Dormir com o inimigo

Uma traição nunca começa como tal. Tudo se inicia com um desejo que, sendo alimentado e proporcionado pelo ambiente certo, dá à luz a criação de um percurso de avanços e recuos, até se concretizar.

Como Sansão se deixou seduzir pelas mulheres do povo inimigo, que era suposto ele destruir, pensamos por vezes que podemos brincar com as forças inimigas do nosso bem-estar espiritual – a nossa natureza pecaminosa, o sistema altamente produzido do mundo, ambos influenciados pelo arquitecto da nossa desgraça, Satanás.

Pode acontecer no auge, numa fase de solidão ou desilusão. Pode ser uma volta de 180º ou um processo lento, quase imperceptível. Começamos por deixar de acreditar em Deus e em partes da Sua vontade para a nossa vida. Depois, vamos rondando os valores mundo, a suposta satisfação de não ter limites, mas acreditamos ser auto-suficientes para resistir. Como Sansão, achamos que a nossa força é eterna.

A seguir, a nossa paixão começa a dar-nos momentos de apatia, a pensar nos anjos sem asas que nos rodeiam e que nunca nos irão frustrar, no quanto vamos ser realizados e felizes no momento em que pudermos saltar a cerca da nossa protecção espiritual e comer mais um pouco dos saborosos manjares daquilo que a nossa velha natureza gosta.

Esquecemos que a cerca está ali para nos proteger... e até culpamos Deus e “aqueles fanáticos” por limitar o nosso prazer... Arranjamos os nossos argumentos, para nos sentirmos bem... não queremos sequer pensar que estamos a ficar agarrados, presos e imobilizados. E continuamos a dissimular a nossa espiritualidade, contando que cumpramos os nossos deveres de cristão todo o santo fim de semana...

A dose de anestesia que Satanás vai introduzindo pelas veias dos nossos desejos corruptos tira-nos a visão espiritual, corrompe o nosso estilo de vida e leva-nos a uma espiral de conformismo com a situação. Se Deus contende connosco e nos manda alertas, remediamos com um pedido de perdão e seguimos o mesmo caminho na nossa própria força, sem querer retroceder um milímetro.

Se não acordarmos no meio deste processo, e não nos afastarmos das saias que tentam a nossa espiritualidade, podemos cair... dormir com o inimigo e acabar por dar à luz a nossa perdição.

É verdade que o sal não pode ficar dentro do saleiro para temperar, mas também é uma realidade que se pode tornar insípido – sem valor.

Muitos têm fechado os olhos e, quando acordam, têm a “última hipótese” de fazer a vontade de Deus, tal como aconteceu com o cego Sansão no final da vida.

Eu não quero morrer nos escombros das minhas más decisões, num último acto heróico. Eu não quero que seja necessário ficar cega e inútil para ver como perdi a minha vida por namorar uns momentos de prazer efémero, sejam eles quais forem, e trair o meu Amado.

Deus, por favor, ajuda-me a compreender que se não renovares a minha visão espiritual a cada dia, posso cair em amores proibidos, sejam eles o ódio, a inveja, a murmuração, a ganância, a arrogância, o egoísmo, a indiferença, a lascívia, a sensualidade, a mentira, a manipulação, os vícios, qualquer forma de jugo desigual que destrua o nosso noivado. Que eu Te ame sempre, e me dedique àqueles que Tu amas, como desejas que faça. Que eu compreenda que me podes levar para o vale, mas que eu nunca crie esse vale e fique dependente de mim mesma.

Assim seja.

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