Não vás em “Deolindas”

É tempo de fazer História... à maneira de Deus


Eu não vou em “Deolindas”. Lamento desiludir todos os cristãos mais propensos a uma boa manifestação anti-governo – espero que não façam nenhum protesto anti-ana ramalho no final. Provavelmente vou trair as raízes familiares que do lado feminino da minha ascendência se destacaram por um vermelho revolucionário.
Não vou atrás de cantigas que espelham a realidade num tom negativo, mas não oferecem um caminho. Empolam o tão português queixume mas não dão uma mensagem de esperança, uma solução. Já estamos suficientemente em baixo como nação para cantarmos “Que parva eu sou” sem pensar, renunciando à nossa identidade como cristãos.
O tema popular faz uma constatação, uma fotografia social, mas não basta cantar, fazer cartazes ou falar. É preciso agir! Também não é minha intenção generalizar... cada caso é um caso. No entanto vejo e ouço uma franja de pessoas estagnada à espera que algo milagroso aconteça, exigindo muito e lutando pouco.

QUEM DITA A TUA IDENTIDADE?
Na convocatória da manifestação de 12 de Março, todos foram convidados. Para meu espanto, muitos cristãos entraram na onda, foram atrás do grito de revolta, mesmo que pacífico... (Um desabafo: pena não termos todos o mesmo empenho quando nos convocam para marcharmos por Jesus).
Não estou com todo este discurso meio irónico porque vivo num mundo fechado e ignoro a crise, os cortes de apoios, a subida de impostos, a luta de muitos jovens recém-licenciados por uma oportunidade de trabalho, etc. Já passei por isso. Tenho amigos nesta situação, cristãos e não cristãos. Devemos reconhecer a realidade mas procurar um caminho, uma resposta e não esperar apenas que sejam os outros a fazê-lo por nós. Mas penso que a nossa postura como seguidores de Cristo não pode ser a mesma da maioria - reclamar. Precisamos parar e pensar.
Os cidadãos do Reino de Deus são chamados a fazer manifestações todos os dias – manifestações de amor, pacificadoras, misericordiosas, de coragem, empenho, excelência e obediência. Perder a coragem e reclamar é muito fácil. Confiar que Deus está a cuidar de nós é mais difícil. Mas Ele ainda é Deus.
“Não andem preocupados a dizer: ‘Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?’ Os pagãos, esses é que se preocupam com todas essas coisas. O vosso Pai celestial sabe muito bem que vocês precisam de tudo isso. Procurem primeiro o reino de Deus e a sua vontade e tudo isso vos será dado. Portanto, não devem andar preocupados com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia a sua dificuldade.” (Mateus 6:31-36, versão “A Bíblia para Todos”)
Eu sou da geração eleita, mesmo que não tenha remuneração. Eu sou do povo querido de Deus, mesmo que nenhuma empresa me queira receber. Eu pertenço a uma nação santa, mesmo que esteja rodeada por um sistema corrupto deste mundo em que sou peregrina. Quem dita a minha identidade não é uma canção, um rótulo – é Cristo. Se Ele morreu por mim eu devo valer a pena. Se Ele prometeu que me daria o que preciso, devo confiar que fazendo a minha parte, Ele fará a d’Ele.

“COMO É QUE DEUS ME VAI AJUDAR?”
A título de exemplo, aqui ficam algumas sugestões.
Não estejas à espera de terminar o curso para te envolveres em projectos. Trabalha para o teu futuro antes de teres emprego.
Se andas à procura de trabalho, faz o teu melhor. Fala com pessoas que estejam no mercado de trabalho, procura alternativas à tua área de estudos e vê se tens hipótese noutro país. Procura pessoas que possam estar contigo nesta fase. Acima de tudo ora a Deus e confia na Sua provisão. Pensa nas soluções e não pares de lutar porque o teu Pai amoroso que está no Céu está interessado em cuidar de ti. Aconselha-te, planifica, informa-te, ora e tenta. Senão conseguires, tenta de novo. Não desistas!
Quantas associações de cariz social das nossas igrejas, e não só, precisam de voluntários enquanto ficamos isolados em casa, entregues à desmotivação? Talvez o contacto com realidades bem piores do que a nossa nos torne mais gratos a Deus pelo que temos e somos e nos tire esta tendência de não vermos como Ele vê – e nos ajude a ter ânimo para procurar alternativas.
Estão-se a abrir portas para pessoas com formação superior noutros países. Imaginem o que será quando jovens cristãos licenciados aceitarem o desafio e forem não apenas para encher os bolsos de dinheiro mas o Céu de portugueses e portuguesas que emigraram também? Conheço várias pessoas que o fizeram depois de muitas tentativas em superar a crise. Oraram, pensaram, foram e começaram do zero. Não ficaram a “Deolindar” por aí à espera que as coisas mudassem. E como estes heróis, que me trouxeram ao mundo, outras pessoas têm tomado outros rumos.
Talvez o nosso (meu) problema seja estarmos habituados a ter tudo como garantido e agora, porque a crise se expandiu, a nossa segurança no sistema e nas coisas estar a dissipar-se mais e mais. Provavelmente pensávamos que ser filhos de Deus era ter tudo sempre de bandeja, sem lutas, sem provas de perseverança, sem perdermos o controlo para podermos entregar-nos totalmente a Ele – e não apenas dizermos que Ele é o Senhor – em especial quando tínhamos os papás com um emprego, quando ainda nos podiam sustentar.

FAZER HISTÓRIA... É AGORA!
Em vez de recitarmos hinos alheios de queixumes numa espécie de fado arruaceiro, dobremos os joelhos para orar, arregacemos as mangas para vasculhar soluções, sempre conscientes de que não são cartazes exigentes que cuidam de nós, nem brados revolucionários que são o nosso sustento – ele vem de Deus. A nossa esperança no sustento de Deus, e a nossa confiança nas Suas promessas, assumindo o nosso papel conscientemente no processo vão mostrar a diferença e levar-nos a ajudarmos outros que nos rodeiam a entregar as suas vidas ao nosso Pai.
Além do mais, precisamos agir como igreja – individualmente e como corpo de Cristo. Ter que fazer alguma coisa pelos outros faz-nos sair da nossa zona de conforto – e não gostamos – mas ou tomamos uma atitude de ajuda mútua ou simplesmente caímos na mesma atitude egoísta que condenamos nos outros.
Há anos atrás cantávamos emocionados que queríamos fazer História nesta nação. Deus ouviu-nos. Este é o momento.
 “Jovens, sejam obedientes aos mais velhos. Sejam todos humildes uns para com os outros, pois a Escritura diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes. Sejam humildes, portanto, e submissos ao poder de Deus, para que ele vos eleve no devido tempo. Confiem-lhe todos os vossos problemas, porque ele se preocupa convosco.” (1 Pedro 5:5-7, versão “A Bíblia para Todos”)


Ana Ramalho Rosa

in revista Novas de Alegria, suplemento NAJovem, Maio 2011

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Teresa — até que todos ouvissem...

5 mitos acerca da chamada a tempo integral

A (des)ilusão da autoajuda