19 julho 2012

“E isto não é uma promoção...”

A euforia foi extrema, gerou o caos no momento, a inspeção na sequência, humor e desamores nas imediações. Uma promoção bombástica transformou um calmo feriado numa avalanche de consumismo no meio de uma crise económica.
Não sou contra as promoções e as reduções. Quando as empresas seguem regras de boas práticas e são honestas, o cliente tem mais possibilidade de escolher e (aparentemente) pagar menos. O que me preocupa é o estado de histeria a que chegámos... tudo por causa de uma promoção. As imagens e comentários nos media, nas redes sociais, no café da esquina ou no elevador revelaram como, quando estimulados com a ‘cenoura’ do Euro, podemos romper com as boas maneiras, sermos mal-educados e até violentos.
Afinal, somos tão volúveis, tão controláveis pelo benefício instantâneo, pela ganância, pelo egoísmo, que nem nos apercebemos disso. Tropeçamos no colega de trabalho na ânsia de pôr no carrinho de compras a nossa subida na carreira; abandonamos a família para aproveitarmos a promoção de uma aventura romântica que nos ilude nas primeiras semanas de emoção; ficamos na fila para o sorteio europeu, anos a fio, à espera que o dinheiro faça a nossa vida florescer - andamos a correr para onde nos mostram vantagens, benefícios e uma efémera felicidade, mas continuamos descontentes.
Há um mundo à nossa volta que nos entretém mas que não cala a voz do coração, num vazio que não há promoção, prémio ou atração que preencha. Estamos tão cheios das nossas escolhas, dos nossos apetites, do nosso ‘eu’, que esse som de embalo do imediatismo, funciona como um analgésico que tira a dor mas não cura a alma, apenas a adormece. Como uma droga domina o corpo, corrói a mente e enfraquece o espírito, e pede sempre mais.
Se em vez de procurarmos uma felicidade aparentemente barata, ao alcance de alguns euros e cedências morais, procurássemos a verdadeira alegria, disponível gratuitamente, com garantia vitalícia? Jesus não esperou por uma promoção para nos comprar. Ele pagou com tudo - com a vida - por todos e por cada um, o preço da nossa vitória, da nossa liberdade. E Ele oferece GRATUITAMENTE a nossa reconciliação com Deus, para uma vida abundante e eterna. Ao reconhecermos como temos vivido dominados pelo nosso ‘eu’, Jesus dá-nos uma nova vida: a oportunidade de viver com Ele e para Ele, confiando na Sua provisão e contentando-nos com a Sua alegria intemporal na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, sabendo que a morte não nos separa, mas é a porta para a vida eterna.
Se quando nos ‘mexem na carteira e nos ‘dão’ 50% de desconto por coisas tão efémeras, mesmo que necessárias, nos entusiasmamos... onde está a nossa euforia em anunciar que Ele já pagou 100% da nossa incontável dívida de erros, falhas, pecados, incongruências e, pior de tudo, uma vida de costas voltadas para a Sua graça e amor? Esta é a melhor de todas as notícias. E não é uma promoção... é uma oportunidade aberta até que Ele volte ou que deixemos de respirar.
“Porque é pela graça que estão salvos, mediante a fé. E isto não é mérito vosso, é dom de Deus. Não vem das obras para que ninguém se glorie. Pois somos obra das suas mãos, criados em Cristo Jesus para vivermos na prática das boas obras, as quais de antemão Deus preparou para nós.” (Efésios 2:8-10, versão “A Bíblia para Todos”)
“É que há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, que é homem e deu a vida por todos (...)” (1 Timóteo 2:5-6a, versão “A Bíblia para Todos”)

Ana Ramalho Rosa

in revista Novas de Alegria, julho 2012


Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico

12 julho 2012

Salmologia 5#

Experimentado em problemas e aflições, David também era um homem voltado para a reconciliação divina. A religião de David é Deus, porque na verdade, religião[1] é nada mais do que a religação a Deus; o voltar a ter harmonia e paz com Ele.

O salmista pede a Deus que escute as suas palavras, roga que seja escutado o seu discurso e que se possa expressar sobre o que sente. O versículo dois dá-nos a perspectiva do sofrimento daquele momento. Pedir a Deus para considerar o gemer de alguém, é pedir ao Pai que olhe para a ferida de um dos seus filhos e atente bem no seu choro. Mais do que isso, é o clamor de socorro e submissão à majestade e realeza de Deus. Pode existir um choro, uma dor, uma perturbação grande; mas existe também a confiança inequívoca naquele que é o Rei e Deus assumido. David, o rei de Israel, reconhece que o seu reinado está debaixo de um outro reinado. O reinado mortal e finito da humanidade está sempre debaixo do poderio do reinado intemporal e espiritual de Deus…Pode existir dor, mas existe um coração contrito e orientado para Deus. David começa pela manhã a clamar e a orar, a falar com Deus e esperançoso de que vai ouvir a resposta à sua petição. Floresce a confiança no meio do dilúvio de tristeza, porque Deus é aquele que faz separar o mar e parar a Terra em torno do Sol[2]!

A justiça e a grandeza de Deus são reconhecidas, existe intimidade suficiente para o salmista descansar numa certeza… Deus não se alegra na injustiça, Ele não compactua com a presença do pecado e com a antítese da Sua essência. Ser santo porque Ele é santo[3], faz-nos querer ser justos porque Ele é justo[4]! A arrogância da auto-sustentação humana não subsiste perante Deus e todos aqueles que vivem na prática do mal são opositores de Deus[5]. A santidade divina não permite que a falsidade, a mortandade e a traição sejam perpetuadas. Todo aquele que mente é desamigado, quem mata indiscriminadamente é afastado e quem vive na astúcia do enganar o próximo é repelido… Deus não compactua com o oposto e negativo da Sua pessoa. A voluntariedade do pecado agrava a condição do pecador, se existe inimizade com Deus devido a Adão[6], todos estes casos são piorados pela acção própria do Homem.

David reconhece que é pela Graça de Deus, pelo seu imenso amor que pode entrar na presença do Pai. O temor, ou seja, a veneração santa e o respeito pelo poderio e majestade de Deus são elementos que existem e persistem em David. A adoração e confiança na direcção de Deus são também partes deste quadro… É a Graça de Deus que nos dá o acesso à Salvação; que nos permite ser parte do edifício[7] que é a Igreja Universal e Intemporal. Entrar na casa de Deus é entrar na presença d’Ele e no Seu meio o zelo pela santidade é requerido. Aquele que busca a santidade e a presença de Deus, busca-o em adoração, porque reconhece que a Deus deve ser dado todo o louvor e adoração; porque aquele que se humilha perante Deus será exaltado[8]. A justiça de Deus é pura, Deus em si mesmo é justo e bom. Não podemos contemplar a bondade de Deus, se não virmos essa característica com os olhos da justiça… Tudo o que Ele faz, fá-lo por ser justo e bom, mesmo que o nosso quadro e ângulo de visão seja reduzido e não consigamos perceber o porquê, nem o para quê…

David clama por reparação pelo mal feito pelos seus adversários, declara que não são fiáveis, que maquinam a perversidade diariamente e que se preocupam em enganar de modo aparentemente inocente. Um discurso maldoso produz tudo menos vida, tal como Cristo disse, tudo o que sai da boca de um homem procede do seu coração[9]. Aqueles cuja boca é uma teia de enganos e de comentários devastadores, pouco (ou nada edificadores) e destrutivos, são pessoas em quem a vida eterna não abunda. As consequências do pecado e da vida pecaminosa são recolhidas também na existência física do Homem. A doença, as decepções, as vinganças, as frustrações e depressões, são também o troco das acções intentadas contra o nosso irmão e irmã. A rebelião é o segundo passo da Queda, mas ao Homem existe a expulsão da presença de Deus e a marcha a sós pela vida.

Ainda assim, David volta a louvar Deus e a pedir alegria a todos os que se refugiam e confiam no Senhor. Mais do que construir a casa na rocha, é preciso viver nela. Permanecer nos mandamentos de Deus, viver debaixo da Sua direcção e soberania, são opção do homem sábio. No próprio Pai existe felicidade e contentamento para quem O ama. Não amamos Deus pelo que Ele nos dá, mas pelo que Ele é e por quem Ele é. Não porque é o Deus abençoador, mas porque é o Deus da redenção e da vivificação.

Se antes estávamos mortos nos nossos delitos e pecados[10], agora vivemos no ardor do Espírito[11]; para que possamos ver a misericórdia e justiça de Deus a cada dia. O Senhor abençoa aquele que busca uma vida de justiça, aquele que procura a intimidade com Ele, que se deleita na Sua Palavra e que observa as Suas instruções.

Ricardo Rosa

[1] - do latim religare, significando religação com o divino
[2] -Salmos 30:5
[3] - Levítico 11:44
[4] - Deuteronômio 32:4
[5] - Tiago 4:4
[6] - Romanos 5:12
[7] - Efésios 2:19-22
[8] - Mateus 23:12 , Lucas 14:11
[9] - Mateus 15:18
[10] - Efésios 2:1
[11] - Ezequiel 37:14

08 julho 2012

“Não, não e não!”

A resposta dos pais foi simples e direta. “Porque é que eles dizem sempre ‘não’?” pensou o Frederico enquanto se estatelava na cama, aborrecido. “Se ao menos eu pudesse fazer tudo o que me apetece como o João e o Nuno... mas os meus pais são uns cortes!”

Tinha sido convidado para uma festa com o pessoal da turma, em casa do Nuno. Os pais disseram-lhe que não o deixavam ir porque, normalmente, aquelas festas acabavam mal. “Mas eu não bebo!” repetia o Fred. “Tu não, mas os teus amigos bebem... Já não te lembras do que aconteceu com o João na última festa? Acabou no hospital, em coma alcoólico. Se quiseres ir jantar com os teus amigos, tudo bem, mas não te queremos em festas desse tipo porque nunca sabemos como podem acabar.”

Naquela noite, o Frederico adormeceu a pensar que os pais lhe queriam “tirar a liberdade”. Às cinco da manhã recebeu um sms do João, em pânico. A Polícia teve que intervir na festa porque houve queixas de barulho da vizinhança. Os pais do Nuno estavam fora e tiveram que regressar de urgência. Uma rapariga do 8ºA foi levada ao colo pelo pai, completamente embriagada. E outras desventuras... afinal os pais sempre tinham razão.

Sabes, somos todos parecidos com o Fred. Não gostamos de "nãos", mesmo quando são para o nosso bem. Quando andamos desde miúdos na Igreja, às vezes, parece que aquilo que aprendemos são “nãos-impedidores-de-felicidade”. Na realidade, quando começamos a olhar à nossa volta e a ver o modo como as pessoas têm vivido, percebemos que dizer sempre “sim” a todos os desejos, sentimentos e vontades, é muito perigoso e pode destruir-nos a nós e aos que estão à nossa volta.

A Palavra de Deus é uma carta de amor, cheia de princípios para uma vida saudável. Com muitos ‘nãos’, é verdade, mas também muitos ‘sins’ que precisamos aprender e viver, com a Sua ajuda. Ironia das ironias, quando decidimos viver pela nossa cabeça e nos deixamos levar pelos nossos desejos, começamos por pensar "NÃO é assim tão mau..." e, devagar, vamos ficando cada vez mais longe do que Deus deseja para nós, sempre a descer e só paramos quando (se) pedirmos ajuda a Deus. Afinal há mesmo "nãos" para a nossa ruína... quando dizemos “não” a Deus.

Jesus disse: “Se fizerem aquilo que eu vos mando, serão meus amigos.” (João 15:14, versão “A Bíblia para Todos”). E como sabemos o que Jesus quer que façamos: conhecendo a Sua carta de amor, a Palavra de Deus. 

Sim, sim, sim: eu quero obedecer a Jesus. E tu?

Estou contigo!


Ana Ramalho


in revista BSteen, julho 2012

Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico