19 setembro 2013

Árvore genealógica – parte 3/3

Hoje chega-se ao fim da árvore genealógica. Chega-se à geração do chamado pós-modernismo ou já a tender para o pós-pós-modernismo. É a geração de Jacob, o tal usurpador…

É a geração para quem a Igreja é um misto de cadeia de fastfood e de low-cost fashion shop. Come-se o que se quer, usa-se o que se quer, tudo a preços mínimos. E normalmente, seguem-se as tendências da moda, sejam elas teoricamente boas ou más! Jacob não era conhecido por ser alguém próximo de Deus. O silêncio bíblico nesse ponto, é quebrado quando com a ajuda da mãe engana o pai, tudo isto para ficar com a bênção que havia comprado ao irmão[1]

Existiu o desrespeito pela primogenitura, tanto por Esaú (que a desbaratou e achou que era transaccionável) como por Jacob (que tendia a fazer tudo para se colocar onde queria). Tal como Jacob, esta geração vê as coisas de uma maneira diferente, não adopta os mesmos costumes dos mais velhos e tende a ver o seu Deus como outro Deus diferente do dos avós ou pais. À sua maneira, a geração de Jacob crê num marcionismo[2] revisto para os dias de hoje. O Deus dos tempos antigos passa a ser um deus entre muitos. O deus pós-moderno e da abastança do amor assume o seu lugar como regente. A geração da híper-graça que vive sem saber (?) no antinomianismo[3] sob o manto de viver a graça superabundante de Cristo. 

Um dos seus ícones, o teólogo-pastor luterano Dietrich Bonhoeffer cunhou aquilo que é a prática usual desta geração e a sua visão da graça: 

A graça barata é a pregação do perdão sem exigir arrependimento, o batismo sem a disciplina da igreja, a Comunhão sem a confissão, a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo, vivo e encarnado[4] 

No fundo é Jacob como usurpador. Usurpa-se de Cristo os conceitos de Graça, amor, perdão, reconciliação, sacrifício, cruz, morte, ressurreição, união, discipulado, etc… A resposta é que o trauma da religião dos antecessores já causou danos em demasia. Vive-se de extremos. Jacob era alguém que também vivia de extremos, mas vivia essencialmente para si. Não interessa se Labão o enganou ou não[5], o modelo de Cristo é diferente[6].

Esse é um dos grandes erros de Jacob, que acaba por se perpetuar na sua descendência e no modo como lidou com os seus filhos. Chama-se relativismo e diz que não existem pilares sólidos, tudo é relativo. Para Jacob tudo era relativo, inclusive a moralidade com que tratava dos seus negócios[7]. De tal maneira, que o pensamento alastrou para as suas duas esposas e ficou-lhes retido que o resultado da desonestidade de Jacob, era afinal uma bênção de Deus[8]

Ou seja, assumem que Deus as abençoa ricamente e advogam o direito de exigir reparação pela má parentalidade de Labão, quando o que se lê é o relato de como o usurpador rouba o enganador. O ditado popular diz que “ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão”. Mas os ditados populares apesar de até serem úteis, são sabedoria populista. Nem sempre o que o povo diz é bom e a multidão nem sempre dá bons conselhos[9]. O que dá maus frutos não pode produzir melhores sementes e isso reflecte-se mais ainda quando Raquel rouba os ídolos da família[10]. 

O PROBLEMA DE JACOB 

Mas afinal qual é o problema? O problema centra-se na visão que Jacob tinha de Deus. Alguém que servia para o abençoar, que era uma desculpa, uma almofada moral para exigir reparação por danos e para viver ao seu gosto, sem arcar com consequências… 

O problema de Jacob não era questionar, mas sim não reconhecer a resposta e tudo o que existia já demonstrado (não existe melhor testemunho que a vida e tanto Abraão, como Isaque foram certamente testemunhos da bênção e segurança de Deus) e partir para as suas próprias conclusões. “Deus abençoa? Sim, mas com uma ajuda humana… “Esta é a inferência que Jacob faz à acção de Deus na vida do Homem. “Deus é poderoso? Sim! Mas será que é real?“ Isto pode muito bem ter ecoado no interior de Jacob. Afinal, ele é o patriarca pós-moderno… 

Esta também é a inferência que a geração pós-moderna faz em relação a Deus e à Igreja. A desconstrução de padrões é uma necessidade, não porque estejam errados (alguns certamente estarão e esses bem podem ser demolidos) mas porque é preciso reinventar. É preciso questionar tudo, é preciso rever tudo… A ideia geral é que a prevalência da declaração de Cristo em Mateus 16:18 torna-se assim relativa. A pedra de fundamento da Igreja deixa de ser a declaração de Pedro e não é mais sólida. O “…as portas do Hades não prevalecerão contra ela [Igreja - nota do editor]” deixa de fazer qualquer sentido. Se tudo é questionável e relativo, se não existem certezas absolutas, então o próprio Senhor passa a ser. Em vez de um só Senhor, Evangelho e Baptismo, passamos a ter tantos quantos quisermos. Submetemos Cristo ao Homem, quando é o Homem que tem que se submeter a Cristo.

E com isso vem a teologia da chave hermenêutica da Bíblia ser Cristo. Troca-se o paradigma em que toda a Igreja assenta, de que Ele é a Palavra viva e em acção[11] e o ponto alto da revelação progressiva que é a Bíblia, para assumir que tudo é visto farisaicamente através de Jesus. Não deixa de ser curioso, que a corrente que quer quebrar com o legalismo e a religião (esquecendo o ensino de Tiago e Paulo acerca da mesma)[12], acaba por instaurar um legalismo próprio e uma religião dissimulada mas presente. Olha-se então para Jesus como suplantador da Lei, como destrutor da Doutrina, como o executor das Ordenanças. 

Olha-se para Jesus a partir de todos os cantos, mesmo aqueles que não estão relacionados com Ele (Cantares e Ester, a matança dos cananeus, a instituição dos diáconos, o vinho que Paulo aconselha Timóteo a tomar, o véu na cabeça das mulheres, a capa que Paulo pede que lhe levem, etc.) e assume-se então que a Igreja está totalmente errada! Força-se Jesus para dentro da caixa, depois de se afirmar tê-Lo tirado de dentro de um caixote. Se não se vê Cristo ali, então algo estamos a fazer de mal. E provavelmente a resposta vai ser "legalismo", "menos Justiça e mais Graça", quando esquecemos que para desfrutarmos da Graça, alguém teve que nos tornar justos. E do modo mais horrendo possível...

Não é desde há 20 ou 40 anos que erramos. Não desde Lutero e Calvino, nem desde Constantino ou dos cismas. Para o pós-moderno, o problema da Igreja está na má concepção que tem do Seu fundador desde há cerca de 2000 anos (e provavelmente mais, se tivermos em conta aqueles que viveram antes de Cristo, mas que não conheceram a plena revelação de Deus). Provavelmente o mesmo pós-moderno que chamaria antiquado ou legalista a Paulo, religioso a Tiago, insensível a Judas e rude a Pedro. 

MUDAM-SE OS TEMPOS… 

Compreendo os anseios desta geração, afinal faço parte da mesma em termos de tempo e espaço. Vemos Deus fazer menos porque cremos (e queremos) que Ele faça menos, mesmo quando clamamos o inverso. Perdeu-se a fé na acção do Deus Eterno, para se crer mais nas metodologias e técnicas do deus pós-moderno. 

O ministério pastoral é substituído pelo management, o discipulado pelo coaching, a exposição da Palavra pelos discursos motivacionais, a santidade pelo relativismo quase-universalista, a doutrina pela graça-barata. Acabam-se as conversões motivadas pelo arrependimento do Homem, por acção do Espírito Santo. O que é válido agora são as decisões ou opções por Jesus. Virar paradigmas de pernas para o ar nem sempre é mau. Mas é péssimo quando dá origem a mais erros, sobretudo se não forem assumidos. E estes são erros que se vão pagar caro, se não é que já não estão a ser cobrados… 

É certo que Cristo redime o Homem e o Homem pode redimir a cultura. Mas não existe espaço para o afrontamento a Deus na Sua Igreja. Questionar Deus é um acto simples do ser humano. Quem questiona Deus com base na busca sincera pela verdade é elucidado pelo próprio Deus. Cristo fulmina a teoria gnóstica da libertação e redenção pelo conhecimento, sobretudo quando diz que é necessário conhecer e permanecer.[13] Questionar nunca será um problema, caso contrário Job teria ficado em branco e seria fulminado. Não, questionar Deus é um exercício que Ele aprecia, porque aí mostra ainda mais toda a Sua Glória, Majestade e Poder. Quem pode não saber responder somos nós, Job que o diga e que ateste a retórica divina… 

Voltamos a Jacob. Sabemos que Deus lhe muda o nome[14], que continua nele a promessa feita anteriormente a Abraão e validada em Isaque. Ele que veio a ser pai de José, sofre na pele a cultura que instaura na sua família quando começa a envelhecer e ganha preferência por um dos filhos. José foi o menino dos seus olhos, a sabedoria humana torna a sobrepor-se à divina e volta-se novamente ao cerne da questão. Deus redime, mas para continuarmos redimidos, temos que continuar com o Redentor bem presente a cada dia. 

É na geração actual que continua o trabalho começado por Deus com os nossos avós, continuado através dos nossos pais e que um dia chegará à mão dos nossos filhos. Não podemos cair no erro de nos acharmos arrogantes, de sermos questionadores ao estilo do “porque sim”. Temos uma caminhada de cerca de dois mil anos e uma Igreja a honrar. Nem tudo em Jacob é mau, nem tudo nesta geração é mau. Temos mais meios, temos mais conhecimento teórico, temos mais canais e caminhos. Parte do terreno já foi desbravado, já temos mapas e sabemos para onde vamos, mas não podemos perder de vista o essencial. 

Deus escolheu Abraão e prometeu-lhe uma multidão de descendentes. Mas também o levou a testes extremos, algo que nos escapa hoje em dia. Subir o Moriá com o filho pela mão não é um caminho alegre. Sacrificar o que mais prezamos não é tão fácil quanto imaginamos. Isaque subiu como sacrifício, desceu como continuador da promessa. Mas não teve que subir o seu monte, nem pensar na sua possível escolha. Desfrutou do que o pai havia conquistado, acumulou e passou ao filho que o enganou. Jacob não subiu ao Moriá, mas passou por Jaboque e teve que lutar com Deus[15]. E da junta que ficou danificada, permaneceu a marca que levou o agora Israel a não mais esquecer esse dia.Todos nós vamos dar com um Moriá ou um Jaboque. Cabe-nos escolher como queremos enfrentar a situação. Se em humildade perante Deus, se em medo perante factores humanos que se nos apresentem. 

A sociedade pode ditar muitas coisas, mas não dita que as portas do Inferno prevaleçam e derrubem a Igreja. E se não ditou com o Renascentismo, nem tão pouco com o Modernismo, não será nesta (nem em qualquer outra) que veremos a Igreja de Cristo derrotada. Podemos traçar várias imagens e planos para a Igreja, mas no fim, é em Actos que encontramos o funcionamento fiel daqueles que são fiéis a Deus. 

“Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos.” Actos 2:42-47 NVI

Ricardo Rosa



[1] - Génesis 17:19-29;
[2] - O marcionismo é uma heresia que defende que o Deus representado no Antigo Testamento é cruel e vingativo, sendo diferente do Deus amoroso do Novo Testamento e por isso inferior;
[3] - Termo cunhado por Lutero no qual se define que debaixo da graça divina, a lei moral de Deus é de pouco/nenhum uso ou obrigação;
[5] - Génesis 29:15-28;
[6] - Mateus 5:39-41; Lucas 6:29;
[7] - Génesis 30:25-42;
[8] - Génesis 31:14-16;
[9] - Êxodo 23:1-3
[10] - Génesis 31:19;
[11] - João 1:1-14;
[12] - Tiago 1:26,27; 1ª Timóteo 5:4;
[13] - João 8:31-33
[14] - Génesis 32:27-29
[15] - Génesis 32:22-24

11 setembro 2013

Árvore genealógica – parte 2/3

As genealogias nunca foram o meu forte. Não porque não ache piada, mas porque por vezes acabo por me perder entre laços familiares, ascendentes, descendentes e outros que tais. Mas no fundo, qualquer família começa com alguém…

Se as gerações mais velhas das nossas igrejas são um pouco como Abraão (dar um olho aqui), então a geração seguinte é a geração de Isaque. E podemos dizer que foi uma geração extremamente abençoada, enriquecida pela obra dos que começaram antes e que desfrutou de tudo o que de bom veio a nascer. Abraão plantou, Isaque colhe. A lei da sementeira funcionou extremamente bem.

Gostemos ou não, Isaque é o primeiro menino bonito da Bíblia. É nele que se começa a cumprir a promessa de Deus a Abraão[1], que numa idade extremamente improvável veio a ser pai[2]. Foi a alegria da mãe[3] e por isso não é de estranhar que possa ter crescido de modo mimado, não num sentido demasiadamente negativo, mas de algum modo mais privilegiado que o seu irmão Ismael.

Esta ilustração ajuda-nos a perceber que muitas vezes, a geração de Isaque vive mais à sombra da geração de Abraão do que faz a sua peregrinação de fé e obediência. É muitas vezes a geração dos nascidos nos bancos da igreja, a geração que toma as coisas por garantidas. Ainda assim, a obediência a Deus acaba por vir em momentos críticos e começa a estabelecer-se[4], a buscar a vontade de Deus e a louvá-Lo sinceramente[5]. É a geração a quem é reconhecida a bênção, não só porque a anterior estabelece os fundamentos, mas porque também erige as paredes e o tecto da habitação. É a geração dos menos sacrifícios e mais folias, é o eterno irmão do meio que não parece destoar, que não tem que dar o litro como o primogénito, mas que também não é irresponsável como o mais novo.

Convém lembrar que muitas vezes é a geração dos milagres gozados e vistos. Isaque é em si um milagre, mas apercebe-se cedo que poderia não ser assim tão milagre quanto isso. Pelo contrário, Isaque é o milagre que recebe um milagre, é o centro da afeição de Abraão e Sara que é mandatado a ser oferecido em sacrifício. Deus distingue aqui os corações sinceros dos vira-casacas.

Uma geração fervilhante que cresce na igreja e é um milagre, Deus torna possível que nasçam e cresçam num ambiente de comunhão trabalhosamente erguido, sem tantas lutas e perseguições, sem tantos dilemas de fé. Goza-se do estatuto da hereditariedade do nome de família, vêem-se doentes ser curados, endemoninhados libertos, milagres, bênçãos e maravilhas… E abre-se a porta a um admirável mundo novo em que a fé é a bússola e os acontecimentos são marcantes. Tão marcante, que por vezes aqueles que se opõem a nós, acabam por reconhecer que Deus afinal sempre é Senhor. Aconteceu o mesmo com Isaque e Abimeleque[6]. É quase uma carta das autoridades para que façamos o nosso barulho, mas para que não os incomodemos em demasiado.

Isaque desfrutou do que Abraão conseguiu em primeiro lugar, não foi forçado ao dilema de escolher entre a posteridade e a voz de Deus. Aceita alianças com quem antes lhe tinha fechado a porta, torna-se mais sociável, mais inserido nos contextos do mundo em que vive. Isto não é um apelo ao eremitismo, é a constatação da verdade. E com as constatações vêm os factos e os resultados. O mundo passa a ser uma ostra e esta geração é a sua pérola.

Quando o mundo funciona em ciclos, as gerações intermédias costuma ser as que mais beneficiam, mas também as que menos influenciam. É no final da Geração X (aqueles que nascem mais perto dos anos de 75/80 do que dos 60) que se situa a geração de Isaque. É a geração das emancipações, do início da construção da auto-satisfação e do ego. A geração do carpe diem elevado a um exponencial alto, que começa a cair na auto-suficiência e que perpetua sem saber porquê padrões de comportamento da geração anterior. Sejam eles bons ou maus[7].

A geração de Isaque é o ponto morto nesta caixa de velocidades. É sempre preciso passar por ele para acelerar, abrandar ou fazer marcha atrás. É sempre necessário lembrarmos do quanto já desfrutámos, do quanto Deus já nos deu e do que ainda vem pela frente. 

Assumimos o compromisso dos nossos avós como hereditário e geneticamente transmissível. Existe um apelo à santidade diferente, nas existe necessidade de arrependimento e de santificação. E o motivo é extremamente básico! Afinal, quem é filho de santo, menos santo não pode ser! Ou pelo menos é o que pensamos…

Ricardo Rosa
[1] - Génesis 17:19,21

[2] - Génesis 17:23,24; 18:10,21:5
[3] - Génesis 21:6,7
[4] - Génesis 26:1-6
[5] - Génesis 26:25
[6] - Génesis 26:26-30
[7] - Génesis 20; 26:7-11

06 setembro 2013

Árvore genealógica – parte 1/3

As gerações do chamado pós-modernismo tendem a crescer como a terceira geração que descende de Abraão. Se a primeira geração abraâmica, ou seja o próprio Abraão (que pode ser mais ou menos equiparada à geração dos nossos avós na actualidade) teve que enfrentar a adversidade social da sua escolha para seguir a Deus; a segunda geração já não o fez (pelo menos tanto). 

Isaque gozou da prosperidade e do compromisso do pai, apesar de se ver envolvido numa prova de fé que dizia respeito ao seu pai[1], a falta de desafios levou-o a ser displicente com a geração que veio dele. Aqui encontramos a parte que diz respeito à geração dos nossos pais e a cada um de nós.

Quando olhamos para a primeira geração, vemos exemplos de que o compromisso com Deus pode ser duro e exigir de nós mais do que o assento comunitário ao domingo. Tal como Abraão deixou tudo para seguir a Deus[2], aquela geração submeteu a sua vida nas mãos do Pai com tudo o que daí advém. E o problema com as gerações posteriores começa aqui…

É fácil gozarmos das heranças dos mais velhos, sobretudo no que toca à igreja local. Muitas das congregações locais que conhecemos foram construídas à custa de orações, joelhos dobrados, trabalho voluntário e sacrificial, paciência, submissão, exortação e discipulado. A caminhada de Abraão e a promessa divina foram trilhadas de modo semelhante por muitos crentes, passando por desavenças sanadas pela Graça, mas também por perseguições em que irmãos socorrem irmãos. Foi o período duro, o período dos fundamentos, a parte da engenharia sobre qual assenta o restante edifício. Abraão respondeu por fé à sua chamada para ver cumprida a promessa que Deus lhe fez, os nossos anciãos responderam em fé ao compromisso com Deus para nos darem a nós a oportunidade de crescermos em santidade e comunhão com eles.

O que Abraão viveu e o modo como se relacionou com Deus levaram a que Abraão O invocasse e caminhasse diariamente com Ele[3]. Perante a fidelidade e compromisso, Deus honra Abraão com um pacto inviolável[4]. Na continuação da história sabemos que talvez inseguro do cumprimento da promessa, Abraão acaba por ter um filho que não era o prometido por Deus[5]. Foi um erro crasso que ainda hoje perdura.

As gerações anteriores também terão cometido os seus erros. No meio da sua ânsia de viverem completamente para Deus, poderão ter cometido os seus exageros e ter visto algumas coisas menos bem vistas. Ou então vistas de modo a que não levassem ninguém a desonrar a sua vida, o nome de Deus e a Sua Igreja.

O facto é que problemas sempre vão existir, tal como exageros ou défices de alguma coisa. Muitas vezes, queremos (à imagem de Abraão) dar uma “pequena” ajuda a Deus no cumprimento das Suas promessas ou da Sua vontade. E isso também aconteceu antes, acontece hoje e vai continuar a acontecer no futuro. A constante é simplesmente uma: somos humanos e mesmo num processo de santificação, ainda caímos e erramos. Precisamos da Graça de Deus para nos levantarmos (muitas vezes com a ajuda dos nossos irmãos e irmãs na fé) e continuarmos a nossa caminhada diária.

Os erros do passado não podem ser desculpa para a nossa rebeldia. Caso contrário, estamos na linha para que isso nos venha a acontecer futuramente. As gerações mais velhas devem ser estimadas e respeitadas, com os seus erros e coisas boas, com as suas seguranças e temores. Mas não podemos esquecer que se muitos de hoje estamos no trilho da fé em Cristo, no caminho da Salvação, é porque Deus usou pessoas que hoje podem estar “fora de moda” para alguns, pessoas que investiam mais tempo em Cristo do que no seu próprio gozo pessoal, pessoas que percebiam que a melhor maneira de perceber qual a vontade de Deus é através da oração, da Palavra e do compromisso.

A geração de Abraão é a geração da luta, do esforço para resistir a tudo o que é oferecido se isso não glorificar a Deus. Também é a geração que aos nossos olhos parece exagerada, aborrecida, ditatorial e castradora. Mas foi uma geração diferente, numa sociedade diferente e num mundo com uma rotação diferente.

Descendemos na fé de Abraão a quem Deus honra e cumpre a promessa de uma descendência infinita, mas também descendemos na fé de todos aqueles que vieram antes de nós e nos proporcionaram a bênção que é crescer dentro do contexto da igreja local, sem perseguição e com irmãos mais velhos para nos aconselharem, ampararem e amarem.

E para que também os honremos, mesmo nas nossas diferenças e divergências de métodos, façamos como Paulo nos ensina perante aquilo que consideremos erros dos mais velhos: “Não repreendas asperamente a um velho, mas admoesta-o como a um pai” (1ª Timóteo 5:11 JFAA)

Ricardo Rosa



[1] - Génesis 22
[2] - Génesis 12:1
[3] - Génesis 12:4, 8, 18; 14:17-20
[4] - Génesis 15
[5] - Génesis 16:1-4

A ecografia - Aventuras de uma gravidez - 2

Aquela era a primeira ecografia que íamos fazer. Sabíamos que vinha um bebé a caminho, mas o momento em que o vimos, pela primeira vez, e ouvimos o seu coração bater, foi ímpar e peculiar.
Embora ainda não soubéssemos se era menino ou menina, tínhamos visto, ainda com poucos centímetros, o nosso bebé. Ali estava uma vida única, especial, como cada pessoa que veio à existência na face da terra.
David registou, inspirado pelo Espírito Santo, talvez a primeira ecografia da História da humanidade. “Foste tu que formaste todo o meu ser; formaste-me no ventre de minha mãe. Louvo-te, ó Altíssimo, e fico maravilhado com os prodígios maravilhosos que são as tuas obras. Conheces intimamente o meu ser.
Quando os meus ossos estavam a ser formados, sem que ninguém o pudesse ver; quando eu me desenvolvia em segredo, nada disso te escapava. Tu viste-me antes de eu estar formado. Tudo isso estava escrito no teu livro; tinhas assinalado todos os dias da minha vida, antes de qualquer deles existir.” (Salmo 139:13-16, BPT).
Seja por anseio dos pais, resultado de um momento irrefletido ou forçado, um bebé é sempre desejado aos olhos de Deus, pois é uma nova vida que vale tudo desde o primeiro momento. Mesmo que isso seja ignorado ao longo da vida e até contrariado pelas ações e reações dos que nos rodeiam, todo o ser humano tem o mesmo valor para Deus, e um grande valor.
“Deus amou de tal modo o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crer não se perca, mas tenha a vida eterna. Não foi para condenar o mundo que Deus lhe enviou o seu Filho, mas sim para que o mundo fosse salvo por ele. Quem crê nele não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus.” (João 3:16-18, BPT)
Deus entregou o Seu Filho para que todos se tornem Seus filhos. Não por obrigação, mas pelo Seu amor e decisão pessoal de cada ser humano.
Se para um casal que ansiava um filho, cada momento do seu crescimento pré e pós natal é especial e tem um cuidado esmerado, muito mais Deus, o nosso criador, deseja receber-nos nos Seus braços para sermos educados, alimentados e crescermos com Ele, num relacionamento amoroso e de respeito.
Mas, porque é que nem todos experimentam esse Pai amoroso que é Deus? Porque estamos de costas voltadas para Ele, ou porque ignoramos o Seu desejo, ou porque temos uma imagem errada do que é a Paternidade divina.
Todas as pessoas anseiam por Ele, mesmo sem o saber. Anseiam por verdadeira segurança, amor desinteressado, um caminho que leve à vida abundante que só Ele promete e dá. Ao entregarmos a nossa vida a Cristo, somos feitos filhos de Deus, a quem passamos a conhecer, reconhecer e a chamar Paizinho, ou querido Pai.
“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos; Aba, Pai. O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito, que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros, também, herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo; se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados.” (Romanos 8:15-17)
Ana Ramalho Rosa

in revista Novas de Alegria, setembro 2013

Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico

05 setembro 2013

House, o paciente de Deus

Sou um fã confesso de séries de televisão e por vezes de séries opostas em termos de género. Não consigo deixar de me rir com personagens como Niles Crane (Frasier) ou Sheldon Cooper (The Big Bang Theory) onde o pretensiosismo, a cultura e o centralismo dão as mãos. 

Talvez por isso, não deixe de simpatizar com o célebre dr. Gregory House (House MD). Não porque me faça rir ou porque tenha tiradas satíricas memoráveis. Na verdade, o que me intriga em relação a este médico que vive nos limites da sensibilidade e do egoísmo, acaba por ser o modo lógico como tende a analisar tudo (tal como Niles Crane) e o sentimento de que ele é o Sol no movimento heliocêntrico da vida de todas as outras pessoas (à imagem e semelhança de Sheldon Cooper).

A lógica e a ciência são as verdadeiras bengalas em que a personagem interpretada por Hugh Laurie se sustenta. O próprio define-se como ateu, na melhor de todas as hipóteses um agnóstico severo (sem sentido de denegrir o quem quer que seja) para quem a hipótese Deus é meramente alucinogénia ou patológica. A sua definição de fé é baseada na ausência lógica e na falta de qualquer experiência[1]. E essa ausência de um elemento teoricamente improvável, leva-o a viver uma vida em que opta por tentar encaixar teorias, leis, probabilidades, métodos e dados de modo satisfatório. Segundo o que aprendemos com este médico, a humanidade é simultaneamente uma doença e uma cura. É o homem pelo Homem, no final de contas, após o último impulso eléctrico ter cessado no corpo humano, tudo o que nos espera é o vazio e o conceito filosófico do nada.

A própria negação da fé de House leva-o a experimentar uma visualização do pós-vida. Numa tentativa de perceber o que existe para além do último fôlego, House electrocuta-se servindo de cientista, cobaia e experiência em simultâneo[2]. O resultado acaba por lhe desagradar e “força-o” a concluir que não existe pós-morte, muito menos o conceito de um deus, seja ele qual for.

É aqui que percebo que esta é uma dúvida que ocorre demasiado, talvez pelo medo do desconhecido, talvez pela falta de uma certeza, talvez porque simplesmente não queiramos aceitar algo que nos recusamos a admitir. House pode ser um médico com resultados clínicos brilhantes (socialmente e humanamente duvidosos no entanto), mas não deixa de ser um paciente para Deus. A sua busca lógica, estruturada e orientada pede não uma prova, mas uma série de evidências inabaláveis que o conduzam a um resultado final.

O mesmo aconteceu aos ouvintes de Paulo no Areópago[3], queriam um raciocínio lógico e irrefutável, algo que Paulo lhes concedeu. Até ao momento em que abrevia pelo atalho falando da ressurreição dos mortos[4]. E mais uma vez, a medicina de Deus proveu pela Graça que a condição do ser humano fosse mudada nas vidas de Dionísio, Dâmaris e outras pessoas[5].

Tudo o que Deus nos dá e faz é por meio da Sua Graça, sendo um pouco como o médico que trata doentes sem seguro. A diferença na medicina de House e de Deus está no facto de que o primeiro é finito e não pode reverter a morte, é-lhe impossível contrariar as leis da natureza em que ele próprio se baseia. Já Deus tem o prazer de baralhar as cartas e tornar a dar, dando vista aos cegos[6], dando voz a mudos[7], restituindo partes do corpo a amputados[8] e anulando a acção da morte ao trazer à vida um amigo[9].

Em tudo isto, o especialista em doenças infecto-contagiosas e nefrologia não consegue deixar de ser um paciente necessitado de uma cura. O vício que mais o transtorna não é o dos analgésicos para uma perna estilhaçada. É o da incerteza sobre quem é o totalitário dono da vida: se o Homem, se Deus… Em comparação com House, todos os efeitos que nega pela lógica, Deus prova-os pela prática e assina o atestado de existência e capacidade. No fundo, o problema de House com Deus não é que não consiga acreditar n’Ele, é o de não querer aceitar que o divino cria as leis e os processos pelos quais nos regemos logicamente e isso dá-lhe sempre uma vantagem, seja em que situação for. E esse é um reflexo do ser humano, não do moderno ou pós-moderno, mas simplesmente do Homem tal e qual como o conhecemos. A ética darwiniana da evolução e adaptação não consegue dar uma resposta a tamanho dilema. Podemos tentar retardar a morte, mas nunca a conseguiremos aniquilar por nós mesmos.

O pecado é uma doença infecto-contagiosa, que acaba por levar a melhor sobre o nosso corpo[10], mas que não deve assenhorar-se da nossa alma. Por essa razão, o anseio furioso de House não é mais do que o Homem à procura da resposta que naturalmente o deveria levar a Deus[11]

Mas porque o pecado continua a sua obra destrutiva em cada um de nós[12], precisamos de perceber que a cura está ao alcance do ser humano e que Yhwh é o nosso médico pessoal...


Ricardo Rosa


[1] - http://www.patheos.com/blogs/friendlyatheist/2008/09/16/house-md-and-atheism/
[2] - http://en.wikipedia.org/wiki/Gregory_House#cite_note-58
[3] - Actos 17:16-33
[4] - Actos 17:32
[5] - Actos 17:33
[6] - Mateus 9:27-31; Marcos 8:22-26; João 9:1-12
[7] - Mateus 9:32-34
[8] - Lucas 22:50,51
[9] - João 11:1-45
[10] - Salmo 89:48
[11] - Romanos 1:20
[12] - Eclesiastes 7:20; Romanos 3:23, 5:12; 1ª Coríntios 15:21

01 setembro 2013

“Muda as estatísticas”*

Este verão, uma conhecida marca de refrigerantes lançou uma campanha com o título “Muda as estatísticas”. O objetivo era alertar para uma série de riscos previstos estatisticamente, se continuarmos a ser preguiçosos (estilo de vida sedentário).

Sejam as nossas resoluções a resposta ao desafio de um anúncio, à emoção do ano novo ou ao apelo de um retiro, o facto é que a maioria delas fica-se pelo caminho. Aliás, às vezes parece que fazemos é tudo ao contrário.

O nosso mano Paulo tinha o mesmo problema que nós. Não em relação a perder peso ou fazer mais exercício, mas em relação à sua obediência a Deus. “Encontro pois em mim esta regra: quando eu quero fazer o bem, faço mas é o mal.” (Romanos 7:21, BPT). Não te acontece o mesmo?

A verdade é que não basta reconhecermos que somos pecadores e recebermos Jesus como salvador para termos garantia que a nossa vida com Deus vai ser “sempre a subir”. Temos tentações, dúvidas, lutas, e a nossa tendência para pecar, que está em constante “guerra” com o que Deus deseja para a nossa vida.

A Bíblia dá-nos várias pistas para vivermos com Deus e para Deus:
- Vive perto de Jesus, conversa com Ele e deixa que fale ao teu coração pela Palavra“Permaneçam em mim, que eu permaneço em vós. Um ramo não pode dar fruto por si só, se não estiver unido à videira. Por isso, não podem dar fruto se não estiverem unidos a mim.” (João 15:4, BPT)
- Deixa que o Espírito Santo trabalhe no teu coração - “Mas o fruto que o Espírito produz em nós é: o amor, a alegria, a paz, a paciência, a bondade, a delicadeza no trato com os outros, a fidelidade, a brandura, o domínio de si próprio. Em relação àqueles que vivem desta maneira, a lei nem sequer tem necessidade de existir.” (Gálatas 5:22-23, OL)
- Afasta-te de situações que te possam levar a ser tentado - “Portanto, sejam submissos a Deus e resistam ao Diabo, que ele fugirá de vós.” (Tiago 4:7, BPT)
- Se apesar de tudo isso pecares, arrepende-te, pede perdão a Jesus e às pessoas que ofendeste (se existirem) - “Meus filhinhos, digo-vos isto para que se mantenham longe do pecado; mas se pecarem, existe um advogado a nosso favor junto do Pai. É Jesus Cristo, o justo.” (1 João 2:1, OL)

Estou contigo!

Ana Ramalho Rosa



*Tema da Campanha da Coca-Cola, verão 2013

in revista BSteen, setembro 2013

Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico