23 outubro 2014

Crer (também) é pensar!

Se alguém vos perguntar a razão da vossa esperança, estejam sempre preparados para responder, com delicadeza e respeito. É assim que Pedro escreve em 1ª Pedro 3:15,16 na tradução O Livro.

O facto de sermos cristãos, de crermos em Jesus e que Ele deu a Sua vida para nos salvar (João 3:16) não faz de nós gente sem capacidade de pensar. Quando Pedro escreve estas linhas, ele está a explicar aos crentes como viver de acordo com os ensinos de Jesus, mesmo que sejam perseguidos e sofram por isso.

Naquela altura, assumir-se como cristão dava direito a perder a cabeça, literalmente. Outras vezes, dava apenas prisão, como aconteceu com Paulo e Silas (Atos 16:16-40). E de vez em quando, também dava direito a uns açoites nada meigos ou fome, como Paulo também nos conta (2ª Coríntios 6:5).

O que quero que entendas é algo muito simples. Deus deu-nos cabeça para pensar, para meditar no que Ele nos diz e para podermos responder com educação e respeito, a quem nos pergunte quem é Jesus ou no que cremos. Apesar de acreditarmos num Deus vivo, que nos ama e que se quer relacionar totalmente conosco, isso não nos dá o direito de sermos arrogantes, mal educados ou brutos com quem não acredita n’Ele.

Uma das coisas que aprendi na vida é que as pessoas conquistam-se com ações, porque de palavras já elas estão cheias. Isto não tira importância a lermos a Bíblia e a partilharmos o que ela nos ensina. Mas leva-nos a pensar que se a fé que dizemos viver não for acompanhada de uma vida a condizer, então não temos grande coisa a mostrar a quem não crê n’Ele (Tiago 1:22-24, 2:18).

Somos chamados para levar a mensagem de Jesus ao mundo, através do nosso discurso, da fé que temos n’Ele e do modo como vivemos. O caminho com Jesus faz-se com fé e obras, com esperança e razão, com palavras e com ação.  Crer não é apenas viver, crer também é pensar.
O problema não são as dúvidas que surjam, são as respostas a que nos agarramos.

Faz a escolha certa, agarra-te a Jesus e a tua vida nunca mais será a mesma!

Ricardo Rosa


in revista BSteen, outubro 2014


Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico

21 outubro 2014

Um casal-modelo

Não, não estamos a falar de um casal de modelos, como deves ter reparado, mas de um casal-modelo... ou seja, um casal que deixou um bom exemplo.

A história destes dois amigos do apóstolo Paulo aparece pela primeira vez em Atos 18. Áquila, um cristão de origem judaica, e Priscila, a sua mulher, conheceram Paulo em Corinto, onde os três faziam tendas para ter sustendo. Tinham fugido da sua terra natal – Roma - devido à perseguição dos  Romanos, por causa de Áquila ser judeu.

14 outubro 2014

Ainda é tempo...

Olhar triste e cabisbaixo. Entra no autocarro, sem proferir palavra, mergulhada em pensamentos, vagueando nas veredas do sabor amargo da derrota não proferida.

Os sonhos agarrados com as duas mãos, de uma vida mais acelerada, mais feliz, mais livre, tornaram-se pesadelos reais, que descambaram na prisão, de mãos e pés atados no orgulho da inadmissão do erro.

Quando a tentação bateu à porta da fragilidade, no meio do aperto e no sabor do momento, caíram as defesas, esbarrou-se, pisou-se e ultrapassou-se a linha. Brincou-se com o pecado, e o rastilho queimou-se, suavemente, até a bomba da apostasia rebentar por todos os lados. Procurou-se uma desculpa para aquilo que não tinha justificação: a culpa é dos outros, mesmo que a decisão seja minha.

Com o idealismo de experimentar para saber, sem sofrer. Com a utopia de poder estar bem com Deus... e com o Diabo, literalmente. Não existe uma terceira opção. Ou estamos com Deus ou estamos sem Deus. Podemos conhecer os valores de Deus mas só somos Dele se não vivermos nos valores hedonistas da nossa tendência para pecar, se rejeitarmos os iscos do mundo e de Satanás – só quando Deus é mesmo Deus, o nosso Deus.

De volta ao transporte urbano, uma estranha incerteza funde-se nos pensamentos de quem desvia o coração para o lado oposto de Deus, em manobras suaves, mas fatais. Uma incerteza cheia de desconfiança, medo, rejeição, assombramento... que aquela tristeza aguda que penetra a alma é inapagável. Uma incerteza profunda, mordaz, cega, que disfarça um sorriso no olhar triste de quem já conheceu a verdadeira fonte da alegria – Deus.

Se essa vida preciosa e única relembrasse a graça preciosa e suficiente de Deus... Se reconhecesse que essa graça é a resposta à sua desgraça...  Se assumisse que a sua queda atroz é reversível, ao cair nos braços do Salvador, indefesa, em humildade, assumindo a sua falência espiritual...

Como na parábola dos dois filhos perdidos que um dia a fez chorar, uma filha que precisa largar a pocilga que a prende, mesmo que pareça não haver alternativa, enfrentar a vergonha de regressar de onde veio, de assumir a sua necessidade urgente de resgate, de amor, de salvação (Lucas 15). Como aquele filho que regressou a casa do pai, depois de esbanjar, de toda e qualquer maneira, a herança que recebeu antecipadamente, aquela vida perdeu-se na ilusão dos seus próprios caminhos... mas ainda é tempo de regressar.

Se esta é a tua história, se já estiveste perto de Deus e da família de Deus, a Igreja, e por portas e travessas, por uma sucessão de más decisões, de escolhas erradas, na ilusão de que se pode brincar com o pecado sem consequências, o afastamento de Deus e dos Seus filhos foi acontecendo, quase sem dar por isso. Se sentes um aperto no peito, uma saudade incontrolável, um anseio por voltar a ter aquela alegria única – a da salvação. Se estás cansado ou cansada dessa máscara que colocas em todos os momentos que te cruzas com alguém que conheces, numa aparente felicidade, mas numa real calamidade interior. Se queres regressar, voltar para Deus realmente, vem!

Se, por outro lado, está “em casa” e vives com Deus, não sejas como aquele outro filho, que estava perdido, mas em casa do pai. Não rejeites aqueles que vêm como estão, com vidas desorganizadas, feridas, marcadas, mesmo que já tenham partilhado o mesmo banco de igreja que tu, mas ora para Deus mudar, restaurar, salvar as suas vidas. Ora, e ama. Ama com um sorriso, um abraço e uma festa, como a festa que se faz no Céu.

“‘Meu filho’, respondeu-lhe, ‘tu estás sempre comigo e tudo o que eu tenho é teu, mas era preciso fazermos uma festa e alegrarmo-nos, porque o teu irmão estava morto e voltou a viver, estava perdido e reapareceu’.” (Lucas 15:30-31, BPT)


Ana Ramalho Rosa

in revista Novas de Alegria, outubro 2014

Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico

08 outubro 2014

Terceira Epístola de João

A terceira epístola de João é do mesmo período da anterior, isto é, entre os anos 97-100 d.C., tendo também como ponto provável de redação a cidade de Éfeso[1].  

Esta epístola é dirigida a Gaio, um membro de uma igreja local[2] que dava testemunho de bom modo (v.3,5). Esse testemunho era reconhecido diante da igreja local e atestava o trato fiel de Gaio para com os irmãos em Cristo em primeiro lugar e segundamente para com as visitas ou forasteiros[3].

João incentiva Gaio a receber plenamente aqueles que estão de passagem e que “por amor do Nome saíram, sem nada aceitar dos gentios.” (3 João 1:7 ARA). Este sinal de recusa em aceitar apoio dos descrentes era um modo de não só dar bom testemunho entre eles (não aceitando dinheiro como devotos de outras religiões faziam)[4], mas também de seguir o exemplo dos doze e  dos setenta quando enviados por Jesus (Marcos 6:8, Lucas 10:4). O cuidado com os irmãos na fé seria uma prática enraízada nas comunidades cristãs da época, seguinte também as indicações de Paulo nas suas cartas (Gálatas 6:10, 1 Tessalonicenses 3:12).

O contraponto a Gaio é mencionado na carta e chama-se Diótrefes. À boa atitude de Gaio no que toca a receber pessoas de fora, contrapõe-se a má atitude de Diótrefes que se recusava a receber essas pessoas e não contente com isso, proíbia os crentes locais de o fazer expulsando-os como medida punitiva (v.10). A sua atitude negativa é ainda destacada pelas suas palavras caluniosas e atitudes desornedadas, nas quais se inclui a recusa em receber João.

No terminar da epístola temos novamente um bom exemplo, o de Demétrio. Este homem é motivo de elogio pelo modo como vive fielmente com Cristo (v.12), algo que leva a que o aqueles que o conhecem o reconheçam como alguém com um carácter verdadeiramente cristão. João repete nesta espístola o final da sua epístola anterior, ou seja, existem mais assuntos dignos de nota, mas que ele prefere tratar pessoalmente e em breve.

Ricardo Rosa


[1] MAUERHOFER, Erich. Introdução aos Escritos do Novo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2010, p.563,564; [2] STOTT, John. I,II e III João – introdução e comentário. São Paulo: Editora Vida Nova e Editora Mundo Cristão, 1982, p.186; [3] Aqui o termo original do grego é xenos que é melhor traduzido por estrangeiro ou visita. Daí se depreenda a tradução de João Ferreira de Almeida para estranhos, uma vez que seriam pessoas externas aquela comunidade local; [4] STOTT, John. I,II e III João – introdução e comentário. São Paulo: Editora Vida Nova e Editora Mundo Cristão, 1982, p.191.

in revista Novas de Alegria, outubro 2014


Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico