03 novembro 2010

O Freelancer

“Ser freelancer... um trabalhador independente. INDEPENDENTE! Isso mesmo! Sem depender de ninguém..."

É tão bom ser livre! Não ter patrão a quem prestar contas. Não ter poiso certo de trabalho. Não ter colegas com caras ensonadas à segunda-feira para esbarrar no corredor do escritório. Não ter que picar o ponto, aturar maus humores, nem ser obrigado a fazer pausas de apenas 15 minutos. 

Podes pensar que me sinto realmente feliz com tudo o que posso fazer sem restrições, sem limites... mas há o outro lado da moeda... aquele que eu escondo normalmente, porque me chateio só de pensar.

Tenho que pagar mais impostos, segurança social. Estou sujeito às necessidades (ou às não necessidades) daqueles que são os meus clientes directos – as empresas, os particulares. A minha vida tem um planeamento muito irregular, o que não me permite pensar em coisas a médio ou longo prazo – incluindo compromissos pessoais, como o prato que se enche na mesa.

Sou uma árvore desenraizada, um peixe que tanto está dentro como fora de água... mas esta foi a minha escolha! E sou livre (pelo menos aparentemente).”

E aparentemente há muitos cristãos freelancers por aí... aparentemente livres mas com um défice de comunidade estrondoso. Decidiram por “chatices” no escritório dos relacionamentos ou no balcão das doutrinas fundamentais, sair da família cristã onde nasceram e, depois de andarem a comer à mesa dos vizinhos (aqueles que têm sempre a galinha melhor do que a deles), a petiscar aqui e ali, deixaram que o fastio espiritual tomasse posse e rescindiram contrato com qualquer tipo de congregação. 

“Ninguém tem nada a ver com a minha vida”, “Não preciso de ninguém”, “Se me perguntam alguma coisa nunca mais vou”, “Estou-me a ‘borrifar’ para a opinião dos outros”, “Isso era para aquele tempo. O que interessa é que Deus é amor” ou “Agora estou numa fase em que preciso estar longe da igreja”, são os falsos argumentos que nos tornam independentes.

É verdade que as “chefias intermédias” nem sempre são correctas nas suas decisões estratégicas (ou na falta delas). É verdade que os “colegas de departamento” não são anjos com asas escondidas debaixo do casaco domingueiro (isso não existe, meus caros!). É verdade que os relacionamentos humanos dão trabalho, são desafiantes e nos levam a deixar a nossa razão pelo bem comum. É verdade que não há igrejas perfeitas... mas também é verdade que o modus operandi da comunidade dos filhos de Deus é a igreja universal que se exprime necessariamente numa comunidade local.

Não existem olhos independentes, braços independentes, mãos independentes. Da mesma forma, não podem existir cristãos independentes. 

Quem se quer independente, quer-se sozinho, solitário, sem alimento, sem correcção, sem protecção... porque não quer ter o trabalho de olhar para os outros, de pensar que talvez a Bíblia tenha mais razão e mais lógica do que o seu umbigo, que há assuntos e situações que ou se perdoam ou são a nossa carga para sempre – mesmo que gritemos aos quatro ventos que somos independentes. Quem não quer responsabilidades não quer privilégios, certo?

Eu não quero ser uma cristã freelancer... a independência é uma ideia falsa. Uma mentira que nos leva para longe de todos os meios que o Pai criou para sermos cada vez mais parecidos com Ele. Precisamos uns dos outros – com tudo o que isso implica. 

Deus fala no lugar secreto e meditação pessoal da Palavra, sim, mas escutarmos as meditações dos nossos irmãos também fazem parte do cardápio. Deus cura as nossas feridas e perdoa-nos, mas o perdão do outro e a aplicação dos curativos é papel de cada membro do corpo de Cristo. 

Vermos as nossas necessidades supridas pelo suor do nosso rosto – porque Deus nos dá a vida e a saúde para tal – é tão válido quanto cuidarmos de irmãos mais carenciados e sujarmos as mãos em prol daqueles que ainda não sabem que Deus é amor – e precisam vê-lo de forma prática no relacionamento entre os filhos de Deus, nas acções desinteressadas movidas por compaixão que têm para com todos.

Como igreja, sejamos a comunidade que Deus deseja... Aquela comunidade em que os casos difíceis como eu têm espaço para assumir as suas fraquezas (mesmo aquelas que nos dão arrepios na espinha pela visão irrealista de que existem pessoas perfeitas) e espaço para ser acompanhados e transformados, constantemente transformados.

Uma comunidade que nos ajude na infância, na adolescência (muito!) e na maturidade espiritual... e em cada fase do caminho com Deus, nos ajude a saber onde estamos e para onde vamos. 

Uma comunidade que nos corrija na nossa independência de Deus e no excesso de dependência dos outros. Que nos leve a tomar decisões concretas em relação ao Pai, aos outros e à vida. Que permita a espontaneidade mas previna a inconsequência. Que alimente a sabedoria e torne relevante o conhecimento.

Uma comunidade realista, com uma visão bíblica que não penda nem para o “cor-de-rosa” prosperado em dourado utópico, nem para o negro da cinza engendrado numa teologia de vida-purgatório. Onde saibamos ler a Bíblia como ela é e não como inventamos ser. Onde deixemos a Bíblia ler-nos e não quaisquer outros pensamentos – mesmo que possam ser seus complementos.

E para construir esta família espiritual, a única forma é unir numa comunidade local todos os que reconhecem Jesus como o único caminho que nos leva ao sitio certo, a única verdade que nos dá segurança, a única vida que preenche o espaço que Lhe pertence e nos dá vida para levar aos outros. Isto inclui os teoricamente dependentes de Deus, os independentes de todos, os demasiado dependentes dos outros... Porque todos estamos no mesmo processo. 

Ana Ramalho

in revista Novas de Alegria, suplemento NAJovem, Novembro 2010

02 novembro 2010

Meti água!

Naquela manhã ensolarada de Sábado marquei na minha agenda mental tratar do objecto mais dispendioso que me acompanha em muitas aventuras: o meu carro.

Depois de água, champô, pano do pó e aspirador, estava na hora de alimentar os 68 cavalos do motor japonês. Estava indecisa entre a gasolineira que tinha os preços mais caros e a que pertencia a uma rede de grandes superfícies e tinha tudo mais barato. Fiquei pela segunda e enchi o depósito.

Alguns quilómetros depois estacionei para dar alimento, agora a mim mesma. De regresso à carroçaria vermelha, ambos atestados no sentido nutritivo, estávamos prontos para voltar a casa. Ao tentar fazê-lo, o motor do carro trabalhava, mas não desenvolvia. Uma luzinha aparecia no tablier a indicar que havia um problema no motor. Parecia eu nas primeiras horas da manhã antes de tomar um saboroso cafezinho (tablier incluído)!

Depois de várias tentativas sem sucesso, acabei por ir a uma oficina. A “entrevista” com um dos funcionários levou à conclusão de que o problema era a gasolina com água. Isso e as impurezas traziam problemas de desenvolvimento do motor e poderiam vir a ser mais graves (e explicou tudo com os respectivos termos técnicos). Basicamente: meti água (literalmente)!

Comprei um aditivo (que me custou mais do que os cêntimos que poupei na gasolina) para aumentar as octanas do combustível. E não é que resultou?! A luz desapareceu e o motor voltou a reagir “nervoso”, como eu gosto!

Moral da história: atestei numa gasolineira light no preço que saiu pesada no fim (na carteira e no susto).

Mas a aventura não fica por aqui. Durante a viagem que se seguiu comecei a pensar como fazemos o mesmo em tantas decisões que tomamos na vida, em vários aspectos. Desconfiamos das opções que nos parecem mais dispendiosas e optamos tantas vezes pelas mais baratas... e no que toca à espiritualidade não é muito diferente!

A mistura esotérica da não renúncia, do não arrependimento e da confissão positiva, do “diga e terá” que é música para os ouvidos, mas acabará por ensurdecer de erros aqueles que a seguem, até morrerem enganados. O mistério de ganhar o Céu por fazer isto, dar aquilo, sacrificar os joelhos ou o coração numa religião enganosa baseada em intermediários de hábito ou gravata, que termina no mesmo precipício eterno, se não acordarem a tempo. O filho de Deus que se “cansa” de estar na casa do Pai, e que se esbanja a ele mesmo numa falsa liberdade, vivendo orgulhosamente independente, mas depois vive infeliz e amargo pela falta de propósito que já experimentou. O estudioso renomado que promete a cruz fácil, o descompromisso leve, o fruto invisível pois “o que interessa é o interior”, sem pensar nas consequências que pode acarretar a diluição da verdade pura e crua de seguir Cristo.

Tantas decisões (in)conscientes, que comprometem o nosso futuro e o dos outros! Parece mais fácil e mais barato só que no final, o barato sai caro. E não estamos a falar de automóveis e casas (se bem que há quem as prometa!) mas da maior das riquezas: vidas!

Jesus sabia disso... e Ele, não apenas deu a Sua vida para nos dar propósito, sentido, um relacionamento com Deus e o próximo verdadeiramente saudável. Ele também viveu e ensinou como deveríamos viver.

Ouçam as Suas palavras, ainda hoje válidas e relevantes: “Só pela porta estreita se pode entrar no céu. A via para o inferno é larga, e a sua porta é ampla bastante para todas as multidões que escolherem esse caminho fácil. Mas a porta da vida é pequena, o seu caminho é estreito, e poucos o encontram.” (Mateus 7:13-14, versão “O Livro”) “Ao que Jesus respondeu: Não deixem que vos enganem. Porque muitos virão, dizendo que são o Messias, e levarão bastante gente atrás de si.” (Mateus 24:4-5, versão “O Livro”)


Ana Ramalho


in revista Novas de Alegria, Novembro 2010

01 novembro 2010

R.I.P.+ 18

“O judoca internacional português Tiago Alves morreu terça-feira à noite, vítima de doença [cancro]. (...) Tiago Alves, de 18 anos, competiu em Abril na Taça da Europa de Esperanças, na Estónia, onde alcançou a medalha de bronze.”1

Descobriu que tinha cancro a 21 de Junho e morreu a 19 de Julho. No seu blog escreveu “muitas vezes perguntamos porque é que o mal só acontece a nós e não aos outros, porquê que eu, que tento ser a melhor pessoa possível e tento ter uma vida o máximo saudável possível, tenho de levar com todo o mal.”2

Não sei dar valor àquilo que o Tiago passou. Nesta situações não há respostas fáceis. O sofrimento é isso mesmo: um sofrimento. Esta história podia acontecer a qualquer um. Podia ser eu... podias ser tu! Como te sentirias? Qual seria a tua reacção perante a vida, a escola, a família, os amigos... Deus?

Se olharmos para a vida apenas pelo tempo que aqui vivemos, a revolta e a angústia podem tomar conta do nosso coração nestes momentos. Estamos num mundo imperfeito, no qual a doença, a injustiça e o mal andam à solta. Quando escolhemos Deus para ser o nosso Guia, a nossa perspectiva é transformada, alimentada pela Palavra de Deus e suportada pelo nosso relacionamento pessoal com Ele, cultivado dia a dia.

Não fomos criados apenas para o “aqui e agora” mas para viver sempre com o Pai. Ele protege-nos muitas vezes, cura-nos. Devemos procurar a Sua ajuda, com confiança. Mas, enquanto respirarmos estamos sujeitos a doenças e outros problemas – e na Sua sabedoria Deus pode querer-nos junto a Ele, antes do “prazo normal”.

Cinco dias antes de nos deixar, o Tiago definiu a palavra CANCRO assim: “Caminho para a luta; Agarrar a vida; Nunca desistir nem baixar os braços; Combater com unhas e dentes; Resistir à dor e ao sofrimento; Olhos sempre postos na confiança.”2

O Tiago desafiou-me. Queixo-me de coisas tão insignificantes... e tenho um Deus tão espectacular, amigo e poderoso! Preciso alimentar a minha esperança naquilo que o Pai diz e confiar. Repara:

Deus está comigo nas dificuldades Ainda que eu ande por um vale escuro como a morte, não terei medo de nada. Pois tu, ó SENHOR Deus, estás comigo; tu me proteges e me diriges.” (Salmo 23:4, versão NTLH)

O bom e o mau fazem-me crescer Pois sabemos que todas as coisas trabalham juntas para o bem daqueles que amam a Deus.” (Romanos 8:28a, versão NTLH)

Vou viver para sempre! “E se a nossa esperança em Cristo é unicamente para esta vida, nós somos as pessoas mais miseráveis no mundo. Mas o facto é que Cristo ressuscitou mesmo dos mortos e se tornou o primeiro entre milhões que um dia voltarão a viver!” (1 Coríntios 15:19-20, versão “O Livro”)

Estou contigo!

Ana Ramalho



+ “Rest in Peace”, tradução livre “Descansa em Paz”; 1Fonte: desporto.publico.pt, 21 de Julho de 2010; 2Fonte: ipponforlife-tiagoalves.blogspot.com

in revista BSteen, Novenbro 2010