vida, num movimento de independência não circunscrita.

Não precisamos esperar estar mergulhados na lama, tendo por companhia os porcos, a nossa fome desesperada e o coração pisado pelo caminho que tomámos.

Ainda que hoje nos possamos ver ao espelho como autênticos heróis que serão capazes de sair do fundo do poço, tenhamos a consciência de que a nossa condição, ao nos afastarmos do Pai, nos levou a hipotecar o Seu propósito para a nossa vida... mas há esperança!

Mudar de rumo é uma hipótese que, ou consideramos agora ou podemos vir a ter que admiti-la quando a nossa (falta de) dignidade nos deixar no desespero. O nosso pecado, por mais maquilhagem que tenhamos carregado na nossa consciência, está lá. E quando permanece, espalha-se como uma praga, nas motivações e atitudes que tomamos. Como um abismo que chama outro abismo. Precisamos parar e mudar. "(...) por fim, caiu em si" (Lucas 15: 17)

Não precisamos dar uma queda de tal modo que, depois de estarmos inutilizados, finalmente cheguemos à conclusão que errámos e passámos de iludidos a conquistados, de escravos a desgraçados, pelas nossas próprias decisões. Deus tem muito melhor para nós.

"Pôs-se então a caminho de casa. E ainda vinha longe, seu pai, vendo-o aproximar-se, e cheio de terna compaixão, correu ao seu encontro, abraçando-o e beijando-o. O filho disse-lhe: 'Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já nem mereço ser chamado teu filho.' " (Lucas 15:20-21, versão "O Livro")

Arrependimento, perdão, restauração, recomeço... tudo está nas nossas mãos. O Pai espera-nos. Ele anseia pelo nosso regresso... Trocar a lama pela dignidade, a escravatura pela filiação, a nossa independência pela Sua protecção, a pocilga pela casa, o destino dos porcos pelo carinho do Pai.

Assumir um erro é abrir a porta ao perdão. Agir em arrependimento é aceitar a oportunidade de um recomeço. As feridas podem transformar-se em cicatrizes. Os erros em professores. O tempo no bem mais precioso que temos para conhecer o Pai que abandonámos mas que nos recebeu de novo como filhos.

Em frente... mas primeiro, recomeça!



03 setembro 2009

"Jesus já trabalha e não quer férias"


O título "criativo" de uma notícia desportiva abre o assunto deste artigo: "Jesus já trabalha e não quer férias"1.
Se Jesus, o treinador que propõe "salvar" um clube de futebol, está a trabalhar, que diremos de Jesus Cristo, o salvador do mundo? No Evangelho segundo João, após ter curado um paralítico, Jesus confronta os Seus ouvintes com essa realidade.
"Mas Jesus respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também. (...) Jesus acrescentou: O Filho nada pode fazer por si só. Faz unicamente o que vê o Pai fazer, e do mesmo modo. Pois o Pai ama o Filho e diz-lhe tudo o que faz; e o Filho realizará obras maiores do que a cura deste homem, de forma que hão-de ficar maravilhados. Tal como o Pai ressuscita os mortos e os vivifica, assim também o Filho dará a vida a quem ele entender." (João 5:17, 19-21; versão "O Livro")
Jesus veio com um propósito claro e foi para alcançá-lo que Ele trabalhou. Aquela cura era apenas o "aperitivo". A nossa redenção (o pagamento da dívida do pecado), a nossa regeneração (transformação numa nova vida), a nossa adopção (tornarmo-nos filhos de Deus), era o alvo maior, a obra maior que Ele queria e quer realizar.
A vida de Cristo é a expressão prática de um Deus que "trabalha para aqueles que nele esperam" (Isaías 64:4b). Paulo descreve na sua carta aos cristãos de Éfeso o trabalho da Trindade na nossa salvação. O Pai projectou a nossa salvação (Cap. 1:3-6); o Filho executou (Cap. 1:7-12); o Espírito Santo confirma essa salvação (Cap. 1:13-14).
Deus não está estatelado no Seu trono à espera simplesmente de ser adorado pelos anjos e pelos homens... Deus trabalhou, trabalha e irá continuar a trabalhar.
Primeiro, Ele trabalhou para nos criar. Somos obra dos Seus dedos. Ele fez-nos deste modo maravilhoso, diz David no Salmo 139. Criou-nos para nos relacionarmos com Ele. Somos ideia de Deus. Se existimos é porque Ele assim o desejou.
Depois, Ele trabalhou para restaurar a nossa relação destruída e distorcida pelo pecado. Trabalhou em prol da salvação de cada homem e mulher que Ele ama profundamente, de um modo incompreensível.
A cruz foi o consumar dessa obra. Abriu-se a porta para que todos possam, sem fazer nada para o merecer, receber as bênçãos do Céu, uma qualidade de vida eterna que experimentamos agora e que iremos desfrutar em quantidade ilimitada pela eternidade.
Este "trabalho" não é resultado de uma obrigação, mas é a expressão prática da Sua graça. Por minha causa. Por tua causa.
Sinto-me amada por Deus. Ele não trabalhou porque "tinha que" pagar as contas do meu pecado. Ele fê-lo por amor. Porque deseja ter comunhão connosco. Ele deu o primeiro (grande) passo para restabelecer essa relação. A cada dia preciso relembrar que Ele me ama e que o que vivo agora, por melhor ou pior que seja aos meus olhos, é apenas um esboço imperfeito daquilo que Ele tem para mim... mais do que "coisas", um relacionamento eterno.
"E que os vossos entendimentos sejam iluminados para poderem ter uma ideia nítida dessa esperança que ele vos chamou a ter, e para perceberem a extensão gloriosa de tudo aquilo que está reservado para aqueles que são seus filhos." (Efésios 1:18, versão "O Livro").

Ana Ramalho


1http://www.abola.pt/nnh/ver.aspx?id=167277&rss=1

in revista Novas de Alegria, Setembro 2009