05 março 2014

A bata azul

Ao palmilhar o espaço comercial submerso pela multidão, cruzo-me com ela – uma mulher de bata, de olhar cabisbaixo, apoiada na companheira daquelas horas de trabalho, uma esfregona.
Mãe solteira aos 16 anos, deixou-se desiludir pelo amor e decidiu seguir em frente, mas voltou a entregar-se em busca de um amor que não encontrou e viu-se com duas crianças nos braços, ainda não tinha feito 21 anos.
Ajeita a sua bata azul, já manchada pela labuta do seu dia, e segue para o corredor até à outra casa de banho. Ela espera pela sua vez de entrar e limpar o que os outros sujaram. A multidão que se cruza ignora-a de todo, excepto se estiver a impedir-lhe o caminho. Na sua face a expressão de uma certa angústia e melancolia pela poluição emocional que lhe arrasta o coração de casa para o emprego, do emprego para casa, à boleia da má fama do bairro em que sobrevive.
A sua vida, como a sua bata, há muito abandonou o estado original. A esperança ficou pelo caminho. A mancha dos seus erros espantou-lhe a alegria. As mágoas alheias estragaram-lhe a autenticidade.
Enquanto a vejo, lembro-me de tantas pessoas que conheço. De tantos casos rotulados como perdidos, que foram achados e restaurados por Deus. E lembro-me também da nossa insensibilidade quando estamos aqui e ali, fora das quatro paredes do Templo... “Jesus propôs mais outra parábola para alguns que se julgavam pessoas muito justas e desprezavam os outros: ‘Dois homens foram ao templo para orar. Um deles era fariseu e o outro cobrador de impostos. O fariseu, altivo, orava assim: «Ó Deus, agradeço-te porque não sou como os outros, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este cobrador de impostos que ali está. Jejuo duas vezes na semana e dou a décima parte de tudo o que ganho.» Mas o cobrador de impostos ficou à distância e nem sequer se atrevia a levantar os olhos para o céu; apenas batia com a mão no peito e dizia: «Ó meu Deus, tem compaixão de mim, que sou pecador!»’ E Jesus concluiu: ‘Afirmo-vos que o cobrador de impostos foi para sua casa justificado aos olhos de Deus, ao contrário do fariseu. Pois todo aquele que se engrandece será humilhado e todo o que se humilha será engrandecido’.” (Lucas 18:9-14, BPT).
Quando olhamos para o lado, fingimos que não vemos ou nos “congratulamos” por sermos “melhores”, como se o fossemos por mérito próprio e como se isso nos desse o direito de nos sentirmos superiores. Mas Jesus explicou: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ora eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.” (Marcos 2:17, BPT)
Jesus veio para aqueles que admitem a sua necessidade, a sua mancha, o seu pecado e más decisões. É essa atitude, de humildade e renúncia, o pano de fundo para uma entrega total a Cristo e para que Ele nos torne em novas pessoas, nos limpe e transforme, dia a dia, e outros reconheçam aquilo que Ele é e faz, pela Sua imensa graça, em nós.
O Seu convite continua de pé. “Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso. Aceitem o meu jugo e aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração. Assim o vosso coração encontrará descanso, pois o meu jugo é agradável e os meus fardos são leves.” (Mateus 11:28-30, BPT)


Ana Ramalho Rosa

in revista Novas de Alegria, março 2014


Texto escrito conforme o novo acordo ortográfico

Sem comentários: