10 março 2014

Só, sozinho e a solo?

A solidão é uma coisa complicada. Mesmo passando por ela, nem sempre admitimos que nos sentimos sós e tristes.

Cada vez mais a nossa sociedade dá-nos os meios para sermos independentes, para não precisarmos de ninguém, para nos safarmos bem sozinhos. Mas como diria um pensador “nenhum homem é uma ilha isolada”...

Este é um dos males que atacam o mundo hoje em dia. A solidão mata-nos devagar e é silenciosa, vira-nos do avesso e nem damos por isso. Começa com um passo pequeno de achar que não precisamos de ninguém, para terminar num isolamento total que nos leva a afastarmo-nos de Deus. O isolamento leva a uma sensação falsa de independência, que acaba por se transformar em tristeza e em depressão. E infelizmente, cada vez mais adolescentes sofrem dessas depressões e de tudo o que está associado a elas: alimentam-se mal, maltratam-se pessoalmente, desenvolvem mais problemas mentais... Um terror!

E isso não é o que Ele tem para nós! Deus não nos projetou para viver em terror ou medo! Quando Deus criou o Homem, fê-lo de modo a que pudéssemos viver em comunidade (1ª Coríntios 12:12), em união (Salmo 133:1) e em amor (Romanos 12:10). Ele não quer que vivamos isolados. Não quer que vivamos tristes (apesar de todos passarmos por momentos difíceis).

Esquece a cena do herói solitário, do “não preciso de ninguém”. Não vivemos dentro de uma bolha e Jesus deu a Sua vida para vivermos como um só corpo. Todos nós somos importantes, todos nós somos amados de igual modo por Ele. Todos nós fomos pagos com o sangue de Jesus!

Se te sentes triste, isolado ou só; não fiques assim. Procura ajuda! Fala com os teus pais, com um professor, com alguém mais velho em quem possas confiar... O amor de Deus por ti vale a vida de Jesus!

E como parte do corpo, também estou aqui!

Ricardo Rosa



in revista BSteen, março 2014


Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico

05 março 2014

A bata azul

Ao palmilhar o espaço comercial submerso pela multidão, cruzo-me com ela – uma mulher de bata, de olhar cabisbaixo, apoiada na companheira daquelas horas de trabalho, uma esfregona.
Mãe solteira aos 16 anos, deixou-se desiludir pelo amor e decidiu seguir em frente, mas voltou a entregar-se em busca de um amor que não encontrou e viu-se com duas crianças nos braços, ainda não tinha feito 21 anos.
Ajeita a sua bata azul, já manchada pela labuta do seu dia, e segue para o corredor até à outra casa de banho. Ela espera pela sua vez de entrar e limpar o que os outros sujaram. A multidão que se cruza ignora-a de todo, excepto se estiver a impedir-lhe o caminho. Na sua face a expressão de uma certa angústia e melancolia pela poluição emocional que lhe arrasta o coração de casa para o emprego, do emprego para casa, à boleia da má fama do bairro em que sobrevive.
A sua vida, como a sua bata, há muito abandonou o estado original. A esperança ficou pelo caminho. A mancha dos seus erros espantou-lhe a alegria. As mágoas alheias estragaram-lhe a autenticidade.
Enquanto a vejo, lembro-me de tantas pessoas que conheço. De tantos casos rotulados como perdidos, que foram achados e restaurados por Deus. E lembro-me também da nossa insensibilidade quando estamos aqui e ali, fora das quatro paredes do Templo... “Jesus propôs mais outra parábola para alguns que se julgavam pessoas muito justas e desprezavam os outros: ‘Dois homens foram ao templo para orar. Um deles era fariseu e o outro cobrador de impostos. O fariseu, altivo, orava assim: «Ó Deus, agradeço-te porque não sou como os outros, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este cobrador de impostos que ali está. Jejuo duas vezes na semana e dou a décima parte de tudo o que ganho.» Mas o cobrador de impostos ficou à distância e nem sequer se atrevia a levantar os olhos para o céu; apenas batia com a mão no peito e dizia: «Ó meu Deus, tem compaixão de mim, que sou pecador!»’ E Jesus concluiu: ‘Afirmo-vos que o cobrador de impostos foi para sua casa justificado aos olhos de Deus, ao contrário do fariseu. Pois todo aquele que se engrandece será humilhado e todo o que se humilha será engrandecido’.” (Lucas 18:9-14, BPT).
Quando olhamos para o lado, fingimos que não vemos ou nos “congratulamos” por sermos “melhores”, como se o fossemos por mérito próprio e como se isso nos desse o direito de nos sentirmos superiores. Mas Jesus explicou: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ora eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.” (Marcos 2:17, BPT)
Jesus veio para aqueles que admitem a sua necessidade, a sua mancha, o seu pecado e más decisões. É essa atitude, de humildade e renúncia, o pano de fundo para uma entrega total a Cristo e para que Ele nos torne em novas pessoas, nos limpe e transforme, dia a dia, e outros reconheçam aquilo que Ele é e faz, pela Sua imensa graça, em nós.
O Seu convite continua de pé. “Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso. Aceitem o meu jugo e aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração. Assim o vosso coração encontrará descanso, pois o meu jugo é agradável e os meus fardos são leves.” (Mateus 11:28-30, BPT)


Ana Ramalho Rosa

in revista Novas de Alegria, março 2014


Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico

03 março 2014

O chorão que não era piegas

Neemias, um judeu que como muitos outros tinha sido retirado da sua terra Natal pelos babilónios que conquistaram a nação de Israel, era o copeiro do rei Artaxerxes, da Babilónia.

O seu irmão e alguns homens chegavam de uma viagem a Jerusalém, com notícias preocupantes. “ ‘Esses que ficaram na pátria e não foram para o cativeiro encontram-se em grandes dificuldades e em grande miséria. Quanto a Jerusalém, as muralhas continuam em ruínas e as portas ainda destruídas pelo fogo.’ Ao ouvir isto, sentei-me a chorar e, durante vários dias, andei muito triste, fiz jejum e dirigi a minha oração ao Deus do céu.” (Neemias 1:3, 4, BPT)

O rei Artaxerxes notou a tristeza de Neemias e perguntou-lhe o que se passava. O que fez Neemias, um homem que servia todos os dias o Rei do Império Babilónio, que vivia num palácio, com todos os confortos? Calou-se? Arranjou uma desculpa? Não! “Eu, com bastante receio, respondi-lhe: ‘Que Sua Majestade viva para sempre! Como não hei de eu andar triste, se a cidade onde estão os túmulos dos meus antepassados está em ruínas e as portas das muralhas destruídas pelo fogo?’ Perguntou-me o rei: ‘Que queres tu que eu te faça?’ Então eu, elevando a minha prece ao céu, respondi-lhe: ‘Se parecer bem a Sua Majestade e se eu estou nas suas boas graças, permita-me que eu possa ir à província de Judá, à cidade onde estão sepultados os meus antepassados, para que eu a reconstrua’.” (Neemias 2:2b-5, BPT)

Neemias não ficou a lamentar-se, mas orou a Deus em busca de uma solução, reconhecendo que o povo estava a sofrer as consequências de décadas de desobediência, de vidas independentes de Deus, mas pedindo-Lhe a Sua misericórdia e ajuda. Não apenas chorou e orou – ele agiu quando teve uma oportunidade.

Muitas vezes somos muito “piegas”. Só nos queixamos e choramos porque isto ou aquilo nos acontece. Mas quantos de nós oramos a Deus pelos outros e as suas lutas com a mesma intensidade que oramos pelas nossas? E quantos de nós estão prontos a fazer algo pelos que nos rodeiam?

Neemias é um exemplo de alguém que teve compaixão pelos outros, orou em favor deles e agiu para bem deles. Que nós possamos seguir o seu bom exemplo. 

Estou contigo!

Ana Ramalho Rosa

in revista BSteen, março 2014

Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico