01 novembro 2007

Como nós

Um homem, um jardim, um momento de agonia. No intervalo entre a traição de um amigo e a cobardia de outros, prestes a enfrentar a mais terrível das mortes, o sofrimento físico da “prova final” que se adivinha acelera o ritmo cardíaco.

Na oração o gotejar de palavras misturam o desejo de obediência ao Pai com a ansiedade humana natural. O suor intenso expressa a pressão, perante a morte imerecida mas voluntária. As emoções aglutinam-se, terminando naquele episódio de depressão, único na infinita história do Filho de Deus.1

Ele esteve entre nós. Verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. No meio deste mistério, Jesus sujeitou-se a tudo aquilo que o ser humano passa. Foi educado pelos seus pais, teve amigos, passou pela dor da separação perante a morte de alguém chegado, teve fome, sede, sentiu-se cansado. Partilhou da alegria de uma festa de casamento, aconselhou, aceitou a hospitalidade de amigos. A sua vida teve de tudo um pouco, como a nossa.

Mas, no culminar da Sua tarefa na terra, passou pelos momentos de maior sofrimento. “Então lhes disse: A minha alma está triste até a morte; ficai aqui e vigiai comigo.”2 Como homem, Ele depende do Pai e precisa dos outros.

No meio da agonia, aprendemos tanto com Jesus! Primeiro que tudo, Ele sabe o que é estar em angústia extrema. Ele compreende quando alguém desgastado enfrenta situações aflitivas, mesmo que naturalmente inerentes à vida humana.

Depois, vemos a Sua reacção. Quando a pressão se transforma em depressão, Jesus não fica inerte, nem paralisado pela dificuldade. Ele revela aquilo que cada um de nós precisa fazer prioritariamente nessas alturas: ir aos pés do Pai. É nos momentos de íntima comunhão que entregamos tudo o que somos a Deus, incluindo a dor, o sofrimento, a incerteza. Quem nos poderá dar a paz, a segurança, a cura interior eficazes? Deus pode operar. O próprio Espírito de Deus ajuda-nos quando oramos e intercede por nós.3

Finalmente, Jesus solicita a solidariedade dos seus amigos nesta fase difícil. Antes de apontar o dedo aos discípulos pela sua indiferença, talvez cada um de nós precise olhar para dentro. É necessário verificarmos se, perante a demanda das necessidades alheias, temos sido solidários, em amor cristão. Podemos não ter formação específica para resolver as situações, mas é-nos possível orar e procurar auxílio junto das nossas lideranças e pessoas credenciadas para tal. Isso é mais que “cumprir uma obrigação”. Isso é ser igreja.

Se nós próprios enfrentamos depressões, procuremos também apoio, sem complexos nem vergonha. Afinal, Jesus fez o mesmo. Uma ajuda apropriada pode servir de veículo da acção de Deus em nós, mas não caiamos no erro de fazer dos outros “muletas” – quer sejam pastores, amigos ou psicólogos.

Na pressão ou depressão, entreguemos tudo a Deus, levemos as cargas uns dos outros e lembremo-nos que Jesus nos compreende.

“Por isso, era necessário que Jesus fosse em tudo semelhante aos seus irmãos, e que por consequência pudesse ser nosso fiel supremo sacerdote, cheio de compaixão.”
Hebreus 2:17a (O Livro)

Ana Ramalho


1 Mateus 26:36 a 46; Lucas 22:39 a 46
2 Mateus 26:38 (ARA)
3 Romanos 8:26


Bibliografia Consultada
CHAMPLIN, Russel N. O Novo testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Candeia, 1995. Volume I;
PERLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. Rio de Janeiro: Emprevan Editora, 1973. 4ª edição.
TASKER, R. V. G. Evangelho Segundo Mateus, introdução e comentário. Vida Nova, 1980.

in revista Novas de Alegria, Novembro 2007

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