08 junho 2011

Ai, como dói!*

Ir ao dentista nunca foi o meu desporto favorito. Não troco o meu sofá (eu pratico sofásport) pela cadeira que a minha médica dentista me oferece cada vez que lá vou.

Há pouco tempo parti dois dos meus belos dentes, comecei a ter dores e lá fui eu visitar a minha dentista. Podes ter a certeza que se não fosse a dor que comecei a sentir provavelmente iria ficar longe daquele consultório uns longos meses... e a situação dos dentes iria piorar.

É verdade que a dor não tem piada nenhuma – e quem já teve dores de dentes sabe bem do que estou a falar – mas é um alerta, um alarme natural do nosso corpo, que diz “Está alguma coisa mal! Vai ao médico!”

Eu tenho uma espécie de “dor no coração” quando faço algo que não está certo... Quando, por exemplo, respondo mal a alguém, fico com ciúmes de outra pessoa ou começo a substituir o tempo que devia dedicar a Deus por outras coisas menos importantes. Acende uma luz vermelha interior que me diz “Ana Ramalho, tens que resolver isso!”.

Quanto mais tarde eu parar para falar com Deus sobre o meu problema, pior vai estar a minha saúde espiritual. Aquela resposta errada vai seguir-se de 300 desculpas que dou para justificar a minha atitude. A ciumeira por aquele amigo ter mais reconhecimento do que eu vai levar-me a fazer a lista das 100 razões para dizer que sou melhor do que ele. A minha preguiça vai aumentando e vou-me “esquecendo” da importância de estar perto de Deus – e a minha vida é um espelho disso mesmo.

Deus sabe que falhamos e quer-nos ajudar a seguir em frente, mas Ele espera que, como bons alunos da escola da vida, possamos dizer-Lhe “Pai, perdoa-me! Eu sei que o que fiz não é bom para mim.”

O primeiro passo é mesmo reconhecer que estamos errados, assumir que precisamos da ajuda de Deus, mas Ele quer-nos levar mais longe. Ele quer-nos ajudar a mudar as nossas áreas mais frágeis – aquelas em que temos tendência para falhar. É um processo que envolve a meditação na nossa vida e na Sua Palavra, as conversas que vamos tendo com Ele em oração e o auxílio dos nossos manos e manas, que nos podem ajudar a pensar, que nos suportam com as suas orações [Importante: procura pessoas que tenham bom testemunho e uma intimidade saudável com Deus].

“E tenho a certeza de que Deus, que começou essa boa obra na vossa vida, vai completá-la até ao momento em que Jesus Cristo voltar.” (Filipenses 1:6)

Estou contigo!

Ana Ramalho



* em homenagem à minha dentista!

in revista BSteen, Junho 2011

02 junho 2011

Soluços e solavancos de um retornado

Esbarrei na lama e caí, de cara inteira no chão imundo, de plena vontade, sem um só empurrão. Fiz a minha cama, limitadamente saborosa e  indiscutivelmente assassina da verdadeira liberdade, e nela me deitei, à procura daquilo que tive mas deixei atrás da porta do quarto fechado do meu coração.
Esvaí-me em prazer pelo prazer, em saltos para fazer crescer a minha “auto-estima”, dancei ao ritmo de uma revolta que expelia ódio, mágoa e terror dos meus outros dias – os dias da segurança e da (a)liberdade aparente. Os dias de barriga cheia, cama e roupa lavada que troquei pela minha vontade. Tudo isto seria evitável mas eu não me evitei.
Passei a soluçar-me do meu destino auto-decidido, a contorcer-me nas minha mágoas e loucuras, a regredir no tempo sem passar do espaço que tenho, entre suínos ensurdecedores e bolotas de acusação que me ferem a consciência e me lembram da minha podridão.
Trago nos braços nada. Trago no coração tudo. Tudo o que vivi nesta minha vaga de fúria infeliz, a pensar que encontraria felicidade alheia às paisagens sossegadas que se me apresentaram antes de tudo isto. Trago todas as marcas, o medo, a vergonha, a frustração, o orgulho, a humilhação, a agonia do resultado das escolhas míopes que fiz. É esta a soma ignóbil que depositarei aos pés de quem me quiser quando regressar.
E fui. Fiz-me ao caminho a tremer de medo, enquanto imagino a vergonha que passarei perante os outros. Do tesouro que derreti sem dó nem piedade, resto eu – nada mais. Dos sonhos que esbanjei à boca cheia quando bati com a porta, restam roupas embebidas em esterco – apenas isso. Dos amigos que tinha quando era o maior do reino na independência, resta a solidão – só.
É assim que me apresento. É assim que sigo. O estômago desocupado explora um andar aos solavancos, desorientado, desequilibrado. A mente viaja no momento do confronto, do desaire, da sentença. A decisão é pagar. Pagar pelo que voou porque não se pode andar para trás no tempo. É baixar a cabeça nos sarcasmos dos que ficaram, e suportar a afronta dos que me trouxeram ao mundo. Bati muito fundo. Parti a louça toda, e agora o que trago são os cacos do meu coração. O mealheiro partido de todas as minhas seguranças, de todas as minha posses, de todas as minhas possibilidades.
“E ainda vinha longe, seu pai, vendo-o aproximar-se, e cheio de terna compaixão, correu ao seu encontro, abraçando-o e beijando-o. O filho disse-lhe: 'Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já nem mereço ser chamado teu filho.' Mas o pai disse aos criados: 'Depressa, tragam o manto melhor que houver em casa e vistam-lho; e ponham-lhe um anel no dedo e calçado novo! Matem o bezerro que estamos a engordar; porque vai haver grande festa, pois este meu filho estava como morto e voltou à vida; estava perdido e tornou a ser achado.' Com isto começou o banquete.” (Lucas 15:20-21 – Versão “O Livro”)


Ana Ramalho Rosa

in revista Novas de Alegria, Junho 2011