29 abril 2007

A vala comum

Chegou. Entornou as chaves na cama e o casaco na cadeira. Desfez o nó da gravata, mergulhou no sofá e murmurou “Estou morto!”… a rotina do escritório, o stress da hora de ponta, a inconfundível voz do chefe a exigir tarefas milagrosas para dias com “apenas” 24 horas…

5 minutos bastaram para que o ruído da televisão o embalasse. Voa até ao outro lado e está quase a pousar quando é subitamente interrompido pelo grito do bebé que chora, enquanto luta com a mãe por causa de uma colher de sopa. “Filhos!” abana a cabeça e vira-se para o outro lado, na esperança de encontrar um pouco de descanso, até despertar com o convite emocionante do costume “P’rá mesa! O jantar está pronto!”.

Semi-acordado, arrasta-se até à cozinha. A batalha mãe-filho prossegue, enquanto ele passa os olhos pelo versículo do dia “Desperta, tu que dormes, e levanta-te de entre os mortos e Cristo te esclarecerá.” Ef 5:14… A voz da criança desvanece. A melodia da esposa evapora. Sem avisar, o coração acelera e o olhar abandona o sono e abraça a preocupação. Entra em acção o auto-control. Aguenta. Obedece. Senta-se e come, depois da habitual ladaínha pré-refeição.

Segue-se o diálogo fútil, o "blá-blá" dos problemas deste, das doenças da outra, do amigo que aconteceu… mas aquela frase emerge entre todos os seus pensamentos. Como uma ordem, a martelar na consciência adormecida. Desperta, tu que dormes… Como o carimbo que repisa vezes sem conta no escritório. Levanta-te de entre os mortos… Como o som constante da saída de cópias da fotocopiadora. Desperta, tu que dormes… Como a buzina irritante e repetitiva do automóvel que queria voar por cima da fila, num engarrafamento. Levanta-te. Desperta. TU!

O silêncio da resposta da consciência envolve o seu pensamento, como se dos comentários mudos de um velório inesperado se tratasse. O sussurrar da dúvida adormece o assunto, embrulha o problema num papel negro e tenta arquivá-lo por alguns instantes.

5 minutos, parte 2. De volta ao descanso do guerreiro. Basta ligar e ver… o filme, a novela. Espera um pouco e já está do lado de lá outra vez. Nessa noite, o sono perde-se no eco infinito da Palavra. Estendido na cama onde repousa em paz a sua vida espiritual. A vala comum, que partilha com tantos outros observadores muribundos de uma mera tradição religiosa…

Mas aquela chamada continua… Levanta-te! Tu, que sonhavas com as grandezas do poder de Deus. Desperta! Tu, que eras apaixonado pelas pessoas que estavam longe de conhecer a vida abundante que Jesus dá. Acorda! Tu, que choravas e oravas por mais intimidade com o teu “ex” melhor Amigo… Adormecido pela tradição, embalado na monotonia. Morto pela religião, assassinado pela nostalgia.

“Por causa disto há entre vós (…) muitos que dormem”
1 Co 11:30

Num sobressalto, o Lázaro do Século XXI ressuscita. Agora, envolvido em lágrimas, pelas ataduras dos seus remorsos, ele ergue-se e sai da vala onde foi sepultado.

Aceitou o desafio. Arrependido, mas determinado, baixou a guarda, levantou a cabeça e pediu “Desperta-me, Deus!

Desperta-me, Deus!

20 abril 2007

De Pai para filha


Ele já falou tantas e tantas vezes que perdi a conta. Mensagens, tempo devocional, livros, estudos bíblicos, testemunhos, músicas, profecias... Falou através de homens e de mulheres. Falou através do Seu Filho. Falou ontem.... e hoje? Hoje Ele falou comigo.

As ideias eram as que tantas vezes escutei. O conteúdo não foi alterado, porque Deus não muda. As verdades foram, ao fim e ao cabo, iguais às mesmas que Ele tanto me quis mostrar nos últimos tempos.

Mas eu ficava distraída. Ele insistiu comigo. Usou outra voz para proclamar na minha linguagem aquilo que estava adormecido, a precisar ser despertado. Havia uma parede da minha casa espiritual que estava a ruir pouco a pouco, sem me dar conta. Aquela parede que retocava esta e outra vez. Ele sabia que era preciso mais que tinta. Era preciso uma restauração.

O canal humano quase desapareceu e sobressaiu simplesmente aquilo que o Pai desejava há tanto tempo dizer à filha – eu.

A comunicação da Sua Palavra foi simples, mas enquanto escutava e lia a semente foi entrando, suavemente, no terreno do meu coração. A terra estava preparada pelos dias de agitação interior, pela preocupação disto e daquilo, mas principalmente revolvida pelo suspiro que o Espírito Santo trazia à noite ao meu coração a pedir mais que uma reforma, uma mudança.

É sobrenatural aquilo que Deus faz para nos moldar e transformar para sermos mais como Ele é. O Espírito Santo usou palavras e frases que eu entendi, não apenas pelos sons que escutei, mas pelo que falou docemente ao meu coração. Tocou no âmago, no centro da minha necessidade e levou-me a pedir perdão a Deus no meio das lágrimas que soltava no meu arrependimento. Trouxe um desejo interior inexplicável de ser aquilo que Ele quer que eu seja, antes de tudo - filha.

Tantas vezes Deus nos fala, mas nós distraídos ou adormecidos adiamos aquilo que precisa ser feito. Ele insiste, e ainda bem. Ele tenta mais uma vez. Ele fala de muitas maneiras. A nossa relutância determina o prazo da mudança e restauração do nosso coração – seja em que área for.

O Pai quer falar contigo. Não O ouves?

08 abril 2007

Princípios essenciais para uma Escola Dominical relevante

Há tempo estava a conversar com um amigo pastor acerca do trabalho com esta nova geração. As necessidades e dificuldades inerentes, os desafios que estão à nossa frente. Ele disse algo com o qual concordo plenamente “precisamos apresentar as mesmas verdades, mas com uma nova roupagem”.

Quando penso na minha infância e na Escola Dominical da altura, preciso ser honesta: era um ensino relevante para a minha geração numa linguagem que compreendíamos. No entanto, grande parte dessas pessoas perdeu-se, principalmente na adolescência. O mesmo tem acontecido noutras gerações posteriores e anteriores a esta. Denota-se uma realidade: falhou alguma coisa.

Poderíamos apontar muitas causas para esse factor: a realidade da igreja local, a progressiva alienação da família em relação à sua responsabilidade da educação global dos filhos (vida cristã incluída), as transformações da sociedade nos anos 80 (pós 25 de Abril), entre tantas.

Quero lembrar três coisas que se tornam relevantes ainda hoje para revitalizar a Escola Dominical: o que ensinamos, como ensinamos e quem somos. Para isso, vamos pensar no melhor comunicador e professor de todos os tempos: Jesus. Ele era Mestre e O ensinador por excelência.

A base – o que ensinamos
Ele tinha conhecimento completo e claro das Escrituras. Lemos diversas passagens em que Jesus utilizou excertos do Antigo Testamento. Lembram-se como Ele se defendeu na tentação de Satanás? Através da Palavra de Deus.

Como ensinadores deste Século, precisamos ter sólidas bases doutrinárias e não nos ficarmos pelo “ABC”. Ler, estudar, investigar. É preciso ter para dar àqueles a quem ensinamos que, hoje mais do que nunca, exigem respostas concretas para as questões relevantes dos nossos dias. Os currículos e outros recursos podem ser excelentes como ferramentas, mas a “matéria prima” deve estar na nossa mente e no nosso coração – a Palavra de Deus.

A técnica – como ensinamos
O ensino de Jesus não era apenas expositivo. Ele usou as situações mais diversas como métodos de ensino interactivos. Serviu-se das tempestades para demonstrar aos Seus discípulos que Ele era o Deus todo-poderoso. Utilizou os lírios e as aves para explicar a Sua provisão para o homem. Porque é que Jesus pediu água à mulher que estava junto ao poço? Ele podia ter tirado água para si mesmo, certo? Foi a forma de captar a atenção e ensinar algo que transformaria a vida daquela mulher para sempre e, por consequência, a tornaria Sua testemunha.

Não sejamos escravos de métodos, mas utilizemos aqueles que podem ser mais eficientes para as pessoas que queremos alcançar. Um grande ensinador do Século XX, Howard Hendricks disse “Devemos morrer pela nossa mensagem, não pelos nossos métodos”. Esta geração precisa ser alcançada com métodos que levem os mesmos conteúdos da Palavra de Deus mas numa nova embalagem.

O exemplo – quem somos
Mas Ele ía mais longe. Jesus tinha a sensibilidade de comunicar de acordo com a audiência que estava à Sua frente, não só através de palavras como do Seu exemplo. Quando lavou os pés aos discípulos, deu uma grande lição de serviço e humildade, bem melhor que qualquer discurso sumptuoso. Ele não só falava acerca de amor, como também o fazia – e Ele amou ao ponto de morrer por aqueles que não O amavam.

E nós? Esta geração precisa de pessoas que sejam exemplo. As nossas lições precisam ser compatíveis com as nossas acções. Como Jesus, é preciso uma proximidade que nos comprometa a ser cristãos lado a lado com aqueles a quem ensinamos. Eles podem esquecer as nossas palavras mas irão ser marcados para sempre pelos nossos actos. Como Jesus, devemos depender do Pai, passar tempo com Ele e escutar a Sua voz para que possamos reflectir O seu carácter àqueles que nos rodeiam.

Se queremos criar uma geração de cristãos equilibrados e saudáveis, que seja igreja hoje e dê a mão à igreja de amanhã, precisamos reflectir na nossa forma de ensinar. Ter a base sólida da Palavra, comunicá-la de forma relevante para eles e viver de forma coerente com aquilo que ensinamos, afinal, são três coisas simples e mais que importantes, são urgentes e essenciais na Escola Dominical do Século XXI.


Ana Ramalho


in revista Novas de Alegria, suplemento NAObreiro, Abril 2007

02 abril 2007

Pentecostais "não praticantes"


O título é bastante explícito e até pode ser polémico... A constatação que faço é que estamos perante uma real deficiência da perspectiva do que é ser cristão pentecostal. Em termos globais, constatamos isto no panorama geral da Igreja, sendo o reflexo da crise de cada crente a nível individual, quer seja líder ou não – e isto inclui-me a mim.

Não sou perita em Teologia, nem em História da Igreja, mas quando comparo o livro de Actos dos Apóstolos à realidade do movimento pentecostal no nosso país, de uma forma geral, verifico que existem disparidades e diferenças.

A distorção daquilo que é o cristianismo toca todas as áreas, incluindo esta de tanta importância para nós – os Pentecostais. Vivemos mais do que nunca a igreja do “eu” e não a igreja do “nós”. A experiência pentecostal deveria ser para edificação pessoal, sim, mas sempre tendo em vista a ousadia para sermos testemunhas e também edificar a igreja. Mas o facto é que se foi tornando numa experimentação de sensações passageiras, de calendário marcado, em prol de uma satisfação pessoal.

Este ano comemora-se o centenário do reavivamento pentecostal. Muito se tem escrito acerca do assunto e ainda bem! Todos, de todas as idades, de todas as gerações, que nos intitulamos Pentecostais precisamos realmente parar para reflectir na História e agir... se não queremos passar à história.

Devemos ter o devido equilíbrio em tudo, obviamente, e não estou aqui a tirar o valor de todas as restantes áreas importantes para que a Igreja seja saudável – como um sólido conhecimento doutrinário, a santificação, a consagração, a evangelização, as missões, a acção social, a estruturação e organização da igreja, entre outras. Mas, sejamos honestos, o intitulado Avivamento da Rua Azusa, nos Estados Unidos, despoletou uma explosão evangelística e missionária sem precedentes que alcançou todos os continentes... hoje somos mais de 500 milhões em todo o planeta. Para termos isto, o Pentecostes antes de tudo - como obediência Àquele que nos chamou (Actos 1:8).

A sociedade pós-moderna do imediatismo formatou-nos para um “aqui e agora” arrepiante, mas neste caso não existem formulas mágicas, nem métodos tipo interruptor – basta ligar. Nem podemos viver como saltimbancos em busca de sentimentos alucinantes mas fúteis, como balões de oxigénio que fornecem sobrevivência até ao próximo retiro que leva às lágrimas e ao compromisso descartável, ou ao encontro imediato com um pregador especial que nos diz aquilo que nos faz sentir os maiores do mundo, sem prever condições.

Precisamos deixar a apatia espiritual da religiosidade pentecostal "não praticante", alienados pela fartura material insaciável e inatingível, sabedores da letra, adormecidos na berma da estrada enquanto criticamos tudo o que vimos em movimento e nos chama a atenção e a reacção.


Voltemos simplesmente à Bíblia... deixemos Deus governar de novo as nossas prioridades individuais e comunitárias e não fiquemos satisfeitos com aquilo que temos alcançado na nossa caminhada espiritual. Rasguemos o nosso coração na presença de Deus diariamente, como servos sedentos do Seu Espírito para ir, falar do Evangelho e ser instrumentos de Deus na realização dos sinais por Ele prometidos. Sejamos consumidos pelo desejo de ser transformados pelo fogo do Espírito, guiados, consolados e exortados por Ele. Menos dependentes dos nossos métodos e mais dependentes do Poder de Deus para tudo.

“Neste assunto não há acepção de pessoas ou de igrejas, todos, sem excepção, precisamos de admitir com humildade e contrição que estamos muito aquém da experiência Pentecostal que incendiou o mundo há cem anos atrás.
Se não acordarmos para enfrentar este desafio, corremos o risco de, em vez de um Movimento, nos tornarmos, cada vez mais, num monumento.”

Pr. Luís Reis
Na Obreiro – Janeiro 2007

A Graça de Deus é a mesma e o Seu favor para connosco está disponível tanto para a salvação como, neste caso, para uma vida inundada e transbordante do fogo contagiante o Espírito Santo. Podemos contar com Ele - para saciar a nossa sede espiritual continuamente e para nos tornar incendiários de vidas e gerações... mas a decisão é sempre nossa. O Espírito Santo continua a ser "cavalheiro" quanto às nossas opções.

Sejamos Pentecostais Praticantes, não por tradição mas por experiência e vivência – a começar em mim.