Crónica de um pai abandonado


A minha rotina matinal era a mesma há mais de 40 anos. Primeiro a higiene, depois a oração e finalmente o pequeno almoço. Mas, naquela manhã, tudo foi diferente.

Acordei às 6h da manhã, e não conseguia adormecer, às voltas na minha cama. Durante semanas o meu filho mais novo, Nuno, insistia em vender a sua quota na nossa empresa para poder “seguir com a vida”, como dizia.

Conversámos horas acerca do assunto. Ele era destemido, mas inexperiente. Queria abrir um negócio por sua conta e risco, no sul de Espanha... Expliquei-lhe que era arriscado fazer sociedade num mercado desconhecido, com um sócio de quem mal sabíamos o passado.
“Não interessa, pai!” respondia ele “é a minha oportunidade de sair daqui, de ser independente, de viver a minha vida à minha maneira...”.

Um pai faz o melhor que pode para cuidar e educar os filhos, mas não pode amarrá-los à sua vontade, por mais bem intencionada que seja. Como não conseguimos comprador para a quota do Nuno, eu mesmo tratei de ficar com ela. Agora, tudo era possível...

6h30. Comecei a ouvir um barulho no andar de cima. Gavetas, portas a bater, passos apressados... o que estaria o Nuno a fazer? Alguém desce as escadas. A porta da rua fecha-se sem cuidado. O som de um automóvel faz-me saltar da cama e ir até à porta. Ele tinha partido.

Um recado em cima da mesa da cozinha apenas dizia “Adeus, pai. Quando chegar mando notícias”. A minha oração naquela manhã irrompeu com lágrimas de compaixão, em intercessão por aquele filho... Era um pai abandonado, sem razão plausível.

Dois dias depois, um telefonema para dizer que estava tudo bem. Os meses foram passando. As notícias eram cada vez mais espaçadas e menos “felizes”, até que deixaram de chegar. Tentei ligar vezes sem conta. Nada. As chamadas eram recusadas. Escrevi, mas a resposta não chegava, até que as cartas vinham devolvidas... Onde estaria o meu filho? Eu ainda o amava. O meu desejo era vê-lo, falar com ele, abraçá-lo...

O que eu não imaginava era que o Nuno iria mesmo regressar. Era um dia de chuva. Eu saí para ir almoçar. Antes de entrar no meu carro, um mendigo magro e nauseabundo aproxima-se de mim. “Estranho” pensei “aquele tipo é-me familiar”. Fiquei estático e, conforme ele se aproximava, ia reconhecendo o andar, a pose, o rosto.

“Pai! Perdoa-me! Pequei contra ti e contra Deus! Não mereço ser chamado teu filho...”. Ele tinha perdido tudo... mas ganhou coragem para regressar. Abandonou-se nos meus braços. Chorámos. Os funcionários começaram a aproximar-se, curiosos e preocupados, ao verem-me abraçado a um mendigo.

“Hoje ninguém mais trabalha! Vamos fazer uma festa!” gritei, enquanto limpava as lágrimas... “O Nuno voltou! Precisa de um banho e de uma roupa nova.. mas já vamos tratar disso. Preparem a celebração! Porque o meu filho estava perdido, mas foi encontrado. Estava morto, mas agora está vivo de novo”.

Deus também está à espera de cada homem e mulher. Ele deseja receber-nos, mesmo que o nosso coração esteja miseravelmente destroçado. Abandonemo-nos nos Seus braços de amor.

Ana Ramalho

(baseado na parábola dos dois filhos, registada em Lucas 15)


in revista Novas de Alegria, Junho 2009

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