09 agosto 2008

Eu e a Amy Winehouse

Nem só de talento viverá o homem

Um grande talento da música inglesa, Amy Winehouse, chegou atrasada, quase sem voz, embriagada e actuou perante quase 100.000 portugueses.

Como noticiou a RTP no seu site “Ao longo da actuação, a cantora esqueceu-se das letras, improvisou, tentou tocar guitarra, dançou e quase caiu, comeu, bebeu e chorou (...) Exibia (...) um hematoma no pescoço e a mão direita envolta numa ligadura, que a impedia de pegar no microfone.”

Não sei o que achas da situação. Talvez digas que é injusto alguém pagar um bilhete para depois o artista não cumprir o prometido. Ou aches que o concerto deveria ter sido anulado. Vi a notícia, ouvi muitos comentários e pensei “Como é que uma pessoa tão talentosa pode chegar àquele estado de decadência?”.

É FÁCIL CAIR
Para ficarmos caídos na vida, sem forças para nos levantarmos, é porque fizemos um percurso que nos deu uma falsa segurança. Fama, amigos e dinheiro dão-nos muito, incluindo a ideia de que vamos ter sempre tudo o que queremos, como e quando queremos. Dá-nos valentia suficiente para irmos enveredando nas nossas pequenas loucuras.

A par e passo, a insatisfação que nasce com cada um de nós toma conta do volante e passamos a querer mais e mais. Quando damos por nós, estamos num palco qualquer da vida, a chorar, sem sentimento de valor próprio. Marionetas daquilo que nos domina – quer seja o álcool, as drogas, o tabaco, os jogos de computador ou consola, a pornografia, o consumismo, a internet...

A GRANDE DIFERENÇA
Mas tudo isto me levou a reflectir noutra coisa “Se eu fosse uma pessoa com aquele talento e não tivesse Jesus na minha vida, até onde eu poderia ter chegado na fama... e na decadência?!”.

As escolhas que se vão fazendo ao longo desse trajecto a que chamamos vida determinam a meta que iremos alcançar. Por vezes o embrulho com que se nos apresenta a decadência é brilhante, atraente, luminoso e tão apetecível, que humanamente deveria ser agarrado com todas as forças.

A nossa tendência natural para pecar é mais forte e gosta de tudo isso. O pecado é um menino mimado que quer governar a nossa vida - Independentemente do nosso nível social, da nossa tradição religiosa, das nossas capacidades intelectuais e talentos.

Só através de uma transformação interior, que só Deus pode e quer fazer em cada ser humano, conseguimos ter a capacidade de resistir. Depois de entregarmos tudo o que somos a Jesus, e Dele fazer essa mudança, começa a nossa vida com Deus. Nesse caminho de sentido único para o Céu sabemos o que Deus deseja de nós, através da meditação na Bíblia, e pedimos-Lhe para nos ajudar para sermos mais como Ele deseja, quando falamos com Ele diariamente.

É Deus que faz a diferença, se nós abrirmos a porta do nosso coração e Lhe dermos permissão para ser o nosso governador permanente.

UMA ORAÇÃO
Oro para que a Amy Winehouse possa vir a conhecer este Jesus que eu conheço. A vida dela é tão valiosa para Deus quanto a minha e a tua vida.

Deus não deseja que vivamos como farrapos humanos. Ele criou-nos com outro objectivo. Que Cristo transforme cada um para o propósito com que nasceu: viver com Ele, por Ele e para Ele.

"Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.” (Lucas 15:7)


Artigo Publicado na Revista BSteen, Agosto 2008. www.capu.pt

08 agosto 2008

Simplicidade - O que é ser cristão?

Num mundo complexo e consumista como o nosso, nem dá para parar e pensar naquilo que é essencial, básico para a vida. 

Há pouco tempo conheci um pastor de Moçambique que relatou como ele e os colegas são capazes de andar 70 km, a pé, para ir fazer cultos às aldeias mais próximas. É um achado quando têm bicicletas ou uma motorizada emprestada para percorrer longas distâncias em estradas de terra batida, cheias de buracos, lombas e perigos. 

Não estamos a falar de uma actividade social de jovens da igreja, para passarem uma tarde agradável juntos, a passear nas suas bicicletas. São homens que, por amor a Cristo, aos seus irmãos e às pessoas que ainda não têm Jesus, percorrem essas estradas de estômago vazio mas com o coração cheio de paixão por Jesus. 

Vivemos num país bem diferente de Moçambique. Não há comparação possível... mas há! A cultura portuguesa é diferente da moçambicana, mas nós somos tão cristãos quanto os nossos manos de África.

Vamos ser honestos: temos estradas mais que suficientes, transporte próprio, mas custa-nos tanto sair do sofá para estar com os nossos irmãos, partilhar a Palavra de Deus e louvá-Lo! Porquê? 

Simplicidade, porquê?
Por vezes dou por mim a dar valor a muitos “extras”. Claro que precisamos de ter planos na igreja e actividades que alcancem pessoas para Jesus. É obvio que devemos trabalhar para fazer tudo com excelência para Ele. A questão é quando essas coisas se tornam o nosso objectivo e não um meio, uma ferramenta.

Tudo vem da base. Penso que precisamos, antes de qualquer coisa, compreender o que somos e porque fazemos as coisas. Aquilo que para nós significa ser cristão leva-nos a esperar certas coisas da igreja e do próprio Deus. O problema é que a nossa noção de cristianismo pode não ser correcta. Conceitos simples e básicos como o que é ser cristão precisam estar claros na nossa mente.

Ser cristão é ser discípulo
Quando entregamos a nossa vida a Jesus, Ele derruba o pecado que nos afasta de Deus e transforma-nos em novas pessoas. À decisão de deixar que Jesus nos transforme junta-se outra: a de sermos Seus discípulos. Isso significa que nos tornamos alunos, aprendizes, não apenas receptores mas também seguidores dos ensinos de Jesus. 

É como se o novo nascimento fosse a porta da escola prática do cristianismo, na qual o Espírito Santo nos leva a compreender e a pôr em prática os ensinos de Jesus. 

Se encaramos ser cristão como simplesmente o beneficiário de um “pacote de serviços e vantagens”, estamos redondamente enganados. Se somos discípulos, não é Jesus que nos segue a nós. Ou seja, não é Jesus que tem que fazer aquilo que nós “declaramos” ou exigimos. 

Como discípulos, vivemos simplesmente para Ele, por causa Dele e com Ele. É por isso que, quando estamos reunidos, Jesus deve ser o foco principal da nossa adoração, dos nossos testemunhos, da nossa pregação. Claro que Deus tem bênçãos e promessas para nós, mas erramos se estas são o centro da nossa vida cristã. 

Qualidades essenciais
Nas bem-aventuranças (Mateus 5:3-12) Jesus revela o carácter que todos os que O seguem devem ter. O carácter é o que somos demonstrado no que fazemos. É o nosso interior reflectido nas nossas atitudes.

São oito características essenciais para todos os Seus discípulos e não apenas para alguns mais “especiais” – tipo os pastores, os professores de Escola Dominical ou os irmãos idosos. Também não é uma “ementa” da qual escolhemos aquilo que nos apetece. Se somos discípulos de Jesus aceitamos o “pack completo”: ser mansos e bons para com os outros, humildes de espírito e limpos de coração, chorar e ter fome, procurar a paz e até sermos perseguidos. Isto fala de santidade.

Embora Jesus tenha dado esta lista de qualidades àqueles que O escutavam na altura, a santidade divina não mudou, nem com o tempo, nem com as circunstâncias. Ou seja, Deus continua a exigir de cada cristão estas mesmas características.

Ser implica fazer 
Para conseguirmos “fazer” o que está nesta lista, temos que “ser”. Como vimos antes, somos transformados em novas pessoas. Tudo o que Jesus pede aos Seus discípulos é visível por actos e palavras, mas parte do interior.

Sermos discípulos implica proximidade do nosso professor e amigo Jesus. Ainda não estamos no Céu e há uma luta interior da nossa tendência natural para pecar com a nossa nova natureza dada por Jesus. Precisamos alimentar-nos da Palavra de Deus, buscando continuamente a intimidade com Ele através da oração, louvor e renovação no Espírito para permanecermos firmes. Mais uma vez, é na Sua dependência que conseguimos. 

Paulo fala disto aos cristãos de Éfeso: “Vocês foram ensinados, quanto à forma de vida que levavam anteriormente, que se devem desfazer dessa velha natureza que vai apodrecendo na sua própria imoralidade, nas suas ilusões. E que o vosso entendimento se renove nas atitudes a tomar na vida. Devem revestir-se do novo homem que é criado por Deus e que se manifesta na verdadeira justiça e na santidade.” (Efésios 4:22 a 24 – Versão “O Livro”).

A verdadeira felicidade
Bem-aventurado significa feliz. Jesus promete que quem tem aqueles oito “condimentos” na sua vida, é feliz. Reparem que Jesus não disse que nos vamos sentir felizes. Os sentimentos são variáveis e incertos. Mas, como pessoas nascidas de novo que buscam a Deus continuamente, somos felizes. Essa felicidade é uma atitude consequente da nossa obediência. 
Deus sabe como funcionamos, pois é o nosso Criador. Como alguém disse, é pela obediência às leis morais de Deus (mandamentos) que nos realizamos e encontramos verdadeiramente. Ou seja, somos mais humanos (mais felizes!) quando fazemos a vontade de Deus.
Assim como aquelas oito características são o “perfil do cristão ideal”, assim também as oito bênçãos são parte de um só “pacote” (ser cidadão do reino dos Céus, receber consolo, herdar a terra, ter fartura de justiça, alcançar misericórdia, ver a Deus, etc). São oito responsabilidades e oito privilégios para todos os que decidem ser discípulos, governados inteiramente por Deus.

Uma mudança 
Ser cristão, como vimos, é ser um seguidor diário e permanente de Jesus – da Sua Palavra e do Seu exemplo. Só nos conseguimos tornar e permanecer discípulos se cultivarmos a nossa relação com Ele.
O verdadeiro cristianismo não está baseado nas circunstâncias, nas comodidades ou gostos pessoais. O verdadeiro cristianismo depende, sempre e em primeiro lugar, de Deus e da Sua vontade. Se conseguirmos interiorizar esta verdade, a nossa vida com Deus e com os nossos irmãos mudará. 
Quantas vezes procuramos que a igreja simplesmente satisfaça os nossos desejos, tipo génio da lâmpada? Ou vou a Jesus na expectativa daquilo que Ele me dá? Ou na exigência de que os outros me façam sentir bem, com aquilo que cantam ou pregam? Sou consumista de igreja ou um discípulo incondicional?
“Jesus, pois, vendo as multidões, subiu ao monte; e, tendo se assentado, aproximaram-se os seus discípulos, e ele se pôs a ensiná-los.” (Mateus 5:1 e 2 ) 
Muda-me, Jesus. Que eu seja, antes de tudo, simplesmente discípulo.

Ana Ramalho

in revista BSteen, Agosto 2008

Fontes consultadas
Contracultura Cristã - A mensagem do Sermão do Monte, John Stott, ABU; Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis, Martins Fontes; Estudo no Sermão do Monte, Martyn Lloyd-Jones, Editora Fiel


01 agosto 2008

Cansados da vida?

No início de Junho um movimentado bairro de Tóquio foi abalado por um massacre aterrorizante.

Tomohiro Kati, um jovem de 25 anos, atropelou e apunhalou várias pessoas. Do massacre resultaram sete mortos e dez feridos, porque, segundo a polícia de Tóquio, o suspeito estava "cansado de viver e farto de tudo".

Embora o Japão tenha uma taxa de criminalidade muito baixa, tornando-o um dos países mais seguros do mundo, nos últimos anos têm surgido vários casos de violência indiscriminada. Segundo o jornal Diário de Notícias, estes factos “parecem reflectir os problemas da juventude nipónica, que recusa seguir os pais numa vida em que o trabalho é tudo, mas que não tem outras saídas. Uma geração em que as taxas de suicídio são preocupantes.”1

Cansaço global
Em tempo de caos e confusão, o cansaço chega a todos. Depressão infantil, suicídio juvenil e delinquência, entre outros. A insegurança na família, provocada pelos pais ausentes ou separados cria uma instabilidade familiar que contribui para abortar a esperança de um futuro risonho nos mais novos.

A vida é gasta pelo corrupio de coisas e sensações que procuramos no meio de copos, pós, quartos, noites e um crescente de malabarismos físicos, que nos abandonam a sentimentos de culpa.

As notícias deprimem-nos. As idas ao Multibanco causam um nó no estômago. O fim do contrato de trabalho instala as insónias. A pressão das taxas de juro aumenta, e reduz a dispensa.

Pagamos hoje a factura de esquemas sociais que semeámos no passado, anexado ao egoísmo global. A conta pesada inclui muitos “produtos”. Entre eles, o cansaço geral que se aproxima do berço, abraça o estudante, consome os adultos e deprime os idosos.

Verdadeiro descanso
Precisamos de um descanso que vá para além das circunstâncias. O alívio que procuramos é saciar a fome interior por viver em pleno, sem culpas às costas e conscientes de que estamos no trilho certo.

Olhas para o lado e cansas-te. Olhas para dentro e choras. Olhas para cima e descobres um rasgo de luz. Uma semente de esperança que precisas plantar dentro de ti.

Tudo o que procuras está nas palavras de Jesus Venham a mim todos os que estão cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. Levem o meu jugo e aprendam de mim, porque sou brando e humilde, e acharão descanso para as vossas almas; pois só vos imponho cargas suaves e leves.” (Mateus 11:28-30, Versão “O Livro”).

Ele pode, fica descansado!

Ana Ramalho


Fontes: Diário de Notícias, bebe.sapo.pt



1 Diário de Notícias, Edição de Lisboa, 9 de Junho de 2008

in revista Novas de Alegria, Agosto 2008