03 julho 2013

Peças da vida

Naquele dia, resolveu por mãos à obra. Foi buscar a caixa empoeirada ao sótão e iniciou a tarefa de fazer o puzzle que fora do seu avô, do seu pai e agora era dele.
Quando o recebeu, como prenda pelos seus 18 anos, estava mais interessado em passear, divertir-se com os amigos, do que passar serões em casa a construir fosse o que fosse.
Agora, um homem de barba rija, ‘desimportado’ com a vida, num lay-off angustiante, enquanto aguardava a hora de outra oportunidade de trabalho, e cansado de procurar emprego, esmerava-se por esquecer que naquele dia fazia, precisamente, 50 anos de vida. Era um dia que desejava que fosse igual aos outros, mas não o era: passava na sua mente o correr dos dias e a falta de sentido, e de ordem, tal como as peças daquele puzzle esbanjadas pela mesa da sala, sem rei nem roque.
Aquela noite parecia não terminar. E a construção do puzzle continuava, paulatinamente. Já o relógio passava da meia-noite e as peças soltas iam escasseando. Quando colocou a última peça faltavam ainda umas quantas para que o puzzle ficasse terminado. Perderam-se pelos anos, tal como o propósito da sua vida.
É verdade que esta história não é única. Quantos vagueiam nas nossas ruas, nas nossas cidades, nas nossas famílias, sem um sentido real para a sua vida? Há momentos em que todos nos questionamos acerca da nossa origem, caminho e destino. Momentos que desejamos que passem e sejam esquecidos, como aquele dia de aniversário indesejado.
Como um doente que se quer automedicar, engolimos analgésicos passageiros, esperando que a insegurança e a dor nos deixem por momentos. Corremos atrás do valor efémero do dinheiro, trocamos a moral pela ditadura do prazer, embarcamos num abuso de poder para esconder a nossa insegurança pessoal... mas quando o efeito passa, continuamos insatisfeitos.
O convite de Jesus é para todos os insatisfeitos: “Venham a mim todos os que estão cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. Levem o meu jugo e aprendam de mim, porque sou brando e humilde, e acharão descanso para as vossas almas; pois só vos imponho cargas suaves e leves.” (Mateus 11: 28-30, OL).
Para todos os que se sentem enganados, perdidos e sem vida: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14:6, AA).
Para todos os que se assumem como doentes, pecadores e maltrapilhos, pobres de espírito numa recessão constante que só a riqueza do Seu perdão pode resolver: “Quem precisa de médico são os doentes e não os que têm saúde! Vim chamar, não os bons, mas os maus.” (Marcos 2:17, OL).
Esse convite ainda está de pé, não porque o mereçamos mas porque Ele Se entregou incondicionalmente no nosso lugar. O Justo dos justos por todos os pecadores, a começar por mim!

Ana Ramalho Rosa

in revista Novas de Alegria, julho 2013


Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico

01 julho 2013

Cantar no duche

Depois de um fantástico dia de praia, lá vais tu para o duche. Enquanto isso, vais cantarolando a música que estavas a ouvir no telemóvel... até alguém bater à porta e, do lado de lá, interromper-te: “Falta muito?!”

Seja no duche, no carro, na rua, cantarolar aqui e ali não nos torna verdadeiros cantores (pelo menos à maioria de nós!). Do mesmo modo, por si só cantar músicas de adoração a Deus, com letras que até podem ser profundas e verdadeiras, não nos torna verdadeiros adoradores.

Temos a falsa ideia que louvor e adoração são apenas momentos do culto em que cantamos juntos, dirigidos por alguém ou por um grupo. De facto, adoração também tem a ver com isso, mas não é só isso. Adoração e louvor não são apenas música, nem um estilo de música, mas um estilo de vida.

Achas normal alguém cantar “Deus, eu vou obedecer-te em tudo na minha vida” e, logo depois, estar a mentir ou a falar mal de alguém? E se a letra dissesse “Cria em mim um coração puro, Deus” e alguém que, aparentemente, estava muito concentrado a cantar, ficasse nessa mesma noite horas a ver vídeos que deixavam as hormonas aos saltos e a cabeça a ter pensamentos nada puros? Parece uma contradição exagerada, mas a verdade é que muitas vezes acontecem situações deste género.

Jesus explicou a uma mulher de Samaria, que estava confusa em relação ao lugar certo para adorar: “Vem o tempo em que já não teremos que nos preocupar se o Pai deve ser adorado aqui ou em Jerusalém, mas sim, se a nossa adoração é espiritual e autêntica. Deus é Espírito; os que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade. É assim que o Pai quer que o adoremos.” (João 4:21-23, OL)

A adoração a Deus tem a ver com uma entrega real e sincera de coração, que se reflete em tudo o que somos e fazemos – e cantamos. É isso que Deus quer de ti! Como Paulo explicou “É porque tudo o que fazemos deve ser para a glória de Deus, mesmo o comer ou o beber.” (1 Coríntios 10:31, OL).

Ana Ramalho Rosa


in revista BSteen, julho 2013

Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico