02 junho 2011

Soluços e solavancos de um retornado

Esbarrei na lama e caí, de cara inteira no chão imundo, de plena vontade, sem um só empurrão. Fiz a minha cama, limitadamente saborosa e  indiscutivelmente assassina da verdadeira liberdade, e nela me deitei, à procura daquilo que tive mas deixei atrás da porta do quarto fechado do meu coração.
Esvaí-me em prazer pelo prazer, em saltos para fazer crescer a minha “auto-estima”, dancei ao ritmo de uma revolta que expelia ódio, mágoa e terror dos meus outros dias – os dias da segurança e da (a)liberdade aparente. Os dias de barriga cheia, cama e roupa lavada que troquei pela minha vontade. Tudo isto seria evitável mas eu não me evitei.
Passei a soluçar-me do meu destino auto-decidido, a contorcer-me nas minha mágoas e loucuras, a regredir no tempo sem passar do espaço que tenho, entre suínos ensurdecedores e bolotas de acusação que me ferem a consciência e me lembram da minha podridão.
Trago nos braços nada. Trago no coração tudo. Tudo o que vivi nesta minha vaga de fúria infeliz, a pensar que encontraria felicidade alheia às paisagens sossegadas que se me apresentaram antes de tudo isto. Trago todas as marcas, o medo, a vergonha, a frustração, o orgulho, a humilhação, a agonia do resultado das escolhas míopes que fiz. É esta a soma ignóbil que depositarei aos pés de quem me quiser quando regressar.
E fui. Fiz-me ao caminho a tremer de medo, enquanto imagino a vergonha que passarei perante os outros. Do tesouro que derreti sem dó nem piedade, resto eu – nada mais. Dos sonhos que esbanjei à boca cheia quando bati com a porta, restam roupas embebidas em esterco – apenas isso. Dos amigos que tinha quando era o maior do reino na independência, resta a solidão – só.
É assim que me apresento. É assim que sigo. O estômago desocupado explora um andar aos solavancos, desorientado, desequilibrado. A mente viaja no momento do confronto, do desaire, da sentença. A decisão é pagar. Pagar pelo que voou porque não se pode andar para trás no tempo. É baixar a cabeça nos sarcasmos dos que ficaram, e suportar a afronta dos que me trouxeram ao mundo. Bati muito fundo. Parti a louça toda, e agora o que trago são os cacos do meu coração. O mealheiro partido de todas as minhas seguranças, de todas as minha posses, de todas as minhas possibilidades.
“E ainda vinha longe, seu pai, vendo-o aproximar-se, e cheio de terna compaixão, correu ao seu encontro, abraçando-o e beijando-o. O filho disse-lhe: 'Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já nem mereço ser chamado teu filho.' Mas o pai disse aos criados: 'Depressa, tragam o manto melhor que houver em casa e vistam-lho; e ponham-lhe um anel no dedo e calçado novo! Matem o bezerro que estamos a engordar; porque vai haver grande festa, pois este meu filho estava como morto e voltou à vida; estava perdido e tornou a ser achado.' Com isto começou o banquete.” (Lucas 15:20-21 – Versão “O Livro”)


Ana Ramalho Rosa

in revista Novas de Alegria, Junho 2011

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