03 abril 2011

O adepto perdido

O estádio empolgado vibrava em ambas as cores, nas duas partes de 45 minutos. O resultado: a equipa de estimação, mais do que mérito, tinha perdido.

A derrota somava-se a tantas desse campeonato, na extensão limitada de uma época. Já se descortinava a chacota no resumo desportivo da TV, as piadas do locutor do programa da manhã, o desabafo medianamente confrontador dos colegas de trabalho, no dia seguinte. Tinham perdido, outra vez.

Enquanto se embrenhava nestes pensamentos, o adepto derrotado descia a rua, até ao transporte público mais próximo, cansado pelo que gritou e desmotivado por pouco: uma bola a bater na rede da baliza do clube preferido.

Afinal, a sua vida era parecida com a história do desporto que admirava: campeão um ano, derrotado no seguinte... vitória sim, vitória não...  Sentia-se perdido. Não era o “azar” do jogo que lhe dava esperança para o amor à vida... estava cansado de correr atrás da bola da felicidade insaciável, de saltar para se defender do sucesso alheio, de viver em faltas constantes para obter o suposto e fascinante estatuto que nunca lhe deu plena segurança ou paz.

Quando vivia entre as quatro linhas, anos atrás, era um jovem atleta puramente iludido. Pensava que tudo seriam rosas que perdiam os espinhos para os outros. Contas milionárias. O “eu” bajulado pela imprensa, os patrocinadores, a família e os (supostos) amigos. O vigor e sucesso ascendente estava garantido, pensava. Que loucura! 

Uma lesão fatal arrancou-o das primeiras páginas, atravessou com ele anos de tratamentos inconsequentes e colocou-o numa secretária, como recepcionista de um periódico desportivo. Era como se a vida lhe desse um cartão vermelho sem retorno. E a amargura vencia-o dia a dia, como a equipa adversária vencera o jogo daquela noite.

A viagem de autocarro até aos subúrbios parecia não terminar. Adormeceu. Despertou umas paragens antes da sua fuga para a liberdade do privado e embrenhou-se na mesmice da vida solitária e caída que tão bem alimentava.

Na sala empoeirada, procurou um livro para o adormecer. Recuperou da semi-biblioteca encaixotada um volume de capa gasta, pequeno, com as bordas das páginas bem amarelas. Abriu ao calhas e leu: “Se um homem tivesse cem ovelhas e uma delas se desgarrasse e se perdesse no deserto, não deixaria as outras noventa e nove para ir à procura da que se perdeu até a encontrar? Então, alegremente, carregá-la-ia sobre seus ombros, para casa. E, quando ali chegasse, reuniria amigos e vizinhos para se regozijar com eles, por a sua ovelha perdida ter sido achada. Semelhantemente, haverá mais felicidade no céu por causa de um pecador perdido que voltou para Deus do que por os outros noventa e nove que não se desgarraram!”1 

Com os olhos a lacrimejar, deixou o livro de lado, olhou para cima e exclamou: “Estou perdido, Deus... passo o tempo a perder. Perdi a carreira, perdi a dignidade, perdi a vontade de viver... Ajuda-me, Deus! Ajuda-me!” Deixou-se chorar e balbuciar outras frases e pedidos de socorro a Deus... e uma mudança começou a acontecer, uma lufada de esperança e um sentido real para a vida, mesmo no meio dos campeonatos mais duros da existência.

E tu? Preferes continuar perdido ou queres perder-te nos braços de Deus, o Pai amoroso? Deixa o Seu amor vencer-te hoje!

Ana Ramalho Rosa



1 Lucas 15:4-7, Versão “O Livro”


in revista Novas de Alegria, Abril 2011


01 abril 2011

EUforia ou DEUSforia?

Um aviso: este texto não é aconselhado a pessoas que gostam que o mundo gire à sua volta e que toda a gente lhes faça as vontades – incluindo Deus.

Este texto é para pessoas que querem viver de uma maneira radical, não porque elas o achem, mas porque é o estilo de vida que Deus, que as ama, pensou para elas. Para todos os que estão cansados de se “entreter” uns aos outros em eventos, e querem pagar o preço de ter um estilo de vida centrado nos desejos de Deus e nas necessidades dos outros – estejam onde e como estiverem. Para quem vive salvo, sentado e insatisfeito porque recebe tudo e mais alguma de Deus, não partilha com ninguém, e quanto mais tem menos sorri.

Não é só o iPod, iPhone ou o MySpace que coloca as palavras “eu” e “meu” no centro de tudo... é a cultura do consumismo como um todo que tem-nos adormecido e deixado presos a essa falsa liberdade. “Vendem-nos” o bem-estar, o prazer e os nossos direitos (os “meus” direitos) como o centro da felicidade, da “minha” felicidade. Viver tudo aqui e agora, sem pensar nas consequências, desde que o “eu” esteja em euforia e se sinta o dono do mundo – do dinheiro, da popularidade, das coisas, e das pessoas que usamos como coisas para a nossa satisfação. Ter autocontrole, esperar, repensar e mudar atitudes erradas, pedir desculpa ou conselhos a pessoas com “cabecinha” são coisas estranhas que recusamos porque não gostamos delas... não gostamos de limites.

Pensa nisto: se seguir as emoções e viver a alta velocidade preenchesse mesmo o nosso coração, porque é que passamos a vida à procura de mais sensações, coisas e pessoas que nos dêem a “tal” felicidade?

A nossa EUforia precisa ser alterada para DEUSforia. Quando colocamos o Criador como a base da nossa vida, vamos procurar a Sua vontade em todas as áreas... não só o “como” mas também o “quando” viver. Temos uma vida inteira para descobrir isso, através da amizade que vamos fazendo crescer cada vez que falamos com Ele, lemos a Sua Carta de amor – a Bíblia – e respondemos com uma vida de obediência amorosa. Aquilo que Deus deseja não é que eu viva apenas para “o meu umbigo”, mas que O ame e aos outros, sabendo que Ele cuida de cada detalhe da minha vida.

Quando deixas que o amor de Deus invada o teu coração e espalhas esse amor de maneira prática – através de ajuda, perdão, interesse genuíno pelos outros – vais perceber o real sentido da vida. Há um preço a pagar. Sermos incomodados, desafiados, sentirmos o peso dos problemas das pessoas, procurarmos mais Deus para nos ajudar a ajudar os outros. Mas vale realmente a pena. Deixa Deus tornar-se a grande euforia da tua vida.


Um dos mestres religiosos (...) perguntou-lhe: De todos os mandamentos, qual é o mais importante? Jesus respondeu: Aquele que diz: 'Ouve, ó Israel. O Senhor teu Deus é o único Deus. Não há outro! Ama-o de todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente com todas as tuas forças!' O segundo é: 'Ama os outros, como a ti mesmo.' Não há mandamentos maiores do que estes.” (Marcos 12: 28-31, versão “O Livro”)

Ana Ramalho


in revista Palavra para ti hoje, Abril-Junho 2011

Eu é que sei!

A Joana tinha acabado de mudar de escola. A primeira amiga que fez na nova turma foi a Sónia. Começaram a ir às compras juntas e passavam horas ao telemóvel... coisas normais de amigas!

Mas a Sónia era estranha. De vez em quando faltava às aulas porque, dizia, tinha “dores de cabeça”. Quando tinham educação física cansava-se muito depressa. Comia pouco. Não se dava com mais ninguém na turma e tinha uns amigos um bocado “alternativos” - costumavam ir para uma casa abandonada “divertir-se” com muita bebida e umas ganzas.

Um dia a Sónia descaiu-se. Confessou que também ia “divertir-se” à casa abandonada de vez em quando. A Joana tentou ajudar a Sónia a ver que esse tipo de divertimento podia acabar mal. A Sónia achava que não estavam a fazer mal a ninguém, por isso não havia problema... “Eu é que sei!” - repetia ela.

As faltas da Sónia começaram a ser mais frequentes. As notas dos testes a baixar. A Joana bem insistia em saírem e estarem com outras pessoas. A Sónia evitava estar com ela. Não queria admitir que aquele estilo de vida a estava a arruinar.

Como acabará esta história? Depende da atitude da Sónia.

O que achas da atitude da Joana? Talvez penses que ela queria “meter-se onde não era chamada”... Mas o que é a amizade? Sermos amigos é preocuparmo-nos uns com os outros. Por vezes isso significa que teremos que dizer às pessoas que amamos que elas estão erradas. Com amor e respeito, mas se não dissermos nada estamos a passar uma mensagem: “Eu não quero saber da tua vida. Se ficares mal o problema é teu”.

Não quer dizer que devemos obrigar as pessoas a agirem como achamos melhor, mas temos o dever de dizer para terem cuidado quando estão a fazer más escolhas, nas companhias, nos hábitos, na maneira de lidar com as pessoas, etc.

“Vale muito mais a repreensão feita com franqueza e sinceridade, do que um amor demasiado reservado. Feridas, quando feitas por um amigo, são muito melhores do que beijos de quem nos quer enganar. (...) Um bom conselho dado por um amigo fiel é coisa tão boa como um agradável perfume que deixa uma pessoa bem disposta.” (Provérbios 27:5,6 e 9, versão “O Livro”)

Estou contigo!

Ana Ramalho



in revists BSteen, Abril 2011

Dupla nacionalidade

Francis Obikwelu é um dos atletas portugueses mais conhecidos e premiados. Em 2006 foi considerado o Atleta Europeu do Ano e, no momento em que te escrevemos, é o detentor do recorde europeu dos 100 m.

Nasceu na Nigéria mas é português... como é que isso aconteceu? Quando tinha 16 anos, Obikwelu pôs-se a caminho e aterrou em Portugal, depois de ter participado no Campeonato do Mundo de Juniores de 1994. Tentou entrar em vários clubes, mas como ninguém se interessou por ele, fez-se à vida e foi para o Algarve trabalhar na construção civil. Mas o nosso atleta não ficou por aí. Foi aprender português e conseguiu com ajuda do seu professor contactar um clube que o recebeu. Recomeçou a correr, mas continuou a competir pelo seu país de origem.

Ele decidiu “correr por Portugal após ter sido abandonado pelos responsáveis desportivos nigerianos na sequência de uma lesão que sofreu ao representar a Nigéria em Sidney”1. Em Outubro de 2001, passa a ter a nacionalidade portuguesa. “A sua história de vida, a sua personalidade e os seus sucessos desportivos tornaram-no uma figura popular no seu país adoptivo”2.

“Eu, Paulo, escolhido pela vontade de Deus para ser apóstolo de Jesus Cristo, escrevo esta carta aos santos em Éfeso, os que são fiéis a Jesus Cristo. Que Deus nosso Pai e o Senhor Jesus Cristo vos dêem graça e paz.” (Efésios 1:1-2, “O Livro”)

Se Paulo estivesse a escrever um e-mail o destinatário teria o seguinte endereço: santos_fieis@cristo.ef (ef de Éfeso).

Repara na primeira parte do endereço. Aquela carta era para alguém com umas qualidades especiais: santos e fieis. Santos não são pessoas mortas que pelo que fizeram, recebem esse título e posição. Nem porque são pessoas perfeitas, que nunca erraram. Os cristãos em Éfeso foram tornados santos, por terem entregue as suas vidas a Jesus: passaram a pertencer exclusivamente a Deus. Eram fieis porque decidiram que iriam seguir Jesus como modelo para o resto das suas vidas, qualquer que fosse o preço.

Mas depois do “@” vem outra situação. E é aqui que entra a dupla nacionalidade. Tal como o Obikwelu nasceu na Nigéria mas também tem nacionalidade portuguesa, por um lado os nossos manos eram de Éfeso, por outro lado eram de Cristo. Tinham uma nacionalidade terrena e outra do Céu.

O nosso atleta veio de um país com os seus próprios costumes e língua. Teve que se adaptar a Portugal, à nossa cultura, aprender o português, etc. “Em Éfeso” aqueles cristão precisavam viver como uma família (a igreja) e ajudar aqueles que estavam longe de Deus para que O pudessem conhecer. Mas por serem também “do Céu” o seu estilo de vida era diferente – era segundo o desejo de Deus e não segundo a forma de pensar na sociedade daquele tempo.

Ter esta dupla nacionalidade não significa que és um Extra Terrestre, mas que por amares Deus acima de tudo, segues o estilo de vida saudável que Ele criou para que sejas feliz, e saibas enfrentar as coisas difíceis que se passam em ti e à tua volta.

NÃO RESPONDAS ALTO!
Pensa nestas 3 coisas:

1 - Como cristão, és santo por causa daquilo que Jesus fez na tua vida. Ou seja, passaste a ser de Deus e a viver para Ele, da forma que Ele deseja. Mas será que nos teus pensamentos, no teu dia-a-dia, nas tuas decisões e hábitos mostras que vives apenas para Deus? Ou será que algumas vezes vives como Deus quer, outras à tua maneira, outras à maneira dos teus amigos?

2 – Já alguma vez tiveste que ficar prejudicado por seguir Jesus? Não por ter “rótulo” de cristão apenas, mas por teres feito alguma coisa segundo a Palavra de Deus? O que aconteceu?

3 – Estás na tua escola, no teu bairro, na tua terra... mas és um cidadão do Céu também. Como é que os teus amigos podem saber que és um cristão? Tens que usar algum símbolo especial na roupa?

FALA COM DEUS
Agradece a Deus por Jesus, pois é por causa d’Ele que podes ser chamado santo. Pede perdão pelas vezes em que não seguiste o exemplo de Jesus e por qualquer hábito que te impeça de ser totalmente separado para Deus. Pede-Lhe também para que, a cada dia, possas segui-Lo e levar as Boas Notícias da salvação aos teus amigos.

Ana Ramalho


1 http://www.francisobikwelu.com/pt/
2 http://www.francisobikwelu.com/pt/

in revista BSteen, Abril 2011. Texto adaptado do livro ‘TÁS COM DEUS – Carta aos efésios descomplicada, da autoria de Ana Ramalho, Edições NA, 2009